Nova chacina policial no Complexo do Alemão

A operação contou 400 agentes, que deixou 18 pessoas mortas, segundo a polícia. A Defensoria Pública afirma que o número é maior. Baseado em informações de unidades de saúde da região até o inicio da noite desta quinta-feira, a Defensoria diz que a chacina deixou pelo menos 20 mortos.

Moradores carregam corpos durante chacina no Complexo do Alemão — Foto: Reprodução

Nesta quinta-feira (21), moradoras e moradores de favelas da cidade do Rio de Janeiro, desta vez no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, foram vítimas de uma nova chacina policial em mais uma operação da Polícia Civil em conjunto com a Polícia Militar. A operação contou 400 agentes, que deixou 18 pessoas mortas, segundo a polícia.

A Defensoria Pública do afirma que o número é maior. Baseado em informações de unidades de saúde da região até o inicio da noite desta quinta-feira, a Defensoria diz que a chacina deixou pelo menos 20 mortos. Uma dessas, Letícia Marinho de Sales, baleada dentro do carro e socorrida pelos próprios parentes.

Em 1 ano, de maio de 2021 a maio de 2022, a gestão do governador Cláudio Castro (PL) registrou 31 chacinas com 165 mortos em operações policiais, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado e o GENI – Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF (Universidade Federal Fluminense). Os pesquisadores consideram chacina uma operação com três ou mais mortes.

Helicópteros com atiradores apresentaram um cenário de do Estado durante toda a manhã. Diversas pessoas foram atingidas de raspão ou por estilhaços. Algumas delas ainda estavam na cama.

Imagens dos próprios moradores retirando corpos em carrocerias cobertos com lençóis evidencia a barbárie de uma política de segurança pública que não pretende proteger vidas, mas atacar territórios criminalizados e marginalizados, de maioria pobre e preta.

O governador segue usando chacinas como campanha eleitoral:

No Brasil, chacina é campanha eleitoral. O atual governador do estado do Rio, Cláudio Castro (PL), demonstra isso abertamente em seu perfil no Twitter, atacando seu principal adversário e sequer se solidarizando com as famílias das pessoas mortas — Imagem: Twitter

Segundo o Fórum Popular de Segurança Pública do Rio de Janeiro (FPOPSEG), moradores e moradoras relatam o uso da “Tróia”, ação em que agentes da polícia usam casas da favela como base e disfarce para atacar de surpresa. Uma ação completamente ilegal. Denunciam também a utilização de mandatos coletivos e outras violações invadindo casas.

Não é novidade que após a morte de policiais em qualquer operação, ela se torne uma “operação vingança”, em que agentes da polícia atacam a favela, atirando e matando, indiscriminadamente.

O governador do estado segue descumprindo a liminar de suspensão das operações policiais. A polícia ignora a determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da ADPF (Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental) 635, ou “ADPF das Favelas”, que restringe as operações policiais em favelas do Rio. Qualquer investida em comunidades precisa ser avisada ao Ministério Público e ter uma justificativa.

O FPOPSEG cobra o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) que segue não realizando o seu papel constitucional de controle externo das polícias. O Fórum oficiou o MPRJ relatando as violações, solicitando informações e exigindo o controle das polícias.

Até o momento, apenas 12 pessoas foram identificadas.

Assista o vídeo produzido pelo Jornal A Nova Democracia:

Segundo a própria polícia, 4 pessoas não tinham antecedentes criminais: Luiz Claudio Rozendo Lopes Junior, Marcos Paulo Nascimento da Silva, Wellington Moura da Silva Júnior e Letícia Marinho, citada acima. Oito pessoas identificadas possuem “anotações criminais por tráfico”. É bom destacar que nada justifica uma chacina – com 20 pessoas assassinadas.

Também lembrar que até mesmo um usuário de drogas pode ter “anotação criminal por tráfico”. Quando a polícia usa desses antecedentes como justificativa é apenas a continuação da violência.

Letícia Marinho Sales, assassinada no Complexo do Alemão — Foto: Arquivo Pessoal

A violência do Estado

Somente em 2020, 64% das pessoas baleadas no estado foram atingidos durante ações e operações policiais, segundo o Instituto Fogo Cruzado. Jacarezinho foi o local que mais sofreu com massacres.

Ainda no mesmo ano, somente em março e abril, 290 pessoas morreram no Estado em operações policiais, embora parte da população estivesse confinada em casa por recomendação das autoridades e os crimes em geral tenham diminuído. Esse número de vítimas equivale a um terço dos mortos pela polícia norte-americana em todo o ano de 2019.

As 290 mortes por intervenção policial no Rio – em dois meses marcados pelo confinamento para conter os contágios por coronavírus – representam um aumento de 13% em relação a 2019, ano em que as mortes já foram recorde. Só em abril, o número de mortes subiu 43% em relação ao mesmo mês do ano passado. No quadrimestre, o Rio soma 606 mortes pela ação do Estado – 8% a mais que no mesmo período de 2019, conforme dados do Instituto de Segurança Pública.

Em 2021, em uma operação da Polícia Civil e Militar na Favela do Jacarezinho, Zona Norte do Rio, 27 pessoas foram assassinadas. O caso ficou conhecido como a “Chacina do Jacarezinho”. Neste ano, 23 pessoas foram mortas pela polícia na Vila Cruzeiro, na Penha, também na Zona Norte da cidade. As chacinas policiais são comuns no Rio de Janeiro.

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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