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Da sauna ao caldeirão: o Novo Ensino Médio e a política de educação do Rio cozinham receita de violência

Com salas superlotadas, sem climatização e professores precarizados, o estado do Rio de Janeiro pode promover um banquete de cólera nas escolas públicas.

Fotos da Sala Maker de uma escola da rede estadual. Ao invés de sala interativa, está servindo de depósito — Foto: Reprodução

Iniciado há poucas semanas o ano letivo da rede estadual do Rio de Janeiro e o clima já está esquentando. Com turmas de mais de 50 estudantes, em média, com poucos ventiladores, a comunidade escolar da rede se depara com uma realidade nada diferente, e talvez pior, da que era antes do início da da Covid-19. O conflito entre estudantes dentro e fora de sala de aula é iminente.

O Novo Ensino Médio, promessa de reestruturação, melhoria pedagógica da e desenvolvimento da autonomia discente, expõe, enfim, sua falácia. Com carência de professores em muitas escolas, os estudantes não têm grandes opções de escolha quanto suas disciplinas eletivas. Descontentes, os estudantes estão irritados pelo calor, pela ausência de salas inovadoras e não insalubres.

A propagandeada “Sala Maker”, projeto de uma sala multi-interativa, com aparelhos tecnológicos que permitissem “promover o protagonismo, criatividade, senso crítico e o trabalho em equipe”, como divulga em suas redes a secretaria de educação, até agora só apresenta uma pintura bonita e móveis coloridos. Sem nenhum dos novos aparelhos eletrônicos prometidos, as salas permanecem em geral fechadas, sem utilização dos estudantes, servindo apenas de depósito. A “Sala Maker” está mais para sala fake. No movimento estudantil há um misto de decepção e revolta.

E para os educadores o sentimento não é diferente. Retornando para iniciar um ano letivo no presencial pela primeira vez, desde o início da pandemia, se deparam com a escola na mesma situação que antes da paralisação das atividades escolares para as medidas sanitárias de isolamento.

Nenhum investimento na melhoria e manutenção da infraestrutura das salas de aula. Salas, antes climatizadas, têm os aparelhos de ar condicionado na parede apenas como adorno. Os velhos ventiladores não são suficientes para ventilar estudantes e professores. Mais ventiladores tampouco resolveriam o problema em um estado tão quente quanto o Rio de Janeiro.

Para o corpo docente, a decepção não se dá apenas com a velha estrutura escolar precarizada. A situação econômica também é decepcionante. A promessa de ter seu direito de 1/3 de planejamento assegurado, visto a decisão judicial que determina esse cumprimento, carrega desilusão e indignação.

Além disso, com a redução da carga horária das disciplinas, como, por exemplo, sociologia, professores perderam suas turmas na escola e tiveram que procurar outras escolas para cumprir sua carga. Já com ano iniciado, as escolas ainda não haviam fechado o quadro de horário das aulas, com estudantes e professores perdidos com essa desorganização pedagógica. As consequências de colocar a pasta da na responsabilidade de um comerciário começam a eclodir.

O que antes era sarcasticamente chamada sauna de aula, agora o espaço que deveria ser de aprendizado se torna um caldeirão de revolta e indignação, proporcionando conflitos iminentes. O sentimento de impotência, além da pressão baixa causada pelo calor, acua os docentes, que se perguntam o que podem fazer diante de cenário tão aterrorizador.
Fora do caldeirão de aula, o descontentamento se estende. As equipes pedagógicas perderam sua autonomia quanto a criação da grade horária das matérias eletivas, e, diante da ausência de funcionários, se veem tendo que exercer funções que não são de sua ocupação, assim como as mães contratadas pelo estado.

Fotos da de uma escola da rede estadual. Ao invés de sala interativa, está servindo de depósito — Foto: Reprodução

O M.A.E – Apoiando a Educação, é um projeto que diz ter por objetivo trazer alunos de volta às salas de aula, realizando busca ativa dos alunos que não renovaram a matrícula, a orientação aos familiares dos estudantes com relação a importância da frequência nas aulas, a avaliação do cumprimento das medidas sanitárias contra covid-19, entre outras. No entanto, a realidade é que muitas dessas mães estão realizando o trabalho de inspetoria, cargo que há tempos tem uma defasagem.

Não bastasse isso, a remuneração dessas não foi realizada como prometida. Além do atraso, o valor pago não é correspondente com o divulgado, devido a descontos. O que acarreta mais uma de funcionários da comunidade e consistência para o caldeirão da insatisfação.

Manifestação pela Pública no Centro do Rio de Janeiro em maio de 2019 — Foto: Rafael Daguere/1508

Não despropositadamente, durante o evento de I Encontro Regional do Projeto, que aconteceu no último 10 de março, no estádio do Maracanãzinho, com um gasto orçamentário de R$ 250.000,00, pôde se ouvir da arquibancada um coro feminino repetidamente cobrando: Pagamento! Pagamento! O evento, como escárnio à comunidade escolar, terminou com o governador cantando Roberto Carlos para a plateia. Ao que parece, essa era a função do evento, promover a imagem do governador em ano eleitoral.

Ao me perguntar, o que pode então a comunidade escolar diante de tanto desrespeito e covardia? Tal questionamento me remete a uma passagem de Pelloutier, em A ciência de sua infelicidade, ressaltada por Chambat na página 53 de Instruir para revoltar (2006):

“[…] o que falta ao operário francês é… conhecer as causas de sua servidão, é poder discernir contra quem devem ser dirigidos esses golpes.”

Aos docentes essa é uma possibilidade. Combater a ignorância e a desqualificação através da alfabetização, da consciência de classe, mostrando, através das ciências humanas, que essa insatisfação é histórica e que é possível aprender lições com o passado. Desenvolver projetos nas brechas que nos restam, não infantilizando os estudantes, mas elevando-os com consciência de si enquanto sujeito histórico.

E resistir em meio ao caos do caldeirão. Fortalecer-se na partilha da revolta, deixando-se afetar por dentro e por fora, para não repetir a história de desistência e adoecimento coletivo de educadores. Fazer o exercício de espírito proposto pela inesquecível Elza Soares em Libertação, do álbum Planeta de 2019, e repetir para si e para os seus companheiros de batalha nesse caldeirão:

“Eu não vou sucumbir. Eu não vou sucumbir. Avisa na hora que tremer o chão. Amiga é agora. Segura a minha mão”.

Carina Blacutt

Carina Blacutt é filósofa e professora da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, doutoranda em Estética e Filosofia da Arte pela UERJ e colunista de educação da Mídia1508.

2 Comentários

  1. Parabéns pelo artigo! Minha escola está funcionando com condicionadores de ar ligados e portas e janelas fechadas. Além disso, com câmeras dentro das salas, num verdadeiro big brother. O novo currículo é pífio, um escárnio assim como os atuais governos estadual e federal. Nunca vi, em 25 anos de trabalho, a situação tão difícil dentro e fora da escola, nunca vi professores tão inconscientes de classe. Como conscientizar os alunos?

  2. Na unidade em que eu trabalho, nunca houve climatização, entre vários argumentos, eles afirmam que o prédio é tombado pelo patrimônio histórico. Amargado anos de um.calor escaldante, onde a ventilação não chega até nós, não há um dia que eu não passe mal. Agora, teremos uma feira de livros, segundo informado, será pago de ingresso R$ 220,oo, e R$160,00 de voucher para compra de livros. Fora a entrada e voucher de alunos. 8 anos sem aumento real, com uma recomposição de 13,5%, a conta não fecha. Soma-se a isso, estamos sendo tratados como inimigos…. Cansada, desestimulada, o Novo Ensino Médio está sendo a cereja do bolo, neste carrossel de sentimento, vou levando meus dias.

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