Professor da UFRJ é vítima de racismo na universidade

Wallace dos Santos de Moraes relata ofensas racistas durante banca de concurso no Instituto de Filosofia e Ciências Políticas (IFCS). O professor Josué Medeiros teria dito que Wallace não teria equilíbrio emocional e que também se vitimizava constantemente por ser negro.

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Wallace de Moraes, de 47 anos, é professor de Ciência Política da UFRJ — Foto: Arquivo Pessoal

O cientista político e historiador Wallace dos Santos de Moraes, de 47 anos, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, denunciou discriminação racista durante uma reunião virtual da banca que escolheria um novo professor adjunto para o instituto.

O encontro ocorreu no dia 11 de agosto e outros docentes presentes na reunião também relataram a situação.

Wallace conta que foi retirado da banca sob argumentos de que seria “brigão”, “desequilibrado”, que não teria equilíbrio emocional e que também se vitimizava constantemente por ser negro. Os comentários racistas foram proferidos pelo também professor Josué Medeiros.

Para o professor associado do Departamento de Ciência Política e dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia e História Comparada da UFRJ, os ataques têm motivação racista. Wallace entrou com uma representação administrativa, no IFCS, pedindo que a universidade abrisse sindicância para apurar o caso. A investigou o episódio e decidiu no dia 1 de setembro, por unanimidade, revogar a banca que admitiria novos docentes na instituição. No mesmo dia, Wallace escreveu uma Carta aos Coletivos Negros, Antirracistas e à Congregação do IFCS, em que detalha o ato racista de Josué e afirma: “a negação do institucional é, portanto, uma prática histórica das ciências sociais no Brasil”.

“O coordenador da banca, que foi endossado por outros professores, não chegou a me chamar de ‘macaco’, não chegou a jogar uma casca de banana em cima de mim. Mas usou argumentos subjetivos para me desabonar, apesar de eu ter sido indicado e preencher todos os requisitos acadêmicos e técnicos para estar ali. Isso não cabe na administração pública. Quando se usa esses tipos de argumentos, subjetivos, contra um professor negro do instituto, é uma forma de discriminação de cunho racista sim. Tem coisas que não precisam ser ditas para serem entendidas”, disse o professor, em entrevista ao jornal O Dia.

Ainda durante a entrevista, Wallace destaca o estrutural no Brasil: “Costumo dizer para os meus alunos que, na nossa sociedade, o negro e o indígena são bem-vindos, desde que obedeçam, desde que sejam dóceis com seus patrões, seus mandatários. Se você não se submete a esse padrão, as pessoas criam adjetivos para você, como ‘desequilibrado’, para desqualificá-lo. Isso acontece muito em nossa sociedade e nunca assumem que é racismo. Mas eu entendo que sim. Humilhar um corpo negro faz parte do cotidiano da sociedade brasileira”.

Entidades e o acadêmico acionaram a reitoria da universidade. A acusação partiu do Coletivo Docentes Negras e Negros da universidade.

O texto da denúncia do coletivo:

Nota do Coletivo de Docentes de Negras e Negros da UFRJ pela devida investigação de caso de ocorrido no Departamento de Ciência Política – IFCS/UFRJ

O Coletivo de Docentes Negras e Negros da UFRJ vem a público se manifestar em solidariedade ao professor Wallace dos Santos de Moraes e solicitar providências da Universidade para apuração de fatos envolvendo situação de discriminação racial quanto à participação do mesmo em comissão julgadora do concurso para provimento de vaga de professor adjunto do referido Departamento regido pelo Edital UFRJ nº 953, de 20 de dezembro de 2019 MC 064.

Em reunião extraordinária do Departamento de Ciência Política da UFRJ, ocorrida no dia 11 de agosto de 2021 às 9:30h, por meio remoto (https://meet.google.com/pny-udfr-qwz), para escolha da banca examinadora do concurso para provimento de vaga de professor adjunto, foram praticadas condutas desrespeitosas em relação ao prof. Wallace de Moraes pelos professores Josué Medeiros, Thaís Aguiar (Chefe de Departamento) e Pedro Lima (Substituto eventual da Chefia), todos do Departamento de Ciência Política da UFRJ.

Na ocasião, cinco membros do Departamento indicaram o prof. Wallace para participar como membro da unidade da UFRJ na banca de seleção do certame. A escolha se deu em função deste professor possuir conhecimentos acadêmicos e formação na área do concurso. Ademais, é professor Associado II, portanto atende às exigências administrativas e acadêmicas para compor a citada banca. Todavia, nesta reunião, o prof. Josué Medeiros passou a desqualificar a personalidade do professor Wallace, alegando que o mesmo não possuía qualidades para exercer a função de membro de banca de concurso, negando sua participação. Assim, atribuiu ao professor a condição de “brigão, desequilibrado, sem condições emocionais, e que constantemente se vitimizava por ser negro”.

Depois de todos esses ataques discriminatórios, a Chefe do Departamento (prof.ª Thaís Aguiar), bem como seu substituto eventual (prof. Pedro Lima), que dirigiam a plenária, não só não tomaram nenhuma atitude de repulsa às discriminações, como fizeram questão de apoiar o professor Josué Medeiros em seus argumentos, ratificando que um membro “desequilibrado” não poderia compor a banca do concurso.

Os pronunciamentos de alguns professores em contrário a esses atos de discriminação com relação ao prof. Wallace, único negro do Departamento, não surtiram efeito e a maioria vetou sua participação na banca.

Por que, o professor Wallace, com a qualificação exigida para tal, não foi incluído na composição dessa banca?

É importante frisar que supostas valorações subjetivas infundadas acerca de um servidor público não podem servir de impedimento para negar sua participação em uma banca, nem permitir a propagação de injúrias e difamações no âmbito da Universidade.

O professor cumpria todos os requisitos acadêmicos para tal, isto é, atendia às exigências do certame. Ainda assim, seu nome foi preterido para a composição da banca e o Departamento de Ciência Política deliberou por aprovar uma comissão julgadora composta inteiramente por nomes externos à UFRJ.

Professor Wallace de Moraes, o único docente negro do Departamento, com competência para exercício da atividade, sofreu além disso, ataques pessoais desferidos pelo professor Josué Medeiros. Este professor questionou a capacidade psicológica de Wallace e apresentou como justificativa à interdição de seu nome a alegação de que Wallace se “vitimizava” por ser negro, fazendo referência pejorativa a importantes debates levantados pelo professor sobre o estrutural no Brasil.

Argumentos desqualificadores e as tentativas de frear a voz de quem se coloca na luta contra o racismo – como a vivida pelo professor Wallace de Moraes – embora frequentemente silenciados por quem sofre essas agressões, são corriqueiros nas Instituições de Ensino Superior, vitimando docentes, funcionários terceirizados, técnico-administrativos e discentes. Já foi o tempo do silêncio. É preciso dar um basta. Não ficaremos mais calados.

Quando se tem em mente que o estrutural, agravado na sua manifestação institucional, ao se tomar conhecimento de qualquer situação de discriminação, a autoridade pública deve atuar no sentido de averiguar a realidade dos fatos com os mecanismos administrativos existentes e aplicáveis para tanto e imediatamente adotar atitudes adequadas contra quem foi o causador dessa situação.Nesse sentido, o Coletivo de Docentes Negras e Negros da UFRJ, diante da evidência de RACISMO e DESQUALIFICAÇÃO pessoal do professor Wallace de Moraes, torna indispensável a presente manifestação em sua defesa e de todos os demais docentes negras e negros, que são atingidos indiretamente pelo acontecimento.

Fazemos isso a partir de valores de colaboração, solidariedade, reconhecimento e respeito às diferenças. Em defesa da vida, da dignidade e de direitos arduamente conquistados, irrenunciáveis e inegociáveis por uma sociedade livre do que tem nos afetado moral, emocional, física, cultural, política e economicamente.

Dessa forma, sendo implementadas condutas específicas pelo docente que foi alijado na situação ocorrida no Departamento de Ciência Política do IFCS/UFRJ, vem este Coletivo se solidarizar com o mesmo e também requerer que sejam implementadas as devidas condutas investigativas e de verificação pela Administração Superior da UFRJ, bem como pela Direção do IFCS/UFRJ, para que seja levantada a realidade dos fatos ocorridos e, em sendo verificados os fatos apontados aqui como e/ou DISCRIMINAÇÃO/DESQUALIFICAÇÃO, que possam ser tomadas as medida legais e administrativas cabíveis para a punição dos autores do fato, dentro das regras que balizam a vida acadêmica da UFRJ. Importa, por fim, destacar que a Resolução Consuni 15/2020 estabelece a necessária recomendação quanto à diversidade de raça e gênero em comissões julgadoras de concursos.

As mudanças históricas e sociais no aspecto do ESTRUTURAL e INSTITUCIONAL precisam ser objeto de adequada verificação, pois a extirpação dessas condutas deletérias de racismo não se faz apenas com denúncias ou com repúdio moral ao crime de racismo: depende, antes de tudo, da tomada de posturas efetivas, implementação de políticas públicas eficazes e da adoção de práticas que estejam presentes em todos os aspectos das relações de poder que existam na estrutura da Universidade.

Portanto, nós, Coletivo de Docentes Negras e Negros da UFRJ, conclamamos os mais diversos segmentos da UFRJ a reafirmarem o compromisso com a resistência e a luta antirracista, pois não somos e não seremos coniventes com posturas que ferem os direitos da pessoa humana, que ferem a nossa Constituição, o Estatuto do Servidor Público, fomentando-se práticas que fogem ao interesse público, ao respeito à diversidade, à pluralidade, mantendo-se práticas que têm produzido assimetrias e desrespeitos aos mais sublimes preceitos de igualdade, respeito e convívio urbano no interior da nossa Instituição. Não aceitaremos! Seguimos enfrentando as opressões que produzem desigualdades que atingem diretamente nossas existências.

Sendo assim perguntamos: por que o professor Wallace, com a qualificação exigida para tal, não foi incluído na composição dessa banca?

Rio de Janeiro, 23 de Agosto de 2021
Coletivo de Docentes Negros e Negras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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