Garimpeiros incedeiam casa de liderança Munduruku

7 mins read

Na tarde desta quarta-feira (26), garimpeiros atearam fogo na casa da liderança indígena Maria Leusa Kaba, coordenadora da Associação das Wakoborũn, em Jacareacanga, sudoeste do Pará. “Venham, por favor, está uma confusão, vão queimar minha casa. Adonias está dando tiro no cais, em todo lugar. Eles estão dando tiro, por favor, me ajuda”, afirma a indígena, em mensagens por áudio por volta das 13h. Em seguida, a comunicação de internet foi cortada

O ataque é uma reação dos garimpeiros contrários à Operação Mundurukânia, iniciada dois dias antes pela Força Nacional de Segurança e pela Federal para remover garimpos nas Terras Indígenas (TIs) e Sai Cinza, no Alto Tapajós. 

A chegada das forças policiais federais não inibiu a ação dos criminosos, que passaram a ameaçar e intimidar lideranças que se opõem ao garimpo ilegal nas terras indígenas. A associação liderada por Maria Leusa é uma das que vem denunciando, há anos, a atividade criminal e já teve até a sua sede depredada.

“Eles chegaram aqui, um grupo muito grande, aciona todo mundo, que estou aqui super preocupada”, apelou Maria Leusa, em um trecho de áudio. A liderança já sofreu outras ameaças de morte. No ano passado, ela precisou se autoexilar.

Após o ataque à aldeia de Maria Leusa, os garimpeiros ameaçaram seguir para a aldeia de outras duas lideranças: Ademir Kaba e Ana Poxo. O povo Munduruku teme pela vida de outras lideranças.

“É inaceitável que mesmo com a presença da Força Nacional na região a aldeia de uma das nossas principais lideranças tenha sido invadida por homens armados, portando galões de gasolina que incentivam o ódio contra todos nós. Tememos pela vida daqueles que lutam sem cansar para defender a vida do povo Munduruku e o futuro de todos nesse planeta”, diz comunicado emergencial das organizações de do povo Munduruku.

Ataques anunciados

Ademir Kaba, uma das lideranças ameaçadas (Foto reprodução Facebook)

Em áudios vazados do WhatsApp, grupos de garimpeiros pressionaram o comércio local a fechar os estabelecimentos, além de listar lideranças Munduruku que poderiam se tornar alvos de ações violentas. 

“Todo mundo depende do garimpo. Fecha a porta, põe todos seus funcionários lá na praça, todo mundo, não vai vender para ninguém mesmo, ninguém tá comprando agora porque está tendo operação. Reúne na praça e sai aquela multidão, não é longe o aeroporto, dá para ir a pé mesmo”, diz um dos criminosos, em uma das mensagens.

 O coordenador da Associação Munduruku DA’UK, Ademir Kaba Munduruku, foi um dos líderes indígenas ameaçados nos audios. “É inegável que essa atividade movimenta e financia a criminalidade. O ataque deles contra a aldeia da Leusa e da minha aldeia não estava fora de cogitação. Pois eles sempre fizeram questão de veicular isso nos áudios”, avaliou. “Estamos muito revoltados”.

Invasões e conflitos

Garimpo ilegal na Terra Indígena Munduruku, município de Jacareacanga. (Foto: Marizilda Cruppe/Amazônia Real/Amazon Watch/17/09/2020

Segundo o IBGE, pertence à mesorregião do sudoeste paraense, composta por 13 municípios, que “concentra o maior número de Unidades de Conservação, sejam de uso sustentável ou de proteção integral, e ainda Terras Indígenas” do Pará.

Contudo, com a flexibilização das políticas de proteção ambiental, declarações favoráveis do governo de sobre o garimpo  ilegal e a iminência de uma nova Lei de licenciamento ambiental, que tramita no Congresso,  essa região enfrenta um aumento acelerado de invasões de garimpeiros e conflitos. Só em 2020, foram desmatadas nas terras Munduruku e Sai Cinza, áreas equivalentes a mais de dois mil campos de futebol. A terra indígena Munduruku perdeu, segundo o INPE, 2.052 hectares de floresta para o garimpo ilegal

Em nota, a Articulação dos do Brasil (Apib) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) repudiam o incêndio da casa de Maria Leusa e alertam para quem pode estar por trás das ações criminosas.

“Há suspeitas de que o ataque tenha sido organizado após o vazamento, na terça (25), de um  documento do Serviço de a Crimes contra Comunidades Indígenas da Federal (PF) para grileiros que atuam em sete florestas nacionais e territórios indígenas no Sudoeste do Pará. Mais uma vez, vidas indígenas estão ameaçadas pelo garimpo e por garimpeiros na Amazônia”, afirmam as entidades. 

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

Últimas Notícias