Povo palestino se rebela vingando décadas de opressão

A instrução do exército genocida era de liberar o espaço para as marchas do "Dia de Jerusalém", data colonial que marca o início da ocupação de Jerusalém Oriental por Israel, em 1967.

Um manifestante palestino segura uma funda durante um protesto que marca o 70° aniversário da Nakba, perto do assentamento judaico de Beit El, perto de Ramallah, na Cisjordânia ocupada em 15 de maio de 2018 — Foto: Mohamad Torokman/Reuters

Texto por Julia Izecksohn/Jornal A Nova Democracia

Após semanas de manifestações diárias na Palestina contra ataques diversos das forças de ocupação israelenses – incluindo marchas racistas de extrema-direita, perseguição aos muçulmanos que comemoravam o Ramadã e ameaças de despejo de famílias palestinas em Jerusalém –, a violência colonial-sionista alcançou níveis ainda mais atrozes. Até o momento em que esta matéria foi escrita, mais de 700 palestinos haviam sido feridos nos territórios ocupados por Israel em um único dia de manifestações, e pelo menos 28 palestinos haviam sido mortos em bombardeios na Faixa de Gaza, dos quais 10 eram menores de idade.

No raiar do dia 10 de maio, as forças armadas israelenses invadiram a mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, e atacaram brutalmente centenas de palestinos que lá estavam com granadas de atordoamento, balas de borracha e espancando-as. Mais de 330 pessoas ficaram feridas, e cerca de 200 precisaram de atendimento hospitalar. Além do ataque ter sido realizado contra o terceiro mais sagrado para o Islã – e o primeiro mais sagrado localizado na Palestina –, ele ocorreu em um dos últimos dias do Ramadã, mês de importância religiosa para os muçulmanos, desatando a fúria incendiária do povo árabe. 

A instrução do exército genocida era de liberar o espaço para as marchas do “Dia de Jerusalém”, data colonial que marca o início da ocupação de por Israel, em 1967. Historicamente, nessa data, os colonos israelenses invadem a al-Aqsa como forma de humilhar os palestinos, contando com o apoio do seu exército genocida.

Várias pessoas ficaram presas dentro da mesquita enquanto o gás de pimenta e as granadas explodiam dentro do local fechado. Relatos de testemunhas afirmam que havia atiradores israelenses posicionados nos telhados ao redor da mesquita, atirando balas de borracha de cima contra os palestinos que saíam da mesquita quando ela começou a ser invadida no início da manhã, e que as forças da ocupação restringiram a chegada de ambulâncias e atendimento médico ao local. 

Paralelamente à demonstração escancarada do terror de um regime colonial por parte de Israel, os palestinos deram o exemplo de uma resistência em uníssono. Convocados a defender a Al-Aqsa, jovens, homens e mulheres de todas as idades se deslocaram imediatamente para o local e retaliaram as forças do sionismo atirando fogos de artifício e pedras e armando barricadas. 

Desde o dia 07/05, colonos israelenses e agentes da ocupação vinham tentando sitiar a chamada Esplanada das Mesquitas e expulsar os palestinos do local, ao passo que as manifestações já se intensificavam na al-Aqsa. Isto porque palestinos da Cisjordânia eram impedidos de entrar em Jerusalém, apesar de ser a última sexta-feira do Ramadã (data chamada de Laylat al-Qadr) e, mais cedo naquele dia, dois palestinos haviam sido assassinados e um terceiro ferido por soldados israelenses em um posto de controle em Jenin, na Cisjordânia. Vídeos divulgados na internet exibem centenas de palestinos atravessando a “fronteira” (criada por Israel) a pé, por conta do fechamento das estradas. 

Agentes da ocupação israelense perseguem jornalista em meio à invasão da mesquita de al-Aqsa, no dia 10/05/2021 — Foto: Ammar Awad/Reuters

Ataques aéreos contra deixam dezenas de mortos

Múltiplos pedidos de palestinos em Jerusalém e na Cisjordânia para que as forças de Resistência Nacional na se posicionassem contra os ataques de Israel em Jerusalém. Assim, o Hamas (que governa Gaza) definiu um ultimato para que as forças israelenses se retirassem da mesquita de Al-Aqsa até às 18h do dia 10/05. 

Quando o ultimato não foi respeitado, o movimento lançou dezenas de foguetes contra assentamentos israelenses, que atingiram Jerusalém e o sul do território ocupado, onde duas mulheres israelenses morreram. 

Buscando – em vão – cessar a resistência do povo palestino, Israel ordenou o fechamento da área de pesca do mar da e lançou uma série de ataques aéreos contra o território nos dias 10 e 11/05, que deixou pelo menos 28 palestinos mortos, incluindo 10 crianças. A Universidade Islâmica de também foi completamente bombardeada. 

Após novos ataques aéreos de Israel destruírem um prédio residencial inteiro em Gaza, o Hamas retaliou, atingindo áreas urbanas de Tel Aviv. 

No dia 11/05, centenas de pessoas tomaram as ruas de em procissões fúnebres dos martirizados, como Amira Abdel Fattah Subuh, de 57 anos, e seu filho, Abdulrahman, de 17 anos, que morreram após sua casa no campo de de al-Shati ser atingida pelo bombardeio israelense. 

Foguete lançado pela Resistência Palestina da contra Israel, 10/05/2021 — Foto: Reuters

Revoltas ‘DeE Jafa à Sheikh Jarrah’

Além de Jerusalém, houve manifestações combativas por toda a Palestina, em rechaço aos ataques contra a al-Aqsa e às ameaças de despejo de dezenas de famílias palestinas em Jerusalém Oriental, especialmente no bairro de Sheikh Jarrah. 

Cidades ocupadas por Israel há décadas, como Lod, Haifa, Nazaré, Jafa, Nahaf, Kufr Manda, Shafa Amro, Umm Al-Fahm, Al-Naqab e Arraba, foram tomadas por combativas manifestações.

Em Lod, no dia 10/05, colonos chegaram a publicar na internet que Israel havia perdido o controle sobre a cidade; um homem árabe de 25 anos foi morto a tiros por israelenses perto de onde ocorria um enorme e outros 16 foram detidos. No dia 11/05, foi decretado um estado de emergência em Lod. 

Ainda no dia 10/05, em Jafa, centenas de manifestantes árabes e judeus marcharam entoando ‘De Jafa à Sheikh Jarrah, estamos todos com vocês!’, em uma demonstração de solidariedade, e em rechaço à venda de um prédio local para uma yeshiva, vista como parte de um esforço para expulsar os residentes árabes da cidade. Já no dia 09/05, 18 palestinos foram presos nas manifestações de Haifa.

As massas palestinas das grandes cidades de Ramallah, Nablus, Hebrom e Belém, na Cisjordânia, também protagonizaram verdadeiras batalhas contra as forças da ocupação, erguendo barricadas com pneus em chamas nas vias e nos postos de controle das fronteiras para impedir a passagem das forças sionistas. No bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, a polícia israelense tentou reprimir as centenas de pessoas reunidas para um no dia 10/05, levando pelo menos 3 pessoas presas, e há denúncias de colonos atirando contra os manifestantes com armas de fogo.

Cartaz afirma “Libertem George Abdullah” em manifestação em Ramallah, na Cisjordânia, 09/05/2021 — Foto: Abbas Momani/AFP
Jovem ergue um cartaz que diz, em árabe: ‘Àqueles que pregam o caminho da ‘paz’: amaldiçoada seja a sua paz. Eu sei qual é o meu caminho: RESISTIR” — Foto: Reprodução/Redes Sociais

A luta pela libertação da Palestina

Não há absolutamente nada de surpreendente no incendiário levantamento do povo palestino. Esta mais recente onda de ataques coloniais apenas se soma a décadas de um regime terrorista de Apartheid étnico perpetrado pela potência ocupante que se autodenomina “Israel”, segregando e aterrorizando árabes – cristãos, muçulmanos, judeus – que vivem nos territórios ocupados pelo sionismo ou sitiados por ele. No entanto, essas mesmas décadas de opressão que tais massas enfrentam são as mesmas que as empurram para a inevitável revolta. 

Há quem já chame esta nova onda rebeliões de uma Terceira Intifada – ou Intifada de Al-Aqsa –, em referência às duas ondas de revoltas que se sucederam entre os anos de 1987 e 1993 e entre 2000 e 2005 na Palestina. De qualquer forma, ela já escancara as farsas que as potências imperialistas têm tentado contar ao mundo: a primeira, que Israel seria “a única democracia do Oriente Médio”, e a segunda, que seria possível um projeto político de coexistência de dois Estados, Israel e Palestina. Todavia, a libertação da Palestina só será possível com a extinção da ocupação sionista e pondo abaixo o regime de segregação étnica e superioridade racial que hoje impera nos territórios ocupados. 

Nos últimos anos, as novas gerações de jovens palestinos deram inúmeras demonstrações de que a Resistência Palestina se mantém viva e renovada, como com as enormes Marchas do Retorno na Faixa de Gaza, que reivindicam o direito dos palestinos à permanência e ao retorno daqueles que foram forçados a emigrar e se refugiar durante as ofensivas militares sionistas. 

Enfrentando ataques aéreos e execuções rotineiros, postos de controle, muros e arames farpados, expansão de assentamentos ilegais, despejos arbitrários e agressões coloniais, a juventude palestina continua encontrando formas de resistir. Seja na Faixa de Gaza, sitiado por Israel desde 2007, seja nos territórios ocupados, isolado e murado, o povo palestino se defronta com uma única saída: ficar e lutar.

Fonte: Jornal A Nova Democracia

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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