As Células Revolucionárias e Rote Zora: Resistência Armada no Oeste Alemão

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Por Carolina Barros

Tradução do livro “A Herstory of the Revolutionare Cells and Rote Zora: Armed Resistanse in West Germany” (Uma “Herstória” das Células e Rote Zora: Resistência Armada no Oeste Alemão) publicado por Bay Area Revolutionary Action, 1989, com informações acrescidas do livro “Lucha armada en Europa” (Luta Armada na Europa) de Peio Aierbe.

Para contextualizar este ocorrido pela história dos grupos armados alemães, não devemos esquecer que sua atividade se reproduz em um contexto com características muito concretas. Um ponto de partida pode ser a oposição que surge contra uma progressiva direitização do sistema político alemão, cujo ponto culminante será o projeto de “Leis de Emergência”, elaborado em 1960, que trazia uma grande restrição à direitos e liberdades fundamentais. Outros fatores que também influenciaram nesse ambiente são a numerosa presença em solo alemão de imigrantes e particularmente, de refugiadas e refugiados de países super-explorados; a política reformista de certos setores (SPD[1]); os protestos, estudantis principalmente, contra o imperialismo; a luta contra a ofensiva yankee no Vietnã e a participação alemã em guerras como esta. Assim, vai se materializando a necessidade de adotar formas de lutas violentas por setores mais radicais.

Nos anos 60 se produzia a evolução ideológica e política daqueles que na década anterior impulsionaram diversas organizações que praticavam a luta armada, como o “Movimento 2 de Junho”, cujas siglas seriam as primeiras que reivindicaram ações violentas seguidas da RAF (Fração do Exército Vermelho). Neste panorama se encontra o movimento autônomo: não é um conjunto de movimentos estruturados, mas sim um conjunto de pessoas, com características comuns, embora em alguns casos contraditórios entre si. Se consideram anti-hierárquicas e contrárias ao delegacionismo, tem uma forte sensibilidade internacionalista e anti-imperialista, são anti-estatais e anti-constitucionais, criticam qualquer política de negociação com o estado e seus seguidores. Sua legitimação da violência revolucionária os leva a praticar o que elas chamam “ações militantes”, dirigidas contra responsáveis pela opressão e a exploração. Todo esse quadro não só é a criação, mas também é a evolução das revolucionárias ZELLEN-RZ (CÉLULAS-RZ), que se definem anti-capitalistas, anti-patriarcais, anti-estatais e internacionalistas.

As RZ utilizam categorias marxistas para analisar a sociedade, assim como possuem uma constante reflexão em torno da autogestão. Em um primeiro momento colaboram ativamente com as ações armadas dos grupos guerrilheiros palestinos da Europa. Depois desta primeira fase, sua atividade teve um teor instável quanto aos objetivos próprios do movimento alemão e que as diferencia claramente da RAF. Para as RZ se trata de somar no terreno das lutas de massas, e nessa perspectiva promover sua luta armada, por inserir suas ações armadas naqueles objetivos que centralizam hoje a atividade dos setores radicais nos movimentos de massas. Assim suas ações tem sido dirigidas em solidariedade aos mineiros britânicos em greve e contra: a repressão desatada aos refugiados, os centros de investigação e manipulação genética, a política de extermínio de presas e presos política/os nas prisões da Alemanha, a opressão e exploração sexual das mulheres, a indústria nuclear, a implantação de “loa pershing” e demais instalações yankees, os trabalhos para cessar e fichar a população, etc. Empregam para seus ataques um grau de violência determinada, mas habitualmente suas ações consistem em atacar instalações e poucas vezes pessoas. Quando o fizeram trataram de evitar a morte, o que ocorreu uma única vez, em 1980 com o ministro Herbert Karr. Embora este seja seu estilo, não significa que entendam como errada qualquer ação mortal, e sim que deverá ser feita com base em alguns requisitos. Uma de suas maiores preocupações é evitar a profissionalização de quem participa na atividade armada que obteve bom resultado, pois apenas duas pessoas das integrantes que cumpriram pena na prisão estão em liberdade.

Neste sentido, discursam a favor de que a utilização destes métodos podem se realizar sem grande especialização e difundem manuais sobre como fazê-lo. O tipo de organização e funcionamento é também algo que não compartilham com a RAF, a quem vêem como uma organização excessivamente estruturada e centralizada, reivindicando um funcionamento com maior autonomia entre os grupos que a compõe.

Apareceram pela primeira vez em um ataque contra ITT na Alemanha do Oeste (República Federal Alemã – RFA), para desmascarar a participação desta corporação multinacional no regime militar de Pinochet no Chile. Na primeira distribuição de “Raiva Revolucionária” (Revolutionarer Zorn) as RZ dividiram suas ações em três categorias principais:

● Ações anti-imperialistas;

● Ações contra sucursais, estabelecimentos, e cúmplices do sionismo na República Federal Alemã;

● Ações apoiando as lutas da classe trabalhadora, das mulheres, de jovens, atacando e castigando os inimigos destas e destes.

Esta divisão temática se utilizou nos anos seguintes. Uma célula revolucionária passava a se converter em diversas células revolucionárias. Mais tarde, nos últimos anos da década de 70, as ações de quem militava em RZ também formavam parte do movimento anti-nuclear, (um momento no qual milhares de pessoas marchavam contra o poder nuclear e contra a reelaboração de plantas nucleares em Kalkar, Wyhl, Goberlan e Brokdorf) e do movimento do Oeste anti-fugitivo (Anti-Starbahn 18 West-Bewegung) na zona do Rio Rhin. Neste contexto, foi quando realizaram um ataque contra o ministro de economia e transporte, Herbert Karr, a quem dispararam um tiro no joelho e ele veio a ter um ataque cardíaco em 11 de maio de 1981. Dado este acontecimento, as RZ lançaram um comunicado às ruas, no qual explicavam o motivo de sua atuação.

O texto de Setembro dizia, entre outras coisas:

“A justiça não é anônima, tem nomes e sobrenomes” disse Brecht. […] Torturadores, policiais, chefes terroristas da administração do Poder são alvos concretos aos quais dirigir o ódio de classe, mas no caso dos tribunais não aparecem fisicamente presentes senão que ocultados por trás de suas instituições, rituais e mistificações. Os tiros no joelho deste juiz tem por finalidade dar nome, cara e corpo a esta injustiça invisível. Estes tiros devem lhe marcar de duas maneiras: fisicamente e suportando um sofrimento que lhe marque como pessoa. E politicamente. Devem lhe assinalar ante a opinião pública como o principal responsável da repressão judicial contra as vítimas da política imperialista. Queremos acabar com este âmbito de poder pelo qual se sente protegido. E queremos destruir sua carreira. Por que não? Quem foi golpeado em seu âmbito de poder e quem foi atacado pela guerrilha é visto com receio por sua própria classe e se converte em uma penosa carga para estes. Esta mesma classe se encarregará de arruiná-lo profissional e politicamente. […] A legitimação de um assassinato político, tem que mostrar-se em seu efeito direto sobre os enfrentamentos de classe, e não pode reduzir-se unicamente à batalha contra o Inimigo. […] Uma guerrilha que atua contra as leis da responsabilidade e da moral política, que perde seus escrúpulos — os quais são importantes para diferenciar os homens e mulheres revolucionárias/os do inimigo de classe — uma tal guerrilha coloca em jogo e perde assim seu crédito e suas ideias: lutar com o povo na luta de classes, na qual se veem os objetivos de uma sociedade livre, igualitária e humana”.

Nos últimos três anos do RZ, concentraram suas ações na política de refugiadas/os e com extrangeiras/os que estava ocorrendo na Alemanha do Oeste:

“Queremos contribuir para recuperar um concreto na RFA. não apenas significa ataques ao complexo industrial militar e é mais que tão unicamente solidariedade com os movimentos de solidariedade de libertação a nível internacional”. (Citação de “Raiva Revolucionária”, outubro de 1986).

Ações, como por exemplo, uma que se produziu na Central de Imigração da Polícia no Oeste de Berlim, demonstram a amplitude desta linha de militância. Enquanto que quem são atacados/as são os/as responsáveis das políticas racistas de refugiados da RFA e no Oeste de Berlim, a intenção dos ataques contra instituições cujos documentos, datas e arquivos estão sendo destruídos é alcançar um espaço que não esteja controlado ou regulado pelo Estado: “Mas nossas ações resultarão ineficazes caso não contribuam ao desenvolvimento de uma nova etapa do anti-imperialismo à esquerda radical”.

O grupo de guerrilha urbana Rote Zora ou Zora, A Vermelha, estava composto por militantes feministas e anti-patriarcais, que trabalhavam autonomamente das RZ, com quem compartilhavam siglas, ideologia, objetivos, tipo de estrutura organizativa e métodos e onde algumas mulheres seguiam militando. Formavam estruturas ilegais, redes incontroláveis para o Estado. Este grupo realizou em 1974 o primeiro ataque com explosivo de alta potência contra a Corte Federal e Constitucional em Karlsruhe, depois que anularam a reforma da lei do aborto. A lei incluía o parágrafo 218 contra a livre escolha do aborto, que somente se permitiria em certos casos. Naturalmente as mulheres demandavam a livre escolha do aborto como um direito de autodeterminação sobre seus próprios corpos: “Na noite de Walpurgis de 1977 fizemos explodir uma Câmara de Médicos, porque naquele lugar tentamos aniquilar esta minirreforma com todas as medidas possíveis”.

A influência dos movimentos feministas na RFA nos finais dos anos 70 não provocou transformações profundas na sociedade, mas fez despertar a consciência e as energias de muitas mulheres pela necessidade de lutar:

“As mulheres sempre formaram parte dos grupos armados. De alguma maneira sua participação se freou. Mas os tempos estão mudando. Grupos de mulheres subversivas como Rote Zora existem, de fato ainda há poucos, mas inclusive isso mudará.”

“Rote Zora e seu bando” é o título de um livro, em que uma menina rouba dos ricos para dar aos pobres. “Não queremos nenhuma divisão do trabalho do tipo esquerda segundo o lema: as mulheres responsáveis dos assuntos feministas e os homens responsáveis dos assuntos políticos em geral. Não permitimos que nos tirem a responsabilidade de mudar nossa vida. Por isso atacamos o carro de Kaussen, especulador imobiliário e responsável de uma série de desocupações brutais.”

Uma de suas posturas ideológicas era:

“Não queremos que as mulheres ocupem funções de homens e recusamos aquelas mulheres que tentam fazer carreira dentro de estruturas patriarcais, camuflando-se com a luta feminista. […] Falta um compromisso de recusa ante a política estatal. Sempre se excluiu a questão de classe, as diferenças sociais entre as mulheres, se esteve negando-as com o argumento da igualdade de exploração sexual.” (Citações da entrevista a Rote Zora publicada na revista feminina EMMA).

Rote Zora ataca predominantemente instituições e companhias patriarcais, e pessoas representativas e que constroem uma sociedade masculina e sexista, a qual oprime e explora universalmente as mulheres. Fazem campanhas contra: empresários do pornô, sex-shop, exploradores e traficantes internacionais de mulheres (pessoas que se beneficiam importando as mulheres asiáticas para casá-las com os homens da Alemanha do oeste), doutores/as que fazem esterilizações forçadas, o grêmio médico (“vemos o Grêmio Federal de Doutores como expoentes da violação das trincheiras brancas”), companhia de drogas (Schering produziu nascimentos defeituosos causados pela pastilha Duogynon), centros de investigação e manipulação genética e também companhias informáticas como Nixdorf e a multinacional Siemens, que tentam abrir novos campos através do desenvolvimento das novas tecnologias de poder, pela produção armamentista e as medidas de contra-insurgência, cada vez mais sofisticadas, cada vez mais sutis. “Para nós essas empresas têm um papel de vanguarda na reestruturação do processo de trabalho no mundo inteiro e sobretudo a custa das mulheres”.

Foram muito populares as reimpressões ilegais de bilhetes de ônibus e trens:

“Sabemos que este ‘estado normal’ vai acompanhado de uma falta de resistência militante. A opressão se faz visível pela resistência. Por isso sabotamos, nos vingamos pela violência sofrida e pela situação humilhante, por meio dos ataques contra os responsáveis. Por que não tem um efeito intimidatório o tráfico de mulheres, mas sim colocar fogo no carro do traficante? No fundo, pensar assim é ter aceitado que a violência exercida pela sociedade é legítima, enquanto que uma resistência adequada seria intimidadora! É possível que intimide, que assuste a muitos/as que questionamos o que parece natural; que estejam assustadas também muitas mulheres que desde pequenas a quem lhes foi ensinadas um comportamento passivo, de vítima, ao se verem confrontadas com o fato de que AS MULHERES NÃO SÃO VÍTIMAS NEM PACIFISTAS. Isso é um fato, convida a pensar algo. As mulheres que com raiva sofrem com sua incapacidade individual se identificam com nossas ações. Da mesma maneira que um ato violento contra uma única mulher cria um clima de ameaça contra todas, nossas ações — embora estejam dirigidas contra alguns responsáveis específicos — contribuem para criar o clima de uma consciência: A RESISTÊNCIA É POSSÍVEL! Nosso sonho é que em todos lados se formem pequenos bandos; que em cada cidade o estuprador, o negociante de pornografia, o ginecólogo repugnante, etc, tenham medo ante seu desmascaramento, ante um ataque, ante a denúncia pública, etc”.

Em casos isolados Rote Zora e a RZ trabalharam juntas, como foi no escrito de uma crítica ao movimento pacifista de 1984. Neste texto o criticavam por ser um movimiento burguês com uma visão apocalíptica. Rote Zora e a RZ disseram que o maior erro do movimento pacifista era concentrar sua meta política apenas em preservar a paz nas metrópoles ao invés de discutir o contexto imperialista entre armamento e a crise, a miséria e a redução do social nos países super-explorados, o sexismo e o racismo. Desde princípios dos anos 70 a RZ e Rote Zora empreenderam em torno de 200 ações. A campanha de ataques mais exitosa e compreendida das que houve até então por parte das Rote Zora foi a colocação de bombas em 11 dependências de Adler Corporation, uma das maiores companhias alemãs de roupa manufaturada que vendiam roupa a baixo preço na RFA, produzidas por mulheres sub-remuneradas de fábricas da Coréia do Sul e Sri Lanka.

“As trabalhadoras de Adler de Coréia do Sul lutam contra a exploração de sua capacidade de trabalho e estão pressionando fortemente na luta contra o sexismo diário. Chamaram para pedir apoio à RFA em sua luta. Estes ataques se produziram em 1978 e causaram danos maiores que 35 milhões de marcos. Um avanço foi que fizeram possível dar a conhecer a vida miserável destas mulheres e de suas condições de trabalho nos centros de produção de três continentes e especialmente nos da Coréia do Sul e na Sri Lanka, que começam a ser amplamente conhecidos através de panfletos, protestos e ações em frente de centros de venda da Adler. […] Nestas ações o anti-imperialismo pode ser prático. (Citação das Rote Zora em sua declaração de Adler).

Em uma declaração posterior concretizaram novamente que as sabotagens eram a estratégia correta. Ampliou a consciência das pessoas mediante ações em panfletos organizados por grupos legais de distintos movimentos populares (Terre des Femmes (Terra das Mulheres), por exemplo). Assim pois, o trabalho de preparação — ambientação já estava feito. As mulheres da Coréia do Sul tomaram o controle e protestaram sua própria situação. “Se puseram em greve para protestar pelos salários tão baixos que tinham, o incumprimento de leis, as condições deploráveis de trabalho e pelo sexismo brutal dos capatazes alemães.” Desta maneira a luta na Coréia e na Alemanha foi compatível.

“Não estamos lutando pelas mulheres do Terceiro Mundo, estamos lutando com você, lado a lado, lutamos contra a exploração da mulher como mercadoria”.

Assim fica definida a luta contra o imperialismo de Rote Zora

Em 1987, quando Rote Zora e um grupo paralelo da Alemanha do oeste: as Amazonas² , queimaram 10 centros comerciais de Adler ao longo da RFA, causando milhões de dólares de dano, Adler se viu forçada a satisfazer as demandas das trabalhadoras. Rote Zora e as Amazonas demostraram que a resistência violenta pode ser muito efetiva. Aos finais deste mesmo ano, tentam criminalizar os grupos de mulheres que impulsionam a oposição às investigações em torno à engenharia genética e reprodutiva, e para isso, a polícia invadiu simultaneamente centros de trabalho e moradias de militantes, revistando papéis e documentação. Esta ação falhou e encontrou uma decidida resposta. As denúncias pelas ações policiais e as demonstrações de solidariedade obrigaram que grande parte das mulheres fossem libertadas da prisão, porém necessitavam justificar sua ação. Para isso foram as escolhidas Ingrid Strobl (da RAF) e Ulla Penselin (de “Mulheres Contra a Engenharia Genética”), a quem acusaram de pertencer à Rote Zora. A pressão nas ruas, a solidaridade/sororidade que se extendeu mais além das fronteiras da RFA e a evidente falta de provas obrigou os tribunais a colocarem em liberdade sem penas Ulla Penselin depois de 8 meses de prisão gratuita. Ingrid teve um juízo prolongado, em cujas vésperas produziu-se uma manifestação na Esse na qual participaram 6000 pessoas exigindo sua liberdade e contra o artigo 129ª que permite a incomunicação na prisão.

“Nossa experiência é: para seguirmos sendo incontroláveis e para nos proteger dos ataques do Estado, está fazendo falta uma organização concreta. Não podemos nos permitir que se repitam em todos os grupos os mesmos erros. É preciso ter estruturas nas quais se possa trocar experiências e conhecimentos que sirvam ao movimento”.

Tanto Rote Zora como as Células Revolucionárias tinham uma estrutura anti-autoritária e na hora de tomar as decisões para escolher os objetivos a atacar se fazia de uma maneira descentralizada. Também enfatizavam que as ações violentas são somente uma parte do movimento revolucionário. Trabalharam em extensas campanhas legais e em questões sociais que abarcavam grandes áreas através de suas ações violentas. Mas estas ações não eram consideradas de maior importância que distribuir panfletos, ir a manifestações, fazer “sentadas”, publicar revistas, criar consciência, ocupar casas ou organizar greves no trabalho.

“Não temos um sistema hierárquico para escolher as ações. Estruturando-se em divisões hierárquicas você coloca as ações em uma perspectiva privilegiada, o que te faz propensa a pensar de uma forma patriarcal”. (Citação de uma membra da RZ em uma entrevista que apareceu em Autonomia, 1980).

Ao lado de RZ e Rote Zora existiram diversos grupos autônomos que eram componentes íntegros do movimento revolucionário do Oeste de Alemanha e de Berlim. A maioria destes grupos surgiram dos grandes movimentos sociais dos 80. Todas trabalhavam independentemente umas das outras e editavam informes políticos de suas ações, tal como fizeram RZ e Rote Zora, mas em troca, estes grupos não estiveram ativos muito tempo. Em 1986, no auge da resistência contra a planta nuclear em Wackersdorf, milhares de pessoas participaram em manifestações como parte do movimento anti-nuclear, Ao mesmo tempo, células de militantes autônomas efetuaram centos de ataques contra certas companhias e corporações para denunciar seu envolvimento na indústria nuclear. A atividade mais popular neste momento era sabotar as linhas de energia elétrica, que estavam diretamente conectadas às plantas de energia nuclear.

Até o fim do verão de 1986, se contaram 178 atentados incendiários e 27 com explosivos. Os danos causados ascenderam a 700 milhões. Seis semanas depois, os atentados eram em torno de 236.

Outros objetivos dos ataques numerosos foram:

● Bancos sem distinção, como poder fático do Estado.

● Empresas de consórcio produtor de armamentos (Daimler-Benz, Dossier, etc);

● Linhas férreas pelas quais circulam transportes de armamento e munição para as forças da OTAN e materiais radioativos;

● Centros de pesquisa (laser, genética) ou de cálculo, tanto públicos como privados;

● Oficinas de serviços sociais e de segurança.

Alguns dos grupos autônomos agressivos deste período sobreviveram até os dias de hoje. Outros se dissolveram ou decidiram por outra linha e formaram outros grupos. A seguir apresentamos uma lista de alguns deles (seria impossível nomear todos):

● REVOLUTIONARE HANDWERKER (Trabalhadores revolucionários): envolvidas/os em ações diretas contra as plantas nucleares;

● ZORNIGE VIREN (Vírus furioso): em 2 de janeiro de 1989 atacaram o Gene Institute da Universidade de Darmstadt, como denúncia da colaboração empresas-universidade no campo da tecnologia genética, causando 2,000,000 em danos;

● AUTONOME ZELLEN ALOIS SONNENLEITNER (AS) (Células autônomas anti-nucleares): Destruíram escavadoras, caminhões e queimaram locais de Hofmeister AG (a companhia NPP). (Alois Sonnenleitner foi assassinado pela polícia na cidade de Wackersdorf, em 1986);

● REVOLUTIONERE VIREN (Vírus Revolucionário): lutando contra a tecnologia genética, a genética aplicada a pessoas e a biotecnologia.

● ANTI-RASSISTISCHE ZELLEN (Células anti-racistas): levando a cabo ações contra a Shell;

● KAMPFENDE EINHEITEN (Unidades de batalha): células anti-imperialistas que atacavam os complexos industriais dos militares e atentaram contra a esquina de um edifício de segurança da polícia. Um membro, Crespo Cepa Galende, se auto-nomeou mais tarde guerrilheiro da ETA, que foi assassinado pelas autoridades espanholas.

As ações militantes dos grupos do oeste da Alemanha e de Berlim receberam um apoio muito difundido por parte dos movimentos mais generalizados da zona, incluindo a algumas das organizações mais liberais. RZ eram dependentes dos movimentos maiores e também trabalhavam ativamente com eles. Através da propaganda muita gente tomou consciência e simpatizou com as ações que se estavam realizando. Por exemplo, Rote Zora conseguiu um amplo apoio popular porque suas ações atraíam o massivo movimento feminista que já existia na RFA, onde as publicações da esquerda e de radicais levavam, desde algum tempo, trabalhando para conscientizar as pessoas em torno a temáticas como o sexismo, a opressão e exploração da mulher e sobre o direito da mulher de ter controle sobre seu próprio corpo. Enquanto que RZ não obtêm tanto apoio como Rote Zora, em 1987 simpatizantes de RZ publicam um livro, Der Weg Zum Erfolg (“Caminho para o Sucesso”), explicando sua política, estratégias e ações. O livro teve tanto êxito nas livrarias radicais que em menos de uma semana se esgotou a edição completa (em torno de 3000). O alto grau de efetividade em muitas das ações de Rote Zora e RZ podem trabalhar ao lado das pessoas ativas na luta sem desvelar sua identidade clandestina. Em sua historia, somente uma mulher foi detida como membro das Rote Zora, mas como não tinham provas contra ela então foi solta. Porém RZ teve umas tantas condenações ao longo dos 16 anos. Como o apoio a/os presa/os é uma tarefa importante e que leva um monte de tempo, a maioria do trabalho o realiza os grandes movimentos, e assim as RZ e Rote Zora podiam continuar contra a opressão de companhia e corporações imperialistas.

Outras revolucionárias e revolucionários condenadas e condenados à prisão neste momento:

● Eric Prauss e Andrea Sievering: acusad@s de ser membras da organização “terrorista” Facção Armada Vermelha, a RAF, que bombardeou Dornier, uma empresa de armas, a quem causaram 1,3 milhões de marcos de prejuízo. Amb@s foram condenadas a 9 anos de prisão em 18 de janeiro de 1989;

● Norbert Homfeir, Bárbara Perau, Thomas Thoene e Thomas Richter: acusadas e acusados de pertencer à RAF e de terrorismo. Num total sua sentença somava 32 anos em 20 de janeiro de 1989. O juíz que ditou sentença (Arend) também condenou Ingrid Strolb. Hofmeier: 10 anos, Perau: 9, Thoene: 9, Richter: 4. Nos dois juízos em que se viram envolvidas as pessoas mencionadas, o BAW (a Fiscalização Federal) e os juízes alegando que eram membras e membros da RAF, mas que esta foi a falsa demanda da Corte para conseguir sentenças firmes. Ambos ataques, o que se produziu em Dornier e o da esquina de um edifício de segurança da policía, foram reivindicados por Kampfende Einheiten. Este grupo trabalhava independentemente da RAF. Mas desde que a RAF foi definida como uma organização “terrorista” pelo Estado, ser condenada ou condenado como membro da RAF acarretava uma sentença maior. Kampfende Einheiten não foi definida como tal e portanto não seria exposta a uma condenação maior, assim que o BAW e os juízes montaram uma criação de toda a RAF (RAFunida) e proclamaram que Kampfende Einheiten era parte da RAF. No juízo de Andrea e Eric, Eva- Haule Frimpong, uma presa da RAF, declarou que “em 4 anos ninguém da RAF, exceto eu mesma, conseguiu ser detida. 12 camaradas da resistência que supostamente haviam sido detidas desde então (as e os 6 de Kiefernstrasse e não as e os de Stuttgard) não estavam organizadas na RAF” (Declaração de Eva em 29 de novembro de 1989);

● Fritz Storim: condenado a um ano de prisão. Um professor acusado de apoiar a RAF. Supostamente era membro do jornal autônomo SABOT.

Entrevista com duas militantes do Rote Zora em Junho de 1984:

Comecemos com: quem são vocês?

Zora 1: ‘’ Se é uma pergunta pessoal, então somos mulheres entre 20 e 51 anos. Algumas de nós vendemos nossa força de trabalho, algumas tomamos o que necessitamos e outras somos parasitas da sociedade do bem-estar. Algumas tem filhos, outras não. Algumas são lésbicas, outras amam homens. Compramos em supermercados asquerosos, vivemos em casas feias, gostamos de passear ou ir ao cinema, ao teatro ou à discoteca. Realizamos festas e cultivamos a ociosidade. E é claro, vivemos na contradição de que muitas das coisas que queremos fazer não podem ser feitas espontaneamente. Mas depois das ações bem-sucedidas nos divertimos muito.’’

O que significa o nome de vocês?

Zora 2: “The red Zora and his gang (Zora, a Vermelha, e sua gangue³ ) — é a garota selvagem da rua que rouba dos ricos para dar aos pobres. Até hoje parece ser um privilégio dos homens criar gangues ou atuar fora da lei. As mulheres e meninas estão estranguladas por milhares de prisões pessoais e políticas, e justamente isso deveria tornar-nos massas de “bandidas” lutando por nossa liberdade, nossa dignidade e humanidade. A lei e a ordem estão basicamente contra nós, embora praticamente não tenhamos conseguido nenhum direito e tenhamos que lutar diariamente. A luta radical das mulheres e a lealdade à lei são incompatíveis. Mas não é nenhuma coincidência que seu nome tenha as mesmas siglas que as Células Revolucionárias (RZ’s e etc).”

Zora 1: Não, claro que não. Rote Zora expressa o fato de que temos os mesmos princípios das RZ’s, o mesmo conceito de criar estruturas ilegais e uma rede fora do controle do Estado. Assim como podemos levar a cabo nossas ações diretas subversivas — em conexão com as estruturas legais e abertas de diversos movimentos. “Contra-atacamos!” Este slogan das mulheres de Maio de 1968 não é tão controverso hoje em dia com respeito à violência individual que se exerce contra as mulheres. Porém continua sendo muito controverso, e a maior parte do tempo tem sido um tabu como uma resposta às condições de dominação que produz tal violência incessantemente. de que temos os mesmos princípios das RZ’s, o mesmo conceito de criar estruturas ilegais e uma rede fora do controle do Estado. Assim como podemos levar a cabo nossas ações diretas subversivas — em conexão com as estruturas legais e abertas de diversos movimentos. “Contra-atacamos!” Este slogan das mulheres de Maio de 1968 não é tão controverso hoje em dia com respeito à violência individual que se exerce contra as mulheres. Porém continua sendo muito controverso, e a maior parte do tempo tem sido um tabu como uma resposta às condições de dominação que produz tal violência incessantemente.”

Que ações tem realizado e qual é o contexto?

Zora 2: “As mulheres de Rote Zora começaram em 1974 com o atentado contra a Corte Federal e Constitucional em Karlsruhe porque todas queríamos a abolição do parágrafo 218 (a lei do aborto). Na “Walpurgisnacht” (Noite de Santa Valburga4 ) (último dia de abril) de 1977, bombardeamos uma união federal de médicos por que anularam inclusive uma pequena reforma da lei. Depois o atentado contra Shering quando efetuava testes com seu fármaco Duogynon, e ataques constantes contra sex-shops. Na realidade, deveria ser queimada ou destruída uma dessas lojas de pornô a cada dia! Consideramos completamente imprescindível arrancar a opressão contra as mulheres, consideradas como objetos sexuais e produtoras de filhos, do “domínio privado” e mostrar nossa raiva e nosso ódio com fogo e chamas.”

Zora 1: “Não nos limitemos à evidente e direta opressão contra a mulher. Como mulheres, conhecemos as condições que impõe o poder sobre a sociedade, tanto se é a destruição urbana ou ambiental como as formas de produção capitalistas; as mesmas condições as quais os homens enfrentam. Não gostamos da “divisão de tarefas” da esquerda que se esconde por trás do lema: a mulher para a questão da mulher, os homens para as questões gerais de política. Nada pode nos privar da responsabilidade de mudar nossa vida cotidiana. Em consequência, incendiamos os extravagantes carros dos advogados do “slumlord”5 , que eram responsáveis por uma série de desalojamentos brutais. Junto com as RZ’s, imprimimos tickets de transporte público piratas e os distribuímos para a zona de Rulo para introduzir um pouco de tarifa zero.”

Zora 2: “Nossos últimos atentados foram dirigidos contra Siemens e a companhia de informática Nixdorf. Promovem o desenvolvimento da nova tecnologia dominante para ampliar as possibilidades de produção para a guerra e a contrarrevolução. Também tem o objetivo de remodelar a mão de obra, prejudicando especialmente as mulheres de todo o mundo. Aqui serão exploradas com a tecnologias dessas companhias para trabalhar isoladas umas das outras em trabalhos temporários sem seguridade social. Para criar essas tecnologias, as mulheres do chamado Terceiro Mundo terão trabalhado de forma extenuante. Aos 25 anos estarão acabadas.”

Até que ponto é importante a conexão com o Terceiro Mundo, à exploração das mulheres de lá, para vocês?

Zora 1: “Em nossos ataques temos declarado esse contexto, como quando atacamos aos traficantes de mulheres e à embaixada das Filipinas no ano passado. Nós não lutamos pelas mulheres do Terceiro Mundo, nós lutamos com elas, por exemplo contra a exploração da mulher como mercadoria. Essa moderna escravidão tem seu equivalente aqui nas condições da possessão conjugal. As formas de opressão mudam mas a raiz é a mesma. Ninguém vai jogar conosco nunca mais. A separação entre homens e mulheres tem seu equivalente internacional na separação entre Primeiro e Terceiro Mundo. Nós mesmas tiramos proveito da divisão internacional do trabalho. Queremos romper com nossa participação nesse sistema e elaborar interesses comuns com mulheres de outros países.”

Explicaram como entendem sua prática, mas não explicaram porque os organizam no contexto das RZ’s.

Zora 2: “A primeira das principais razões é que essas políticas foram desenvolvidas pelas RZ’s e continuamos pensando que são corretas. Durante nosso desenvolvimento determinamos nosso próprio conteúdo — por isso nos organizamos autonomamente como mulheres — mas recorremos às experiências das RZ’s. Também pensamos que a colaboração entre os grupos radicais podem fortalecer a resistência. Havia formas efetivas de coordenação como as ações contra a visita de Reagan ou a proposta de debate sobre um movimento pela paz. Mas também houve discussões desesperadoras. Certas ocasiões, homens que por um lado transformam sua ruptura radical com esse sistema em uma prática consequente de luta estão alarmantemente longe de entender o que significa a luta antissexista e que significado isso tem a partir de uma pespectiva social e revolucionária. Entre nós também é controverso saber onde estão os limites, quando a cooperação fortalece ou paralisa nossa luta como mulheres. Mas acreditamos que nossa identidade como feministas nos unem com algumas mulheres das RZ’s.”

Isso significa que vocês se definem como feministas?

Zora 1: “Sim, é claro, acreditamos que o pessoal é político. Por isso acreditamos que todas as coisas, sejam elas sociais, políticas ou econômicas que estruturem e reforcem o pessoal são um convite à luta, especialmente para as mulheres. Essas são prisões que queremos destruir. Porém é insuficiente fazer da opressão da mulher na Alemanha do Oeste o único decisivo politicamente e não ver outras condições de opressão como a de classe, o racismo ou a aniquilação de milhares de pessoas pelo imperialismo. Essa atitude nunca compreende a base da miséria: que a opressão da mulher e a divisão sexual do trabalho são condições fundamentais para qualquer tipo de opressão, contra outras raças, minorias, idosos e enfermos, e especialmente contra aqueles que se rebelam.”

Zora 2: Para nós, as dificuldades começam quando as demandas feministas são utilizadas para pedir “igualdade de direitos” e reconhecimento nessa sociedade. Nós não queremos mulheres em postos de homens e rechaçamos aquelas que realizam suas carreiras dentro de uma estrutura patriarcal sob a aparência de uma luta feminista. Estas carreiras não são senão um ato individual que só algumas poucas mulheres privilegiadas podem aproveitar. Às mulheres só se permite administrar o poder nessa sociedade se defendem os interesses dos homens.”

O movimento da mulher era muito forte nos anos 70. Conseguiu algumas reivindicações de forma legal. Por exemplo: a luta contra a lei do aborto, publicidade, sobre a violência contra as mulheres na família, o estupro como ato de poder e violência, a construção de contra-estruturas autônomas. Porque então vocês mantêm então a necessidade da luta armada?

Zora 1: “Evidentemente, o movimento da mulher conseguiu muito e para mim o mais importante é o desenvolvimento de uma grande consciência sobre a opressão da mulher nessa sociedade. Afinal as mulheres já não experienciam sua opressão como um caso individual ou pensam que elas mesmas são responsáveis por isso, se juntam e se fortalecem. O que organizou o movimento da mulher como as bibliotecas de mulheres, centros de mulheres, periódicos de mulheres e reuniões e congressos, tudo isso foi parte de uma realidade política durante um tempo e é uma parte forte no desenvolvimento da luta.”

Zora 2: “Alguns êxitos foram mais uma expressão da situação em uma sociedade que pode permitir uma certa liberdade de ação para as mulheres. É claro que, quando quiseram mulheres em fábricas e oficinas, criaram mais vagas em jardins de infância, mas isso não mudou as bases do estilo de vida de uma mulher. Isso requer um movimento contínuo cujos objetivos não possam ser recuperados [pelo sistema], cuja parte intransigente não possa ser derivada em formas legais, cuja raiva e dedicação para lutas não parlamentárias e de formas não institucionais sejam expressadas sem limites.”

Zora 1: “A rota legal não é o suficiente já que as formas de repressão habituais e as estruturas de violência são legais. É legal que os maridos batam e estuprem suas mulheres. É legal que os traficantes comprem nossas irmãs do Terceiro Mundo e as vendam aos alemães. É legal que as mulheres destruam sua saúde e trabalhem monotonamente por salários de miséria. Estas são todas formas de violência que não estamos dispostas a tolerar e que não podem ser transformadas unicamente com críticas. Era um passo importante criar uma consciência pública sobre a violência contra a mulher, mas isso não leva a sua prevenção. É óbvio que as injustiças que as mulheres sofrem se encontram com uma grande quantidade de ignorância. É essa tolerância que mostra o parasitismo dos homens. Essa ‘situação típica” está unida ao fato de que praticamente não há resistência. A opressão só se reconhecerá através da resistência. Em consequência nós sabotamos, boicotamos, danificamos e nos vingamos pelas experiências de violência e humilhação atacando aqueles que são responsáveis por elas.”

Qual sua opinião sobre o movimento da mulher atualmente?

Zora 2: “Acreditamos que é errôneo falar do movimento da mulher. Por um lado o movimento da mulher é entendido como o resultado de estruturas de longa duração, de projetos, de centros de Há correntes que não se reforçam entre elas de maneira satisfatória, e que de fato lutam entre elas. Por outro lado novos impulsos políticos começam desde diferentes contextos onde as mulheres estão se dando conta de sua opressão e estão questionando radicalmente as estruturas patriarcais, desenvolvendo políticas em prol das mulheres; por exemplo nos grupos de solidariedade norte-americanos, em grupos anti-imperialistas, no movimento okupa. Por isso, a frase “o movimento da mulher está morto, viva o movimento pela mulher!” tem toda a razão. O movimento da mulher não é como o movimento antinuclear ou o movimento okupa, que não sobreviveriam se se acabassem as centrais nucleares ou a propriedade privada para a especulação. O movimento da mulher abarca a totalidade das estruturas patriarcais, sua tecnologia, sua organização de trabalho, sua relação com a natureza, por isso não é um fenômeno que desaparecerá com a remoção de algumas células de câncer, senão através de um longo período de revolução social.”

Zora 2: O movimento da mulher nunca analisou realmente a derrota na lei do aborto, nem do financiamento estatal a projetos de refúgios para maltratadas. Falta uma resposta às políticas de estado. Também, se antecipou no momento decisivo em políticas familiares durante a onda de maternidade no movimento da mulher. Além de que a questão de classe nunca existiu; as diferenças sociais foram negadas pela universalização da opressão sexista. Isso dificulta encontrar uma resposta à piora das condições de trabalho, o aumento da opressão, as políticas familiares reacionárias na crise presente. A falta de uma perspectiva para a ação a fim de reagir apropriadamente ao ataque nos leva ao dilema de ou realizar bem uma ofensiva contra as políticas reacionárias, ou bem conservar unicamente uma abertura a uma maior liberdade de ação para as mulheres. Nós podemos resolver este problema na teoria, porém não cremos que a criação de comitês de mulheres (no Partido Verde) seja uma solução. A experiência nos indica que as mulheres não chegam ao poder por caminhos que existem diretamente para excluí-la e para estabilizar e conservar a dominação patriarcal. Por isso, consideramos os comitês de mulheres que querem exercer uma maior influência em partidos e instituições um caminho incorreto.”

Zora 2: “Enquanto isso outras discussões e análises importantes estão começando a se desenvolver por mulheres que lidam com o futuro da sociedade. O aumento da opressão, com a onda de novas tecnologias, é investigado desde o ponto de vista das camadas mais baixas da sociedade, os novos salários e as estruturas de trabalho para as mulheres são analisados. Muitas mulheres entendem e rechaçam a guerra diária contra as mulheres — a onda de pornô hardcore, a propaganda desdenhosa com as mulheres — e a chamada à sociedade a aumentar a maternidade e a feminilidade. Também entendem que os atrasos nas políticas familiares e da mulher são precedentes para a crise e as novas estratégias do capital. A política de controle da população, por exemplo a mudança da lei do aborto, é a intenção de ter uma influência qualitativa no desenvolvimento da população. Entre outros objetivos, trata de multiplicar a classe média alemã “saudável” junto com a tecnologia genética apoiada pelo estado, cujo desenvolvimento devemos parar. Hoje em dia precisamos mais urgentemente que nunca de um movimento radical da mulher que tenha a capacidade de romper o círculo político-social, não só da mulher, também de estrangeiros e minorias; um movimento de liberação da mulher que não reduza a esperança da revolução a um sonho bonito.”

Vocês se consideram parte do movimento de mulheres ou do movimento de guerrilha, ou de ambos? Como veem o contexto?

Zora 1: “Somos parte do movimento de mulheres. Lutamos pela libertação da mulher . Sem contar as afinidades teóricas, há algo mais que une nossa prática e o movimento de mulheres, que é a radicalização pessoal que pode incentivar outras mulheres a resistir e a levar a si mesmas e a luta a sério. É o sentimento de força que aparece quando alguém se dá conta de pode fazer coisas que antes lhe davam medo e ao ver que isso dá algum resultado. Gostaríamos de compartilhar esse sentimento. Não pensamos isso deve ocorrer sob as mesmas formas que nós escolhemos. Podemos pegar como exemplo aquelas mulheres que arruinaram um espetáculo erótico, pintando símbolos feministas e lançando bombas de cheiro, esse tipo de ação nos anima, nos fortalece, e esperamos que as nossas ações façam os o mesmo com outras mulheres. Nosso sonho é que em todas as partes existam pequenos grupos de mulheres, que em cada cidade um estuprador, um traficante de mulheres, um agressor, um publicitário misógino, um vendedor de pornografia, um ginecologista escroto saibam que um grupo de mulheres os encontrará para atacá-los e expô-los ao ridículo frente à opinião pública. Por exemplo, podem pixar em sua casa quem é, o que ele faz — ou no seu carro, ou no seu trabalho, poder das mulheres em todas as partes!”

Como vocês lidam com a responsabilidade de possivelmente pôr em risco a vida de inocentes com as suas ações?

Zora 2: “Porque será que as pessoas sempre pensam que aqueles que utilizam explosivos não se preocupam com algo que é evidente para elas mesmas, para o movimento de mulheres ou para a esquerda? É totalmente o contrário! Devido à possibilidade de pôr vidas em risco, nós nos esforçamos para ser especialmente cuidadosas. Assim como você, nós pensamos que deveríamos deixar de fazer o que fazemos se o que você afirma na sua pergunta acontecesse. Seria um paradoxo lutar contra um sistema para o qual a vida só vale na medida em que pode ser usada e, da mesma forma, nos tornarmos tão cínicas e brutais quanto esse mesmo sistema. Houve diversas ações das quais desistimos porque não podíamos eliminar o risco de atingir pessoas inocentes. Algumas empresas sabem muito bem disso e, por isso, decidem se mudar para edifícios residenciais. Eles jogam com a nossa moral ao mudar para locais onde moram pessoas para proteger sua propriedade.”

Como vocês respondem ao seguinte argumento: “as ações armadas destroem o movimento”? Por causa delas, pode-se aumentar a vigilância ao movimento de mulheres e denunciá-lo como terrorista, que são uma parte separada, isolada, da maior parte das mulheres do movimento.

Zora 1: “Com “destruir o movimento”, você está falando da repressão. Não são as ações que destroem o movimento! É totalmente o contrário, elas podem apoiá-lo diretamente. Nosso ataque aos traficantes de mulheres, por exemplo, ajudou a expor esse negócio para o grande público, para ameaçá-los. Agora eles sabem que devem prever a resistência das mulheres se eles continuam seus negócios. Esses “cavalheiros” sabem que devem o fazer. Nós chamamos isso de fortalecimento do movimento.”

Zora 2: “Há muito tempo a estratégia de contra-revolução começou, de todas as maneiras, a separar a ala radical do resto do movimento e isolá-la para enfraquecer o movimento como um todo. Nos anos 70, percebemos o que isso significava quando setores da esquerda adotaram a propaganda do estado, quando começaram a acusar os que lutavam sem comprometimento de serem os responsáveis pela perseguição, destruição e repressão do estado. Não só confundiam a causa com o efeito, como também justificavam o terror implícito do estado. Por isso, enfraqueceram a si próprios. Restringiram o alcance de seu protesto e de sua resistência.”

Zora 1: “Nossa experiência: para nos mantermos longe do controle e protegermos a nós mesmas dos ataques do estado, é necessária uma forte união. Não podemos permitir mais que todos os grupos cometam os mesmos erros. Temos que criar estruturas onde compartilhemos os conhecimentos e as experiências que sejam úteis para o movimento.”

Como as mulheres que não são nem autônomas nem radicais podem entender o que vocês querem? As ações armadas podem produz ir um efeito de afastar as mulheres.

Zora 2: “Por que não assusta as pessoas quando um homem vende mulheres, mas podem se sentir assustadas com a ideia de queimar o carro dele? Por trás disso está o fato de que a violência social tradicional é aceita enquanto que vinganças similares afugentam. Talvez seja o medo à realidade social cotidiana se coloca em questão. As mulheres que desde que são pequenas são machucadas para que enfiem na cabeça que são vítimas se sentem inseguras com a ideia de que as mulheres não são vítimas nem pacíficas. Isso é uma provocação. Aquelas mulheres que experimentaram sua impotência com raiva podem sentir-se identificadas com nossas ações. Da mesma maneira que todo ato de violência contra uma única mulher cria uma atmosfera de ameaça contra todas as mulheres, nossas ações contribuem — ainda que o objetivo seja apenas contra o indivíduo responsável — ao desenvolvimento de uma atmosfera: A resistência é possível!”.

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1- A RAF foi um grupo armado guerrilheiro alemão que atuou nas décadas de 70 a 90 por meio de ações diretas, expropriações, sequestros, explosões, se baseavam no manual do guerrilheiro urbano do Mariguella. Recomendamos o filme “Baader-Meinhof Complex” que retrata bem o grupo e é bastante inspirador. Sua última ação consistiu na detonação com muitas bombas de uma prisão quando recém-construída, uma das mais caras em território alemão. [N.T.]

2- As militantes tinham a necessidade de agir clandestinamente. Não há confirmações mas existem boatos de que se tratasse de um grupo lésbico. [N.T.]

3- Um conto para crianças, “rote” significa vermelha em alemão. [N.T.]

4- Data comemorada em homenagem a Santa Valburga, que nasceu em Wessex por volta de 710 d.C., começou sua vida religiosa como freira em Wimbornem e mais tarde juntou-se à missão de São Bonifário de Crediton, na Alemanha e ganhou grande notoriedade na Europa. Todas as noites de 1 de maio os alemães comemoram a “Noite de Santa Valburga”, pois foi nesta mesma data em que os restos mortais dela foram transferidos para a cidade de Eixhstatt. [N.T.]

5- Não foi encontrada uma palavra exata, mas slum significa algo como ‘favela’, ou bairro pobre e lord significa patrão, senhor, seria algo como os ‘senhores da quebrada’. [N.T.]

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