Assata Shakur sobre Cuba, Socialismo e Antirracismo

Também estava claro para mim que sem um componente verdadeiramente internacionalista, o nacionalismo era reacionário. Não havia nada de revolucionário no nacionalismo por si só – Hitler e Mussolini eram nacionalistas.

Assata: Uma Autobiografia – Pós-escrito
Traduzido por Assata Shakur em Português

Liberdade. Eu não conseguia acreditar que realmente aconteceu, que o pesadelo tinha acabado, que finalmente o sonho tinha se tornado realidade. Eu estava exultante. Extasiada. Mas eu estava completamente desorientada. Tudo continuava a mesma coisa, ainda que tudo estivesse diferente. Todas as minhas reações eram super intensas. Eu submergi em padrões e texturas, sugando cheiros e sons como se cada dia fosse meu último. Eu me senti uma voyer. Eu me forcei a não ficar encarando as pessoas das quais as conversas eu me esforçava para escutar.

De repente, eu fui inundada com os horrores da prisão e toda experiência nojenta que eu, de alguma forma, fui capaz de minimizar enquanto lá dentro. Eu desenvolvi a habilidade de ser paciente, calculista e completamente autocontrolada. Na maior parte do tempo, eu fui incapaz de conseguir chorar. Eu me sentia rígida, como se tarugos duros de aço e concreto tivessem conseguido entrar no meu corpo. Eu estava fria. Eu me esforcei para entrar em contato com a minha suavidade. Eu estava com medo de que a prisão tivesse me feito feia.

Meus companheiros me ajudaram muito. Eles eram tão lindos e saudáveis. Eu os amei pela sua bondade comigo. Havia anos desde que eu tinha me comunicado com alguém tão intensamente e eu falava com eles quase que compulsivamente. Eles eram como remédios, me ajudando a me tornar eu mesma de novo.

Mas eu havia mudado e de diversas maneiras. Eu não era mais a jovem romântica revolucionária inocente que acreditava que a estava logo na esquina. Eu ainda apreciava o idealismo energético, mas eu havia há muito tempo me convencido de que a revolução era uma ciência. Generalidades não eram mais suficientes para mim. Como meus companheiros, eu acreditava que um nível mais alto de sofisticação política era necessária e que a união da comunidade Preta precisava se tornar prioridade. Nós não podíamos nos permitir esquecer as lições que aprendemos com a COINTELPRO[1]. Para mim, construir um senso de consciência nacional era uma das tarefas mais importantes que estavam à nossa frente. Eu não conseguia enxergar como nós poderíamos lutar seriamente sem ter um forte senso de coletividade, sem sermos responsáveis por cada um e com cada um.

Também estava claro para mim que sem um componente verdadeiramente internacionalista, o nacionalismo era reacionário. Não havia nada de revolucionário no nacionalismo por si só – Hitler e Mussolini eram nacionalistas. Qualquer comunidade seriamente preocupada com sua própria liberdade precisava estar preocupada com a liberdade dos outros povos também. A vitória do povo oprimido em qualquer lugar do mundo é uma vitória para o povo Preto. Cada vez que um dos tentáculos do imperialismo é cortado fora, nós estamos mais próximos da libertação. A luta na do Sul é a batalha[2] mais importante do século para o povo Preto. A derrota do apartheid na levará Africanos de todo o mundo mais próximo da libertação. O imperialismo é um sistema internacional de exploração e, nós, enquanto revolucionários, precisamos ser internacionalistas para derrotá-lo.

Assata Shakur em Cuba – Foto: Reprodução

Havana. Sol preguiçoso em contraste com o oceano azul-esverdeado. Uma linda cidade de ruas estreitas formando teias de um lado e avenidas largas com trilhos de trem do outro. Casas com tintas descascando e carros antigos dos anos 40 e 50.

É um lugar ocupado, cheio de ônibus, pessoas apressadas, crianças em uniformes vinho ou dourados andando leisurely pelas ruas balançando sacolas de livros. A primeira coisa que me impactou foram as portas abertas. Em todo lugar que você vai, as portas estão abertas. Você vê pessoas dentro de suas casas conversando, trabalhando e vendo televisão. Eu fiquei maravilhada em descobrir que você realmente podia andar pelas ruas sozinha de noite.

Pessoas idosas passeando devagar, carregando sacolas de compras, param para perguntar, “Qué hay? Qué hay en la mercada?” “O que estão vendendo no mercado?” Sem um momento de hesitação, eles gritam para as crianças saírem da rua. Eles ficam parados com as mãos na cintura, agindo como se fossem donos do lugar. Eu acho que são. Eles não têm medo.

“Es mentira.” Meus vizinhos exclamam. “É mentira.” “Que mentirosa tu eres.” “Que mentirosa você é.” Meus vizinhos perguntam como é os EUA[3] e me acusam de estar mentindo quando eu conto sobre a fome e o frio e as pessoas dormindo nas ruas. Elas se negam a acreditar em mim. Como pode isso em um país tão rico? Eu falo sobre os vícios em drogas e prostituição infantil, sobre crimes nas ruas. Elas me acusam de estar exagerando: “Nós sabemos que o capitalismo não é um sistema bom, mas você não precisa exagerar. Realmente existem viciados de 12 anos de idade?”

Apesar de eles saberem sobre o e a ku klux klan, sobre o desemprego, tais coisas são surreais para eles. Cuba é um país de esperança. A realidade deles é diferente. Eu fico maravilhada com o quanto os cubanos realizaram em tão pouco tempo desde a Revolução. Há novos prédios em toda parte – escolas, apartamentos, clínicas, hospitais e centros de saúde. Eles não são como os arranha-céus subindo no meio da cidade de Manhattan. Não há condomínios exclusivos nem prédios de escritórios luxuosos. Os prédios novos são para o povo.

Saúde, saúde dentária e visitas médicas são de graça. O ensino em todos os níveis educacionais são de graça. O aluguel não é mais do que dez por cento dos salários. Não há impostos – municipais, federais ou estatais. É tão estranho pagar o preço real dos produtos sem nenhum imposto acrescido. Eventos como cinema, teatro, concertos e esportes custam um ou dois pesos no máximo. Museus são de graça.

Nos sábados e domingos, as ruas ficam cheias de gente arrumadas e prontas para se divertir. Eu fiquei maravilhada em descobrir que uma ilha tão pequena tem uma vida cultural tão rica e tão viva, especialmente quando a mídia dos EUA pinta um cenário exatamente contrário.Eu estou sendo apresentada a alguém em uma festa. A anfitriã me diz que o homem é de El Salvador. Eu estendo a minha mão para apertar a dele. Alguns segundos tarde demais eu percebo que ele não tem um braço. Ele me pergunta de que país eu sou. Eu estou tão chateada e envergonhada que estou quase tremendo. “Eu sou dos estados unidos, mas não sou ianque”, eu digo a ele. Uma pessoa amiga minha havia me ensinado essa frase. Eu odiava contar para as pessoas que eu era dos EUA. Eu preferiria dizer que eu era uma Nova Afrikana[4], mas quase ninguém entenderia o que eu queria dizer. Quando eu li sobre os esquadrões da morte de El Salvador ou sobre o bombardeio de hospitais na Nicarágua, eu senti como se precisasse gritar.

Muitas pessoas nos EUA apoiam a morte e destruição sem nem se dar conta. Elas indiretamente apoiam o assassinato de pessoas sem precisar nunca ver seus corpos. Mas em Cuba eu podia ver os resultados da política internacional dos EUA: vítimas de tortura usando bengalas que vieram de outros países para Cuba para tratamento, incluindo crianças da Namíbia que sobreviveram à massacres, e evidências das agressões maldosas que o governo dos EUA cometeu contra Cuba, incluindo sabotagem e inúmeras tentativas de assassinato contra Fidel. Eu imaginava como todas aquelas pessoas nos Estados Unidos que tentavam soar duras, dizendo que os EUA deveriam invadir aqui, bombear lá, conquistar aqui, sentiriam se soubessem que estão sendo indiretamente responsáveis por bebês sendo mortos queimados. Eu imaginava como elas se sentiriam se elas fossem forçadas a tomar responsabilidade moral por isso. Às vezes parecia que as pessoas nos estados unidos são tão acostumadas em ver a morte no “Eyewitness News”, ver pessoas morrerem de fome na África, serem torturadas até a morte na América Latina ou baleadas nas ruas da Ásia que, de alguma forma, para elas, as pessoas do outro lado do oceano – pessoas “lá de cima” ou “lá de baixo” ou “do outro lado” – não são reais.

Uma das primeiras questões na cabeça dos Pretos dos estados unidos quando vem para Cuba é se existe ou não. Eu certamente não era exceção. Eu havia lido um pouco sobre a história do povo Preto em Cuba e sabia que era bem diferente da história do povo preto nos estados unidos. O racismo cubano não tinha sido tão violento e institucionalizado como o racismo nos EUA e a tradição das duas raças, Pretos e brancos, lutando por libertação – primeiro da colonização e depois da ditadura – era muito mais forte em Cuba. A primeira pela independência de Cuba começou em 1868 quando Carlos Manuel De-Céspedes libertou seus escravos e os encorajou a se juntarem ao exército na luta contra a Espanha. Uma das figuras mais importantes naquela guerra foi Antonio Maceo, um homem preto, que era o chefe militar estrategista. Os Pretos tiveram um papel crucial no movimento operário de Cuba nos anos 50. Jesús Menéndez e Lázaro Peña lideraram dois sindicatos chaves. E eu sabia que Pretos como Juan Almeda, hoje Comandante da Revolução, tiveram um papel importante na luta revolucionária para derrotar Batista. Mas eu estava mais interessada em aprender o que aconteceu com os Pretos depois do triunfo da Revolução.

Eu passei minhas primeiras semanas em Havana andando e observando. Não achei em nenhum lugar uma vizinhança segregada, mas diversas pessoas me disseram que onde eu estava morando só tinha brancos antes da Revolução. Só de observações casuais era óbvio que as relações de raça em Cuba eram diferentes do que eram nos EUA. Pretos e brancos podiam ser vistos juntos em todo lugar – em carros, andando pelas ruas. Crianças de todas as raças brincavam juntas. Era certamente diferente. Sempre que eu conhecia alguém que falava inglês eu perguntava sua opinião sobre a situação racial. “Racismo é ilegal em Cuba,” me disseram. Muitos balançavam a cabeça e diziam, “Aquí no hay racismo.” “Não existe racismo aqui.” Apesar de ter ouvido a mesma resposta de todo mundo, eu me mantive cética e duvidosa. Eu não podia acreditar que era possível eliminar centenas de anos de racismo do nada, em vinte e cinco anos ou por aí. Para mim, revoluções não são mágicas e nenhuma varinha mágica poderia ser balançada para criar mudanças da noite pro dia. Eu passei a ver a como um processo. Eu eventualmente me convenci de que o governo Cubano estava completamente comprometido em eliminar todas as formas de racismo. Não havia instituições, estruturas ou organizações racistas e eu entendi como o sistema econômico cubano minava mais do que alimentava o racismo.

Eu havia assumido que os Pretos estariam trabalhando dentro do governo cubano para implementar mudanças e para garantir a continuação das políticas não-racistas que Fidel e os líderes haviam instituído em todo aspecto da vida cubana. Um amigo cubano Preto me ajudou a entender melhor. Ele me disse que cubanos viam a herança africana como natural. Que há séculos cubanos dançavam ritmos africanos, faziam performances rituais tradicionais e cultuavam Deuses como Shangô e Ogun. Ele me disse que Fidel em um discurso disse para o povo, “Nós somos todos afro-cubanos, do mais claro até o mais escuro.”

Eu falei pra ele que eu achava que era tarefa dos africanos em todo lugar do planeta lutar para reverter os padrões criados pela escravidão e pelo imperialismo. Apesar de ele concordar comigo, ele rapidamente me informou que não se considerava africano. “Yo soy cubano.” “Eu sou cubano”. E era óbvio que ele era muito orgulhoso de ser cubano. Ele me contou uma história de um cubano branco que se voluntariou duas vezes para lutar em Angola. Ele recebeu prêmios por heroísmo. “O caso dele não é comum em Cuba, mas tem algumas pessoas que têm problemas para se adaptar à mudanças.”

“Qual era o problema dele?” eu perguntei. “Quando o cara chegou em casa, ele fez um grande escândalo com a família. Sua filha queria casar com um homem Preto e ele era contra. Ele disse que queria que seus netos parecessem com ele. Foi uma discussão grande e a família toda se envolveu. Esse cara era tão confuso que ele enlouqueceu quando a filha o chamou de racista. Ele queria brigar com todo mundo. Ele ficava pelas ruas, chorando e chutando os postes de luz. Ele não sabia o que fazer. Todo o tempo em Angola lutando com o racismo e ele nunca pensou sobre o próprio racismo.”

Eu concordava com ele de que brancos lutando contra o racismo precisavam lutar em dois níveis, contra o racismo institucionalizado e contra suas próprias ideias racistas. “O que aconteceu com o homem?”, eu perguntei.

“Bem, sua filha casou mesmo assim e sua família o convenceu a ir ao casamento. Agora, ele cuida da neta e diz que é louco por eles, mas o cara ainda não bate bem da cabeça. Toda vez que o vejo, ele fica se desculpando. Eu falei pra ele que não queria suas desculpas. Que ele se desculpasse com a filha e o marido. Desde que ele apoiasse a Revolução, não me importava o que ele pensava. Eu me importo mais com o que ele faz. Se ele realmente apoia a Revolução, então ele vai mudar. E, mesmo que ele nunca mude, seus filhos vão mudar. E seus netos vão mudar ainda mais. É com isso que me importo.”

Toda a questão de raça em Cuba era ainda mais confusa para mim porque todas as categorias de raça eram diferentes. Em primeiro lugar, a maioria dos cubanos brancos nem seriam considerados brancos nos EUA. Eles seriam considerados Latinos. Eu fiquei chocada em saber que muitos cubanos que pareciam Pretos para mim não se consideravam Pretos. Eles se chamavam de mulatos, colorado, moreno e vários outros nomes. Parecia pra mim que todo mundo que não era muito preto era considerado mulato. A primeira vez que alguém me chamou de “mulata,” eu me senti tão insultada que se eu fosse capaz de me expressar em espanhol, nós teríamos tido uma discussão acalorada na hora.

“Yo no soy mulata. Yo soy uma mujer negra, y orgullosa soy uma mujer negra,” eu dizia para as pessoas assim que eu aprendi um pouco de espanhol. “Eu não sou mulata, mas sim uma mulher Preta e tenho orgulho de ser Preta.” Algumas pessoas entendiam o que eu estava falando, mas outras pensavam que eu ficava muito ligada na questão de raça. Para elas, “mulato” era apenas uma cor, como vermelho, verde ou azul. Mas, para mim, representava uma relação histórica. Todas as minhas associações com a palavra “mulato” eram negativas, representava escravidão, donos de escravos estuprando mulheres Pretas. Representava uma casta privilegiada, educada sob valores e europeus. Em alguns países Caribenhos, representava o nível intermediário de um sistema de três castas – a casta que agia como uma classe-escudo entre os brancos governantes e a massa Preta.

Eu achava impossível separar a palavra da sua história. Isso me lembrava de um ditado que eu ouvi repetidamente desde a minha infância: “Se você é branca, você tá certa. Se você é marrom, fique por aqui. E, se você é preta, volte.” Eu percebi que para realmente entender a situação, eu tinha que estudar a história de Cuba toda. Mas, de alguma forma, eu senti que a coisa do mulato impedia os cubanos de lidar com algumas das ideias negativas que sobraram da escravidão.

O movimento do orgulho Preto tem sido muito importante em ajudar o povo Preto nos EUA e em outros países de língua inglesa a ver sua herança Africana sob uma luz positiva. Eu nunca soube de qualquer movimento equivalente em torno do orgulho mulato e eu não conseguia imaginar em que base isso aconteceria. Para mim, era muito importante para todos os descendentes de africanos em todo lugar desse planeta lutar para reverter os padrões políticos, econômicos, psicológicos e sociais criados pela escravidão e imperialismo.

O problema do racismo toma tantas formas e figuras. É um problema complicado que requererá muita análise e luta para resolver. Apesar de os cubanos e eu, de alguma forma, abordarmos o problema de diferentes ângulos, eu senti que compartilhamos o mesmo objetivo: a abolição do racismo em todo o mundo. Eu respeitava o governo cubano, não apenas por adotar princípios não-racistas, mas por lutar para colocar esses princípios em prática.

Eu prendi minha respiração enquanto eu esperava minha tia atender o telefone. Fazia cinco anos desde que nos falamos pela última vez. Cinco anos que eu não podia contactar minha família. Com sorte, ela não teria mudado de número. Um clique. E então, finalmente, eu ouvi sua voz. Eu estava tão feliz.

“Tia,” eu quase gritei. “Sou eu. Assata.”
“Quem?”
“Assata.”
“Quem?”
“Sou eu. Assata. Eu estou em Cuba. Eu estou em Cuba. Ah, eu te amo. É tão bom ouvir sua voz. Como você está?”
A voz do outro lado era da minha tia, mas era tão fria que eu mal pude acreditar. “Ah, sim. Assata. Hum. Certo. Bem, estou bem.”
“Qual o problema, tia? Sou eu. Assata. Você está bem?”
“Estou bem.”
“Tia. Ai, eu senti tanta falta de você. Está tudo bem. Está tudo certo. Estou bem. Estou bem. Como está todo mundo? Como está todo mundo?”
Novamente a voz de gelo. “Tudo está bem. O que você quer?”
“O que eu quero? O que você quer dizer com o que eu quero? Eu quero falar com você. Eu te amo. Você parece tão fria.”
“Bem…isso…isso…eu…” Houve uma pausa. E então, “Diga algo para que eu saiba que é realmente você. Algo que só você e eu sabemos.”
Enfim entendendo, eu disse a primeira coisa que surgiu na minha cabeça. “Tia, calça, jack o stanty.” Era uma rima boba de criança e ninguém mais poderia saber sobre. Eu costumava implicar com ela com isso quando eu era criança.
“É você. Ai, meu Deus, é realmente você,” ela gritou. “Espera. Me dá um segundo pra eu recuperar o fôlego. Como você está?”
“Bem,” eu disse. Como estão a Mamãe e Kakuya?”
“Sua mãe está bem. Ai, ela vai ficar tão feliz quando eu falar pra ela que falei com você. Kakuya está bem também. Sua filha está tão grande que você não vai reconhecê-la. Está quase do seu tamanho.”
Eu falei pra ela que eu queria ligar para a minha mãe e Kakuya assim que eu terminasse de falar com ela.
“Não. Liga pra ela amanhã. Me deixa ligar antes pra ela pra que ela saiba que é você. Onde você disse que está?”
“Cuba. Estou ligando de Cuba. Sou uma refugiada política aqui.”
“Cuba?” minha tia repetiu. “Cuba? Você está bem aí? Digo, você está segura?”
“Eu acho que sim,” eu disse. “Me sinto bem. Pareceu o único caminho.”
Falar com Kakuya e meu irmão no dia seguinte foi como um sonho. “Oi,” uma pequena voz falou no telefone. Foi a voz mais linda que eu já ouvi. Eu estava nervosa e feliz. Soando baldes.
“Como você está?” eu perguntei pra minha filha.
“Bem.”

Eu me senti como uma vasilha borbulhando. Todos os sentimentos que eu mantive dentro por tanto tempo jorrando. Eu tinha milhões de coisas que eu queria perguntar. Um milhão de coisas que eu queria dizer.

Minha mãe e eu fizemos planos. Ela, minha tia e Kakuya viriam assim que possível. Parecia bom demais pra ser verdade. E era.

Mês após mês se passou. Para que Kakuya conseguisse seu passaporte, ela precisava de uma certidão de nascimento. Minha mãe me disse que por dez anos o Hospital Elmhurst se negou a emitir uma certidão para Kakuya. Finalmente, depois de meses de luta, Evelyn teve que ir ao tribunal para conseguir um documento provando que minha filha havia nascido.

Com o passar dos meses, eu comecei a entender o inferno que a polícia e o FBI fizeram minha família passar. Depois que eu fugi, a polícia aborreceu minha mãe tão persistentemente e brutalmente que ela teve um ataque do coração. O que eles fizeram com a Evelyn foi inacreditável. Eu entendi porque a Evelyn reagiu à minha ligação daquele jeito. Uma vez, o telefone do escritório dela teve dez interceptações. Ela e a minha mãe tinham recebido bilhetes cafonas com a minha caligrafia. Elas receberam telefonemas com a minha voz dizendo pra elas “que fossem até o lugar e levasse dinheiro.” Elas acharam olhos eletrônicos e todo tipo de dispositivo dentro e em torno de suas casas. Elas experimentaram invasões estranhas onde nada era levado. Mas elas sobreviveram. E ficaram mais fortes no processo.

Enquanto o avião sobrevoava Havana, parecia que o meu coração estava batendo nas minhas costelas para sair. Meu estômago doía. Minha boca estava seca como algodão. Pareceu que um milhão de pessoas saíram do avião antes daquela menina alta com grandes olhos começasse a descer a rampa. Eu pude ver a minha mãe, parecendo frágil, mas ainda tão determinada. Com a minha tia atrás dela, parecendo triunfante.

Quanta coisa que nós todas passamos. Nossa luta começou em um navio negreiro anos antes de nascermos. Venceremos, minha palavra favorita em espanhol, passou pela minha cabeça. Dez milhões de pessoas se levantaram contra o monstro. Dez milhões de pessoas há apenas noventa milhas de distância. Nós estávamos aqui juntas na terra deles, minha pequena família, nos abraçando depois de tanto tempo. Não havia dúvidas sobre isso, nosso povo será livre um dia. Os perigosos[5] e bandidos não dominam o mundo.

Retirado da publicação da página Domingos Passos – Anarquismo Anticolonial

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[1] Counterintelligence Program, programa posto em prática pelo FBI (Federal Bureau of Investigation) que visava destruir grupos, organizações e líderes do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, especialmente organizações do movimento Negro.
[2] Referência à luta contra o apartheid na do Sul, que foi legalizado de 1948 a 1994.
[3] Do original u.s.a., com letra minúscula para diminuir a importância do seu significado.
[4] Referência à organização República da Nova Áfrika.
[5] Do original cawboys.

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