Trabalhadores de aplicativos do Rio de Janeiro se unem à paralisação nacional

Com a promessa de uma greve caso não sejam atendidos, os trabalhadores iniciaram o dia brecando as empresas

Foto: Rafael Daguerre / Mídia1508

Nesta quarta-feira (01/07), trabalhadores e trabalhadoras de aplicativos realizaram uma paralisação em diversas capitais do país. A manifestação tomou proporções continentais, entregadores de México, Argentina, Chile e outros países da América Latina se juntaram ao “” em solidariedade aos brasileiros.

No a concentração do ato começou às 9h da manhã em frente a Candelária, Centro da cidade. Com muitos jornalistas, os trabalhadores fizeram várias entrevistas denunciando as péssimas condições de trabalho a que estão submetidos. A manifestação saiu às 11h em buzinaço a caminho do Ministério do Trabalho, também no Centro.

Muitas reclamações foram registradas, como o fato de não terem qualquer vínculo empregatício e sequer saberem quem os contrata. É tudo virtual. Com isso, os trabalhadores não possuem qualquer benefício, nem hora de almoço e nem vale refeição por exemplo. Alguns explicam inclusive que compraram a mochila da empresa de outro entregador, com o próprio dinheiro. São dezenas de denúncias de . Entre as principais reivindicações estão: o aumento do valor por km percorrido, com a pandemia os pedidos aumentaram e nada foi repassado aos trabalhadores, pelo contrário, informam que as taxas de entrega diminuíram; o aumento do valor mínimo, eles denunciam que “praticamente pagamos para trabalhar”; e exigem o fim dos bloqueios indevidos e a reintegração dos que foram cortados pelos aplicativos. Afirmam que os aplicativos simplesmente bloqueiam e desligam sem que haja qualquer explicação ou justificativa. Alguns entregadores também desconfiam que foram bloqueados por participar de manifestações. Indignados com a situação dizem “estamos literalmente na ‘linha de frente’ realizando as entregas e correndo risco”.

Manifestação no centro do Rio de Janeiro / Foto: Rafael Daguerre – Mídia1508

A “uberização” das relações de trabalho

Os trabalhadores e as trabalhadoras de aplicativos vivem a “uberização” das relações de trabalho diariamente, um modelo de trabalho que é vendido como atraente e ideal, sem patrão, pois propaga a possibilidade de se tornar um empreendedor. Entretanto, a ilusão do trabalho autônomo se transforma em uma atividade presente a todo momento, com o aplicativo interligado aos trabalhadores gerando uma contradição que acaba com qualquer chance de liberdade.

As metas impostas e a busca por trabalho em um sistema econômico que se baseia na exploração, assegura uma mão de obra que trabalha por mais de doze horas diárias, sem qualquer tipo de fiscalização do Estado ou instituição para defender e regulamentar seus direitos, assim como reduzir os riscos da atividade. Muitos chegam a rodar 100 km por dia de bicicleta para fazer as entregas. “Eles não querem ter vínculo com a gente, mas querem nos obrigar a ter vínculo com eles, nos encurralam. Às vezes a entrega é muito longe para ganhar muito pouco, mas se não fizer, fica sem trabalhar o resto do dia”, diz um trabalhador. Por exemplo, o iFood tem a opção de escolher ou recusar uma corrida. Eles mostram a distância e o valor pago por ela, mas se o entregador recusar uma corrida, fica o dia inteiro bloqueado e não é chamado para novas entregas.

‘Entrego comida com fome’, diz um trabalhador de aplicativo de São Paulo que tem a bicicleta como veículo de trabalho.

Não são poucos os que relatam a situação de trabalhar com fome carregando comida nas costas. Paulo Roberto da Silva Lima, de 31 anos, conhecido como Galo, ganhou popularidade ao gravar vídeos expondo as condições de trabalho que viralizaram na internet. Galo e outros trabalhadores criaram um grupo de entregadores antifascistas. Ele conta que “as reivindicações dos entregadores antifascistas são ligadas à nossa comida. Não abraçamos outras pautas porque acreditamos que é uma luta por vez e em primeiro lugar é nossa alimentação para dar sequência a outras. Somos antifascistas porque acreditamos que o fascismo é quando um poder maior não deixa os poderes menores interagirem e extingue o diálogo. O fascismo vai de encontro à própria democracia”, afirma.

A partir de poucas e grandes empresas que concentram o mercado mundial dos aplicativos e plataformas digitais, que tem como principal característica, a ausência de qualquer tipo de responsabilidade ou obrigação em relação aos “parceiros cadastrados”, como são chamados os trabalhadores. Essa “parceria” ou “colaboração” é uma nova forma das empresas encobrir uma relação de exploração, porque obviamente não há qualquer parceria nos lucros.

Foto: Rafael Daguerre / Mídia1508

No Brasil são repassados à plataforma entre 20% e 30% dos valores cobrados aos clientes, de modo que ao motorista não sobra muito, considerando os baixos valores dos serviços. Associado ao fato de que são os trabalhadores que assumir as despesas de celular, internet, combustível, reparos, desgastes do veículo, tributos, seguros, além de assumir a responsabilidade por danos causados a terceiros.

A plataforma conta ainda com uma forma extremamente eficiente de controle de qualidade dos serviços prestados, e sem qualquer ônus para a empresa, já que os clientes são os responsáveis por avaliar a corrida e o motorista, assegurando perfeição e celeridade no atendimento. A pontuação é uma das maiores fontes de pressão psicológica e estresse dos trabalhadores, em uma busca incessante pela empatia e satisfação do cliente. Afinal, duas avaliações negativas são suficientes ao descredenciamento, já que têm que manter uma média de 4,6 pontos, numa escala de 1 a 5 estrelas, para continuarem com a parceria. Todo este processo é conduzido sem qualquer tipo de desgaste para a empresa, e em total impotência do motorista, vez que tudo ocorre através do sistema operacional, sem qualquer tipo de ingerência, fiscalização ou assistência.

Alguns aplicativos sequer informam antes quanto paga pela entrega no momento do pedido. E vários entregadores reclamam dizendo que muitas vezes a entrega não paga nem a gasolina. As denúncias são diversas, contam ainda que os aplicativos obrigam a trabalhar todos os sábados e domingos para pontuar, caso contrário você é bloqueado durante a semana. É um ciclo de exploração em que se você trabalhar de segunda a sábado, não pontua, obrigando a trabalhar domingo também, porque se não tiver ponto, não consegue trabalhar durante a semana.

O capitalismo é capaz de se reinventar e encontrar novos caminhos para a exploração do trabalho, com empresas que vendem uma imagem de modernas usando termos como “parceria” ou “colaboração” e realizando tudo virtualmente, mas que na verdade escondem novas formas de precarização do trabalho. Mais injustiça e menos direitos trabalhistas, criando cada vez mais contradições, como fazer pessoas – que sequer possuem horário para o próprio almoço – passarem o dia entregando comida com fome.

Realizamos uma transmissão ao vivo do no Rio de Janeiro. Assista:

Ato #BrequeDosApps

Imagens da transmissão #aovivo que realizamos da manifestação dos trabalhadores e das trabalhadoras de aplicativos no Rio de Janeiro——Apoie a mídia independente: faça uma assinatura e colabore com a Mídia1508 a partir de apenas R$ 1,00 em www.apoia.se/midia1508

Publiée par Mídia1508 sur Mercredi 1 juillet 2020

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