#BrequeDosApps: Trabalhadores de aplicativos mostram força em São Paulo

Milhares de trabalhadores e trabalhadoras aderem à paralisação contra as empresas de aplicativos em São Paulo.

"Ponte Estaiada" fechada pelo protesto / Foto: Carolina Barros – Mídia1508

O ‘Breque dos Apps’ reuniu milhares de entregadores espalhados em vários pontos de São Paulo, sendo uma das capitais do país com maior aderência à dos e das trabalhadoras de aplicativos de entrega. Pela manhã, já era nítido o impacto da greve, com restaurantes com pouco ou nenhum movimento de entregadores/as nas suas portas e bem longe da habitual correria próximo ao horário de almoço. Pela manhã, o principal grupo se concentrou na sede do sindicato dos motoboys na região do Brooklin, seguiu para a Av. Rebouças e chegou até o Tribunal Regional do Trabalho, onde protocolaram ofício com as pautas reivindicadas.

Depois os e as trabalhadoras partiram para a Avenida Paulista, por volta das 13h, que chegou a ficar parada em um sentido na altura do MASP. Em seguida, continuaram o ato na Ponte Octávio Frias de Oliveira, mais conhecida como Ponte Estaiada, na Zona Sul de São Paulo, que foi totalmente ocupada por motos e bicicletas. A manifestação contou com participação do Sindimoto, da UGT – União Geral dos Trabalhadores e outros apoiadores, que se mantiveram no local por cerca de duas horas. O balanço é de que cinco mil pessoas participaram dos atos em todo o estado de São Paulo.

As principais reivindicações são os reajustes de preços, aumentando os valores por km rodado e distância percorrida; distribuição de EPIs para proteção no trabalho durante a pandemia; auxílio à acidentes; contratação de seguro de vida e seguro de roubo e furto, além do fim dos bloqueios indevidos nos aplicativos. São inúmeras denúncias de precarização do trabalho.

Mais mobilizações devem ororrer nos próximos dias. Conforme informações recebidas, estão sendo votadas possíveis datas de novas paralisações, que seriam nos próximos dias 08 ou 12 de Julho.

Foto: Carolina Barros / Mídia1508

A “uberização” das relações de trabalho

Os e as trabalhadoras de aplicativos vivem a “uberização” das relações de trabalho diariamente, um modelo de trabalho que é vendido como atraente e ideal, sem patrão, pois propaga a possibilidade de se tornar um empreendedor. Entretanto, a ilusão do trabalho autônomo se transforma em uma atividade presente a todo momento, com o aplicativo interligado aos trabalhadores gerando uma contradição que acaba com qualquer chance de liberdade.

As metas impostas e a busca por trabalho em um sistema econômico que se baseia na exploração, assegura uma mão de obra que trabalha por mais de doze horas diárias, sem qualquer tipo de fiscalização do Estado ou instituição para defender e regulamentar seus direitos, assim como reduzir os riscos da atividade. Muitos chegam a rodar 100 km por dia de bicicleta para fazer as entregas. “Eles não querem ter vínculo com a gente, mas querem nos obrigar a ter vínculo com eles, nos encurralam. Às vezes a entrega é muito longe para ganhar muito pouco, mas se não fizer, fica sem trabalhar o resto do dia”, diz um trabalhador. Por exemplo, o iFood tem a opção de escolher ou recusar uma corrida. Eles mostram a distância e o valor pago por ela, mas se o entregador recusar uma corrida, fica o dia inteiro bloqueado e não é chamado para novas entregas.

‘Entrego comida com fome’, diz um trabalhador de aplicativo de que tem a bicicleta como veículo de trabalho.

Não são poucos os que relatam a situação de trabalhar com carregando comida nas costas. Paulo Roberto da Silva Lima, de 31 anos, conhecido como Galo, ganhou popularidade ao gravar vídeos expondo as condições de trabalho que viralizaram na internet. Galo e outros criaram um grupo de entregadores . Ele conta que “as reivindicações dos entregadores são ligadas à nossa comida. Não abraçamos outras pautas porque acreditamos que é uma luta por vez e em primeiro lugar é nossa alimentação para dar sequência a outras. Somos antifascistas porque acreditamos que o fascismo é quando um poder maior não deixa os poderes menores interagirem e extingue o diálogo. O fascismo vai de encontro à própria democracia”, afirma.

A partir de poucas e grandes empresas que concentram o mercado mundial dos aplicativos e plataformas digitais, que tem como principal característica, a ausência de qualquer tipo de responsabilidade ou obrigação em relação aos “parceiros cadastrados”, como são chamados os trabalhadores. Essa “parceria” ou “colaboração” é uma nova forma das empresas encobrir uma relação de exploração, porque obviamente não há qualquer parceria nos lucros.

Foto: Carolina Barros / Mídia1508

No Brasil são repassados à plataforma entre 20% e 30% dos valores cobrados aos clientes, de modo que ao motorista não sobra muito, considerando os baixos valores dos serviços. Associado ao fato de que são os que assumir as despesas de celular, internet, combustível, reparos, desgastes do veículo, tributos, seguros, além de assumir a responsabilidade por danos causados a terceiros.

A plataforma conta ainda com uma forma extremamente eficiente de controle de qualidade dos serviços prestados, e sem qualquer ônus para a empresa, já que os clientes são os responsáveis por avaliar a corrida e o motorista, assegurando perfeição e celeridade no atendimento. A pontuação é uma das maiores fontes de pressão psicológica e estresse dos trabalhadores, em uma busca incessante pela empatia e satisfação do cliente. Afinal, duas avaliações negativas são suficientes ao descredenciamento, já que têm que manter uma média de 4,6 pontos, numa escala de 1 a 5 estrelas, para continuarem com a parceria. Todo este processo é conduzido sem qualquer tipo de desgaste para a empresa, e em total impotência do motorista, vez que tudo ocorre através do sistema operacional, sem qualquer tipo de ingerência, fiscalização ou assistência.

Alguns aplicativos sequer informam antes quanto paga pela entrega no momento do pedido. E vários entregadores reclamam dizendo que muitas vezes a entrega não paga nem a gasolina. As denúncias são diversas, contam ainda que os aplicativos obrigam a trabalhar todos os sábados e domingos para pontuar, caso contrário você é bloqueado durante a semana. É um ciclo de exploração em que se você trabalhar de segunda a sábado, não pontua, obrigando a trabalhar domingo também, porque se não tiver ponto, não consegue trabalhar durante a semana.

O capitalismo é capaz de se reinventar e encontrar novos caminhos para a exploração do trabalho, com empresas que vendem uma imagem de modernas usando termos como “parceria” ou “colaboração” e realizando tudo virtualmente, mas que na verdade escondem novas formas de precarização do trabalho. Mais injustiça e menos direitos trabalhistas, criando cada vez mais contradições, como fazer pessoas – que sequer possuem horário para o próprio almoço – passarem o dia entregando comida com fome.

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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