A Remoção Interminável: Prefeitura volta a demolir casas na Favela do Metrô-Mangueira

Cerca de 20 casas recém construídas foram derrubadas, enquanto a demolição era escoltada por um forte aparato de repressão da Polícia Militar e da Guarda Municipal

Foto: Reprodução

A Prefeitura do Rio realizou, novamente, nesta quinta-feira (25) uma operação para demolição de casas na do Metrô-Mangueira, que fica ao longo da Avenida Radial Oeste, próximo à Mangueira e ao Maracanã, na zona norte do Rio.

Cerca de 20 casas recém construídas foram derrubadas. Enquanto a demolição era escoltada por um forte aparato de repressão da Polícia Militar e da Guarda Municipal, pessoas corriam contra o tempo para tentar salvar seus pertences, parte dos telhados e outros materiais de construção.

Já faz 10 anos que os os moradores da Favela do Metrô resistem a um processo de desocupação para dar lugar a um estacionamento que seria para as Olimpíadas de 2016. Mesmo passados os megaeventos, o Estado ainda tenta remover as moradias populares. Ao longo dos anos muitas casas foram derrubadas e diversas famílias foram expulsas do local. Muitas famílias ainda moram no local e resistem até hoje às tentativas de remoção.

Moradores protestam contra as remoções para Copa do Mundo em 2014 / Foto: Rafael Daguerre

A Favela do Metrô-Mangueira foi fundada há 40 anos por trabalhadores do nordeste do Brasil que estavam empregados nas obras de construção da estação de metrô do Maracanã. Em 2010, mais de 700 famílias que construíram e desenvolveram a favela ficaram sabendo que ela estava sob ameaça de ser removida, desde então, os moradores enfrentam pequenas remoções quase todos os anos. 

O movimento social Ação Direta em Educação Popular que atua na Favela do Metrô, lançou uma nota sobre o ocorrido:

SOBRE AS REMOÇÕES EM MEIO À PANDEMIA NO METRÔ-MANGUEIRA

Desde de 2014, a comunidade do metrô-mangueira (conhecida como favelinha) sofreu uma série de remoções criminosas, tendo em vista a Copa do Mundo e as Olimpíadas. A ADEP tem apoiado a resistência da comunidade desde esta época. Em 2016, casas chegaram a ser demolidas com pessoas dentro e o apoio dos estudantes da UERJ foi fundamental para levar a favela à Universidade em ato. Nesta ocasião, seguranças da Universidade tentaram impedir a entrada daqueles que buscavam escapar da e chegaram a quebrar uma vidraça e manter estudantes presos sob ameaças dentro de uma sala. A repercussão causada pelo ato na UERJ foi fundamental para que a comunidade ganhasse uma liminar impedindo a continuidade da remoção. Cumpre lembrar que no local habitam mais de 100 crianças.

Faz tempo que nossos apoiadores desenvolvem atividades lúdicas com essas crianças, incluindo filmes, capoeira, teatro e outros eventos culturais que acreditamos fazer parte do desenvolvimento da autoestima, da criação da identidade social e do próprio direito à infância. O Estado, por sua vez, quando aparece no local através das suas forças de segurança, é apenas para desrespeitar direitos básicos; abusar da autoridade e efetuar prisões arbitrárias. Ainda este ano, já durante a pandemia, recebemos a denúncia de que pessoas estavam sendo sequestradas por policiais, que cobravam resgate para não forjar flagrantes, tão certos são da falta de lei e da impunidade que impera por meio da política de segurança pública nas favelas.

Hoje, dia 25/06/2020, fomos informados logo cedo de uma nova remoção ocorrendo no local, propagandeada pela mídia como um grande feito da prefeitura do Rio agindo conjuntamente com a subprefeitura da Tijuca. As casas que foram removidas desta vez eram construções recentes, não cobertas pela liminar que impediu a continuidade do desalojo em 2016. Mas é importante dizer que, ao contrário do que está sendo noticiado, não eram casas construídas para venda ou aluguel por aproveitadores, mas que estavam sendo feitas com muito esforço e dificuldade por pessoas a quem o direito constitucional à moradia é negado sistematicamente.

Também se tentava construir uma nova sede para a associação de moradores e uma igrejinha local, ambas derrubadas em remoções anteriores e que não puderam ainda voltar a existir. Se casas voltam a ser construídas no local, isso se deve primariamente e antes de tudo ao fato de que existem milhares de pessoas sem casa ou morando distantes de seus trabalhos, tendo que se arriscar diariamente em transportes públicos insalubres durante uma pandemia. As casas que foram na época demolidas deixaram um enorme espaço vazio, que a prefeitura não usa e não permite às pessoas necessitadas voltarem a ocupar porque tem planos de conseguir acabar de vez com a favelinha. No que talvez acreditassem os moradores locais, que permitiram as novas construções, é que em meio a covid-19 não poderia haver remoção, mas nisso subestimaram o caráter genocida do poder público, que espera as pessoas gastarem suas poucas economias para construir algo e vai na sequência destruir, sem que ninguém seja ressarcido ou indenizado. Ao lado disso, a classe média hipócrita da Tijuca e adjacências sorri e comemora, segura em suas casas, a midiática e bem-sucedida operação policial. Para essas pessoas, gostaríamos apenas de lembrar que moradia é direito fundamental e que negar este direito, sobretudo neste momento, é política de morte.

A Mídia1508 produziu O filme curta-metragem ‘Favela que não luta é senzala – a resistência da ’ que relata os protestos na favela na luta por moradia nos anos de 2014 e 2015, contra as remoções dos governos de Sérgio Cabral e Eduardo Paes. Assista abaixo um fragmento do documentário:

Assista aqui o documentário completo.

Erick Rosa

“Só serei verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me cercam, homens e mulheres, forem igualmente livres, de modo que quanto mais numerosos forem os homens livres que me rodeiam e quanto mais profunda e maior for a sua liberdade, tanto mais vasta, mais profunda e maior será a minha liberdade.”
— Mikail Bakunin

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