A política de terrorismo do Rio de Janeiro: 17 pessoas mortas pela polícia em 10 dias

Hoje completa 10 dias desde a mais recente no Rio de Janeiro, ocorrida no Complexo do , dia 15 de maio. Nesse curto período foram 17 pessoas assassinadas pela polícia – BOPE, DESARME, Polícia Militar, Civil e Federal contribuíram para o massacre. É importante destacar que esses são os casos “oficiais”, de registro de operações policiais ou reportagens em que não há como esconder muito os fatos, apenas mascará-los. Acredito que o número dentro desses 10 dias ainda seja maior, o que só aumenta o escândalo de um evidente terrorismo do Estado brasileiro. No entanto, a população em geral, mas principalmente a carioca, parece não se importar.

No dia 15 de maio, a famigerada Forças Especiais da Polícia Militar (BOPE) e a Delegacia Especializada em Armas e Explosivos (Desarme) promoveram uma chacina no Complexo do Alemão, zona norte da cidade. Treze pessoas foram assassinadas e os corpos jogados na rua para exibição popular. Cinco corpos foram carregados pelos próprios moradores ou ficariam nas ruas da favela, reclamou um morador. Essa “exibição” é para pôr terror na população. Entre as pessoas mortas haviam àquelas envolvidas de alguma forma com o tráfico de drogas, mas isso não justifica uma ação onde 13 pessoas morreram e não há um policial ferido, o que indica um caráter de chacina.

O caráter de chacina é evidente, tanto que a Defensoria Pública do Estado pediu ao Ministério Público uma investigação independente. A Corte Interamericana de Direitos Humanos sugere que as forças envolvidas em ocorrências com mortes praticadas por policiais não podem investigar os próprios casos. No Brasil o que é bastante óbvio precisa ser sugerido. Não é à toa que os policiais se sentem inatingíveis, pois sabem que não haverá qualquer investigação, e se houver, os envolvidos na apuração dos fatos serão outros policiais.

A pessoas reclamam que com a falta de assistência do Estado, os próprios moradores do Alemão – e de todas as favelas – precisaram se mobilizar para garantir que a população tivesse acesso a água, alimentação e higiene. Por exemplo, quando a pandemia começou, centenas de famílias no Complexo do Alemão estavam há mais de 20 dias sem água. Como lavar às mãos? Se um condomínio da Barra ou de Botafogo estivesse sem água, o governo mandaria a Cedae ou a Polícia?

Não podemos nos esquecer, a maior apreensão de armas do Rio de Janeiro foi em uma casa de um condomínio fechado da Barra: 117 fuzis. Nenhum tiro contra os moradores. Não houve arrombamento nas outras casas como acontece nas favelas. Nada. Foram simplesmente 117 fuzis apreendidos e nenhum morto. No Complexo do Alemão foram apreendidos 8 fuzis, com 13 pessoas mortas. Detalhe, essa casa fica no condomínio onde reside o Presidente Jair Bolsonaro.

Para além do absurdo que são as “operações policiais” cotidianamente, agora, as “operações” impossibilitam a entrega de cestas básicas às famílias. Enquanto alguns moradores estão pedindo ajuda, doações, levando doações, fazendo um papel voluntário que deveria ser do Estado, o governo envia apenas a Polícia para reprimir em plena pandemia.

Moradores carregam um dos corpos da chacina / Foto: Ricardo Moraes

Complexo do Salgueiro

No dia 18 de maio, três dias depois, o menino João Pedro Matos Pinto, 14 anos, foi assassinado com um tiro na barriga após uma operação conjunta da Polícia Federal e da Polícia Civil no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. João Pedro foi resgatado por um helicóptero do Corpo de Bombeiros e desapareceu por horas e sua família o encontrou somente na manhã do dia seguinte, terça-feira (19/5), no Instituto Médico Legal de Tribobó, em São Gonçalo. Na casa de João Pedro foi registrado 72 marcas de tiros. A verdade é que todos da família poderiam estar mortos.

Favela de Acari

No mesmo dia 18, o jovem Iago César dos Reis Gonzaga, de 21 anos, foi torturado e morto pela polícia, durante uma operação na Favela de Acari, zona norte do Rio. Na “operação” estavam o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e o Batalhão de Choque da Polícia Militar. Iago foi baleado e simplesmente desapareceu. Moradores e familiares relataram que o jovem foi torturado com um saco plástico na cabeça e com uma faca. O jovem reapareceu morto e, em seguida, foi enrolado em um lençol e levado para uma viatura.

Cidade de Deus

Dois dias depois, no dia 20 de maio, outro jovem, João Vitor Gomes da Rocha, de 18 anos, foi assassinado em mais uma ação das Polícias Militar e Civil na Cidade de Deus, na zona oeste do Rio de Janeiro. A polícia invadiu a favela no momento em que a rua estava cheia por uma ação social. Voluntários da Frente Cidade de Deus (Frente CDD) finalizavam a entrega de 200 cestas básicas na região conhecida como Pantanal, para ajudar às vítimas da crise econômica provocada pela pandemia. João Vitor chegou a ser levado ao hospital municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, mas faleceu.

Favela da Providência

No dia seguinte, em 21 de maio, a Polícia Militar (PM) matou o jovem Rodrigo Cerqueira, de 19 anos, na Favela da Providência, no Centro do Rio de Janeiro. Professores e estudantes do pré-vestibular Machado de Assis entregavam dezenas de cestas básicas para os moradores no Colégio Estadual Reverendo Clarence, para ajudar a população vítima da crise econômica causada pela pandemia. Assim como na Cidade de Deus, a polícia interrompeu a doação dos voluntários.

Nesse momento a PM invadiu a ocupação Elma, na rua do Livramento, e segundo os próprios moradores “atiraram em um morador”. Rodrigo ou qualquer outro integrante da ocupação não estavam armados. Testemunhas afirmam que ele saiu do prédio morto, já que a PM o cobriu com lençol branco em seguida. Rodrigo trabalhava como ambulante na região.

João Pedro, 14 anos / Iago César, de 21 anos / João Vitor, de 18 anos / Rodrigo Cerqueira, de 19 anos

Para termos uma ideia, nos meses de abril e maio, as polícias do Rio de Janeiro mataram 65 pessoas em operações nas favelas. Nem o isolamento e nem a pandemia são capazes de parar a polícia que mais mata no mundo.

Rafael Daguerre

Um dos fundadores da Mídia1508. "Ficar de joelhos não é racional. É renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas" ― Carlos Marighella.

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