Polícia diz que traficantes atacariam rivais e foram interceptados. Afirmam que houve troca de tiros, no entanto, nenhum policial foi ferido e as viaturas que atuaram na ação não têm qualquer marca de tiro. Indícios de uma chacina.

Dezessete pessoas foram assassinadas por policiais na madrugada desta quarta-feira (30) durante ação da Polícia Militar no bairro Crespo, zona sul de . De acordo com a versão oficial, os agentes interceptaram traficantes que se preparavam para tomar uma boca de fumo. Eles teriam reagido a tiros à abordagem. Entretanto, a versão é contestada já que nenhum policial foi ferido e as viaturas não continham marcas de tiro. Os 17 mortos foram retirados da cena do crime antes da chegada da perícia, procedimento que confirma graves violações por parte dos agentes.

São detalhes que apresentam o padrão de uma chacina.

Moradores contam que alguns corpos foram colocados sobre cadeiras confiscadas das casas e arrastados até as viaturas. Todos chegaram já sem vida às unidades de saúde, segundo a Secretaria de Saúde do (Susam).

Um dos mortos foi identificado extraoficialmente como Ueliton do Nascimento da Silva Junior, de 14 anos. Segundo moradores, que falaram sob condição de anonimato, ele morava no bairro, não era ligado ao tráfico e foi baleado pelas costas ao tentar correr da confusão.

A ação policial contou com 60 agentes das Rondas Ostensivas Cândido Mariano (Rocam), considerada a unidade mais violenta da polícia amazonense, e da Força Tática. Segundo a PM, foram apreendidas – exatamente – 17 armas de fogo.

O local é de extrema pobreza, um emaranhado de casas de madeira construídas sobre palafitas. Embaixo, há um igarapé tomado pelo esgoto e pelo lixo. Para caminhar entre os becos é preciso pisar com cuidado em “rip-raps”, como são chamadas as precárias passarelas construídas com madeira reutilizada.

Outro jovem assassinado é o adolescente Alexsandro Custódio de Carvalho, de 16 anos, de acordo com seus familiares. O tio do jovem, o contador Christhophe Carvalho, 40 anos, disse que o adolescente trabalhava para uma facção criminosa, mas afirmou que moradores da região negaram que houve confronto.

A imagem evidencia a situação de extrema pobreza da região / Foto: Edmar Barros

Em diversas paredes há iniciais do Comando Vermelho pichadas em vermelho. Moradores contam que não foi a primeira vez que a Família do Norte (FDN) tentou tomar a área. As informações são confusas. A PM diz que recebeu denúncia de que, ao menos, 50 pessoas armadas estariam em um caminhão baú, em direção a um beco conhecido como JB Silva, na Rua Magalhães Barata, entre os bairros Crespo e Betânia, na Zona Sul. O tal caminhão não foi encontrado e nem essa quantidade de pessoas. A FDN teria tomado a boca de fumo sem encontrar e a polícia agiu para um lado da guerra, já que o tráfico não acabou na região. E pelas poucas informações é possível imaginar inclusive que essa denúncia tenha sido feita, por exemplo, pelo próprio Comando Vermelho. A polícia trabalhar para um dos lados não é novidade.

Independente se eram ou não trabalhadores do tráfico, a polícia não pode matar 17 pessoas e não permitir sequer que haja perícia e investigação da ação – apenas evidencia que na verdade ocorreu uma chacina por parte dos agentes.

“Polícia intervém tecnicamente”

Para “assinar embaixo” a , e por que não dizer, a chacina, o secretário de Segurança Pública do Estado do Amazonas, coronel Louismar Bonates, se pronunciou sobre as mortes com uma declaração no mínimo absurda: “a polícia não mata, a polícia intervém tecnicamente”. É a criminalização da pobreza e sua total desumanização.

Secretário de Segurança do Amazonas, coronel Louismar Bonates / Foto: Eliana Nascimento

A imagem evidencia a situação de extrema pobreza da região / Foto: Fabiano Masionnave

Corpos no IML (Instituto Médico Legal) de Manaus / Foto: divulgação

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