da comunidade bloquearam a Avenida Curaçao, no bairro Nova Cidade, zona norte de , na manhã desta sexta-feira (14). A ação foi um em repúdio ao assassinato no dia anterior do cacique da etnia Mura Williames Machado Alencar, 42, mais conhecido como Onça Preta. Eles denunciam estarem sendo alvo de constantes ameaças por parte de membros das facções criminosas Família do Norte (FDN) e Comando Vermelho (CV), que disputam o controle do narcotráfico na região.
  
“Aqui é uma área indígena e estão querendo tomar o nosso território. O Onça Preta era líder comunitário. Nós estamos sofrendo e sempre fomos oprimidos”, informou à imprensa local um indígena, que por medo de represália pediu anonimato. 
Na última quinta-feira (13), por volta das 14h,  um homem armado com uma pistola invadiu a casa de um amigo da vítima e atirou oito vezes à queima-roupa no cacique, que se preparava junto com outros indígenas para ir a uma audiência pública prevista para acontecer na Assembleia Legislativa do (Aleam). Ferido, o cacique foi socorrido por familiares e levado para o Serviço de Pronto Atendimento (SPA) Galileia, também na zona norte, porém chegou morto unidade de saúde.

Após o crime, o cacique Apurinã Adnael Farias de Souza assumiu a liderança da comunidade. Ele conta que o traficante João Pinto Carioca, o João Branco, um dos líderes da FDN, que atualmente cumpre pena no presídio federal de Mossoró (RN), fez uma chamada de vídeo para o seu celular de dentro da cadeia, o ameaçando de morte e dando um prazo para os indígenas abandonarem o local. Ainda assim, Adnael promete resistir:
“A terra é nossa, vamos sair por quê? Pode avisar pra esse João Branco aí que eu não tenho medo e não vou sair daqui não, ele não vai me matar não, vai matar minha carne, mas eu volto como espírito”, declarou o Apurinã, afirmando temer apenas pela vida dos filhos, que ainda estão em estado de choque, após terem presenciado o assassinato.

Foto: Jair Araújo

Onça Preta foi a segunda liderança indígena a ser executada em Nova Cidade somente neste ano. Na madrugada do dia 27 de fevereiro, o cacique Francisco de Souza Pereira, de 53 anos, da etnia Tucano, foi morto com quatro tiros na comunidade indígena Urucania, também no bairro.

Na ocasião, um morador, que preferiu não se identificar, relatou que Francisco morreu por ter ganhado a antipatia de traficantes, ao se opor à venda de drogas para o seu povo. O cacique era responsável por coordenar 42 aldeias na região.

Reintegração de posse

No Cemitério dos Índios, além do tráfico, os moradores ainda enfrentam uma tentativa de despejo por parte do Estado. Em agosto do ano passado, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação de reintegração de posse, alegando que a ocupação da área pelos indígenas representaria um risco para o sítio arqueológico existente no local, um dos maiores da América Latina.

O líder Apurinã Joel Rodrigues, 44, contesta esse discurso:  “Estamos lutando porque os poderosos já ocuparam metade das nossas terras. Grande parte do bairro está por cima do parque arqueológico. Estamos ocupando as beiras para preservar o que é nosso. Porque se não vão arrancar nossos antepassados da região e perderemos nossa cultura e história”, explica.

Na manhã de 8 de janeiro, cerca de 300 indígenas da comunidade realizaram um ato em frente à sede do governo do Amazonas, cobrando a regularização fundiária do aldeamento. A manifestação aconteceu após eles receberem uma notificação do MPF exigindo a sua saída. Atualmente, moram no Cemitério dos Índios cerca de 380 famílias de 17 etnias diferentes, como Kokama, Apurinã, Mura, Kambeba, Baré, Munduruku, Desano e Saterê Mawé.

Onça Preta estava presente entre os manifestantes, que tentaram ocupar a sede do governo amazonense, mas acabaram sendo reprimidos pela polícia militar. “Por que temos que ser tratado na porrada, como fomos tratados na portaria. Os caras usaram cassetete e spray de pimenta para nos ameaçar. Nós somos indígenas, eleitores, temos crianças aqui”, se indignou o Mura, após as agressões.