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No último sábado (3), o governador do (PSC) protagonizou mais uma cena bizarra. Em vídeo postado nas redes sociais, o político de extrema direita aparece em uma operação da Coordenação de Recursos Especiais (CORE) da Polícia Civil, na região de , embarcando em um helicóptero repleto de armas, ao lado do prefeito da cidade, Fernando Jordão (MDB), do secretário estadual de Polícia Civil, Marcus Vinícius de Almeida Braga, e do subsecretário Operacional da Polícia Civil, Fábio Barucke. Relatos de moradores denunciam que houve disparos da aeronave contra casas e até mesmo uma tenda de oração.

“Estamos começando hoje aqui em Angra dos Reis, a pedido do prefeito Fernando Jordão,  uma operação. Começando com a Core, a  Polícia Militar e a Polícia Civil para acabar de vez com essa bandidagem que  está aterrorizando a nossa Cidade Maravilhosa e de Angra dos Reis. Estamos de helicóptero e vamos começar hoje. Acabou a bagunça”, bravateou Witzel na peça de propaganda, divulgada no seu Twitter.

Foto: Reprodução

Em seguida, as imagens mostram um atirador ao lado do governador disparando uma rajada de fuzil contra uma tenda no alto de um morro do bairro Campo Belo. No entanto, o que eles pensavam ser um ponto de observação do narcotráfico, na verdade, era uma barraca construída por evangélicos para retiros espirituais.

“Essa barraca que policiais atiraram é de um irmão em Cristo que fica ali no monte do campo Belo onde todos os cristãos da região usam como lugar de oração. Meu Deus esse prefeito sem noção” publicou em seu perfil de Facebook o religioso Shirton Leone, diácono da Assembléia de Deus.

Shirton naquele dia decidiu fazer a caminhada para orar e refletir em outro monte. Por obra do acaso, ou do “livramento de Deus” como o próprio afirma, levou consigo a missionária Rosângela. Ela costuma fazer o trajeto no Monte do Campo Belo todos os sábados. Em um dia típico, os disparos que não parecem ter tido qualquer propósito poderiam ter causado a morte de um inocente.

“Sempre há alguém ajoelhado atrás da lona, de joelhos, rezando. Faz parte da nossa peregrinação. O prefeito sabe disso, é católico” comentou Leone.

Ele explica ser comum, nos finais de semana, haver um fluxo constante de cerca de 30 pessoas que sobem a encosta para rezar. Alguns chegam a acampar no local com esse propósito.

“Se tivesse um grande número, como sempre está, tinha morrido alguém”, confirma Rodrigo Bernardes, morador do Campo Belo.

Na lona de pouco mais de 1 metrô de extensão, as marcas de bala são fáceis de identificar. A perfuração chegou a queimar o tecido em alguns pontos devido a velocidade que os disparos atingem o solo. As cápsulas, porém, já haviam sido recolhidas. O lugar de peregrinação e constante acampamento de religiosos hoje é sinônimo de medo.

“Como vamos fazer nossa campanha de oração ali? Não temos mais segurança!” lamentou um fiel, que não quis se identificar.

A pretexto de participar da “operação”, Witzel se hospedou com a família durante todo o fim de semana no hotel Fasano, cuja diária mais barata custa, por pessoa, na faixa de R$ 1.600. Witzel se recusou a responder se ele está pagando do próprio bolso ou se aceitou o convite de alguém para se hospedar no hotel.

Procurada pela imprensa, a assessoria do governo do estado limitou-se a dizer que não é o governo do Estado que está pagando. Mas não quis dizer o nome de quem pagou.

Moradores fecham rodovia BR-101 em

Apenas um dia após o factoide promovido pelas autoridades, Angra voltou a ser palco de tiroteios. Na noite de domingo (5), a BR-101, a Rodovia Rio-Santos, foi interditada por causa de uma intensa troca de tiros na de Sapinhatuba I, próxima ao trevo. Pouco depois, um grupo de moradores também fechou a principal via de entrada e saída da cidade, no bairro Balneário.

Na manhã de segunda (6), pelo menos dois apartamentos de um prédio na Praia da Chácara, no bairro Marinas, foram atingidos por balas.

Na mesma data, policiais da CORE voltaram a usar helicópteros como base de tiro, em uma operação que deixou oito mortos no Complexo da Maré, na zona norte da cidade do Rio.

Witzel, sobrevoa Angra dos Reis em ação policial com participação de snipers / Foto: Reprodução

De acordo com a página Maré Vive, os ataques se concentraram nas favelas Palace (Conjunto Esperança), Salsa e Merengue e Vila do João. Moradores denunciam que o helicóptero da guarnição atirou do alto no horário em que as crianças saíam da escola. Dentro dos colégios, os alunos tiveram que se jogar ao chão para se proteger dos disparos.

Alunos do projeto Orquestra da Maré tiveram que ter aulas no corredor para se proteger do tiroteio do lado de fora da Escola Municipal Medalhista Olímpico Lucas Saatkamp, na Salsa e Merengue, favelas do Conjunto de Favelas da Maré.

“Levamos para o corredor e começamos a tocar para distrair as crianças e deixar o clima menos tenso. Fizemos a aula lá” conta Carlos Prazeres, diretor do projeto.

“A polícia entrou atirando. Era muito tiro. Muito tiro em cima das crianças. A gente estava no pátio” relatou uma professora, chorando.

Número de mortos pela polícia bate recorde histórico

O Rio de Janeiro apresenta crescimento da letalidade policial desde que Witzel tomou posse como governador do estado em 1º de janeiro de 2019. No primeiro trimestre deste ano, já foram registrados 434 homicídios decorrentes de intervenção policial, uma média de quatro por dia.

Segundo um levantamento com base em dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), o número de mortos classificados como “em confronto” nos primeiros 90 dias de 2019 é o mais alto entre os registrados nos 85 trimestres desde 1998, quando começou a contabilizar o tipo de estatística no estado.

Cinco dos oito trimestres com mais casos desde o início da série histórica são justamente os cinco mais recentes: os quatro de 2018 e o primeiro de 2019. Em comparação com os primeiros três meses do ano passado, o mesmo período deste ano apresentou um aumento de 18% nas mortes. Antes de 2018, ano da intervenção militar na segurança pública, o estado nunca havia ultrapassado a marca de 400 mortes pelas mãos de policiais em três meses.

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