Guerrilheiras da curda (Unidades de Defesa das Mulheres) / Foto: Reprodução

No último dia 19 de dezembro de 2018, os anunciaram a retirada de suas tropas da , além de fechar um acordo com a , do ditador Recep Erdoğan, para a venda de 3.500 milhões de dólares em armamentos. Esse fato tem gerado grande preocupação para o povo curdo, grupo étnico historicamente perseguido pelo Estado turco. Eles temem que se repita no cantão de Rojava um massacre das proporções do ocorrido em Afrin no início do ano passado. Na ocasião, as forças de Erdoğan assassinaram mais de 500 civis , matando também mais de 820 guerrilheiros que lutavam pela causa da libertação da etnia.

Um dos povos mais impactados pela civil na Síria, os curdos têm ganhado a atenção internacional não apenas por seu martírio, mas também por sua resistência. Suas organizações populares e milícias de  (YPJ, YPG e outras, como as brigadas internacionais) consolidaram uma verdadeira revolução social no norte do país.  Enfrentando a brutalidade dos fundamentalistas do Estado Islâmico ao mesmo tempo que os governos de Síria, Turquia, Rússia entre outros, optaram por organizar sua vida e seu trabalho coletivamente, criando instituições que garantem uma democracia federalista e socialista, baseada na autogestão, na ecologia e nos direitos das mulheres.

Curdos em manifestação no norte da Síria/Foto: Yasin Akgul

Sua inspiração principal é o Confederalismo Democrático, doutrina elaborada pelo revolucionário Abdullah Öcalan, fundador do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Líder do movimento de libertação curda na Turquia, Öcalan está preso desde 1999. Capturado no Quênia durante uma operação conjunta dos serviços secretos turco e estadunidense, ele chegou a ser  condenado à morte, mas acabou tendo sua pena comutada em prisão perpétua em 2002. Desde elntão, é mantido em regime de isolamento, sendo o único prisioneiro da ilha-prisão de Ímrali.

Em artigo recentemente divulgado pelo portal Kudistán América Latina a militante curda Hawzhin Azeez re-afirma a disposição a resistir de seu povo, mesmo diante do atual cenário ameaçador.

“A evacuação dos EUA é uma luz verde para a Turquia invadir e tomar parte na limpeza étnica dos curdos e de todos aqueles que partilham com eles a terra no norte da Síria. Todos aqueles que acreditam na humanidade devem gritar sobre um inevitável desastre para os direitos humanos que está no horizonte. Mas a luta é muito maior. Significa simplesmente que devemos estar mais comprometidos, ativos, firmes e inabaláveis em nossa resistência coletiva contra o fascismo. Mas, acima de tudo, significa que devemos acreditar em nós mesmos e em nosso povo” avalia a ativista.

Confira o texto na íntegra:

É hora de reafirmar o compromisso com Rojava em vez de chafurdar no desespero

O anúncio da retirada dos Estados Unidos de Rojava (Curdistão Ocidental) deixou em choque as comunidades curdas. Há perplexidade e genuína confusão. À luz das ameaças por parte de Erdogan de uma iminente invasão turca ao Curdistão sírio, existem preocupações sérias e genuínas sobre a aproximação de uma limpeza étnica, como vimos claramente este ano
[2018], quando a Turquia ocupou Afrin.

No entanto, existem pontos importantes a serem destacados.

Para começar, os Estados Unidos nunca foram aliados da Revolução de Rojava. Eles repetidamente declararam sua “aliança temporária” com os curdos.

A enorme reação emocional à dita retirada dos Estados Unidos de Rojava, algo que todos nós sabíamos ser inevitável, deveria ser uma fonte de preocupação para todos os curdos. Devemos nos perguntar em que ponto vamos descolonizar nossas mentes. A ideologia do Confederalismo Democrático, as milhares de pessoas que deram suas vidas com alegria e amor, e um líder (Abdullah Öcalan) que está em uma prisão turca há 19 anos não nos ensinaram nada?

O líder curdo Abdullah Öcalan continua perseverando nas condições mais severas, vivendo e encarnando nossa máxima de “Berxwedan Jiyane” (Resistência é vida). Estes são os símbolos que devem nos tranquilizar e, no entanto, eles determinam um senso de compromisso contínuo com tudo o que Rojava encarna, independentemente do que envolve a crise atual.

Ainda que tenhamos temores legítimos de que a Turquia invada e participe em uma limpeza étnica como fez em Afrin, nunca devemos nos esquecer de algo extremamente importante: estamos participando de uma revolução e ninguém iria nos entregar essa dura luta pela liberdade. Esta sempre será uma luta existencial entre os curdos e o fascismo, entre a opressão e a liberdade, a colonização e a emancipação, a invasão e a libertação.

Quem nos ensinou que este era um caminho suave? Não aprendemos algo da história passada da traição? Esquecemos que não importa o que aconteça, as montanhas que abrigam o Curdistão sempre voltam a nos chamar para o seu abraço protetor? Que os combatentes da liberdade sentam-se nos cumes e olham por nós, comprometidos com nossa inevitável libertação? Em que ponto cedemos nosso poder aos neocolonialistas e imperialistas?

Milhares de pessoas morreram para defender a ideologia da democracia radical. Conheço pessoalmente as famílias que deram mais de 17 mártires de suas famílias imediatas para esta libertação! Essas são as pessoas que lutam por nós. Os habitantes de Rojava viveram esta revolução e sabem melhor do que nós o que esta luta envolve.

Há uma razão pela qual dizemos “nossos mártires iluminam o caminho”. Nós já não dizemos “liberdade ou morte”. Öcalan nos ensinou que a escolha sempre foi “liberdade ou liberdade”, e essa liberdade requer um compromisso feroz, inquebrantável, ideológico e amoroso com a libertação coletiva. Isso nunca seria uma luta fácil. Isso nunca seria entregue a nós. Os Estados Unidos nunca se comprometeram com a nossa ideologia. Eles vivem e encarnam a antítese mais completa do que Rojava e seus mártires representam.

O segundo maior exército dentro da OTAN e a décima maior potência militar do mundo (Turquia), sob a ditadura de Erdogan, sempre se voltariam contra nós. Mas isso não significa que a luta acabou. Sim, Rojava precisa de solidariedade urgente. Precisa da voz internacional de feministas proeminentes, defensores dos direitos humanos, ecologistas e muitos outros para mostrar solidariedade a ela. A evacuação dos EUA é uma luz verde para a Turquia invadir e tomar parte na limpeza étnica dos curdos e de todos aqueles que partilham com eles a terra no norte da Síria. Todos aqueles que acreditam na humanidade devem gritar sobre um inevitável desastre para os direitos humanos que está no horizonte. Mas a luta é muito maior. Significa simplesmente que devemos estar mais comprometidos, ativos, firmes e inabaláveis em nossa resistência coletiva contra o fascismo. Mas, acima de tudo, significa que devemos acreditar em nós mesmos e em nosso povo.

Sim, a retirada dos Estados Unidos é um momento desalentador, mas inevitável. Um momento repetido em nossa história como um povo despossuído e oprimido. No entanto, ainda estamos aqui, apesar de todos os genocídios e massacres cometidos pelos ocupantes. Nós perseveramos e prosperamos. Nós temos os guerrilheiros e os combatentes da liberdade. Nós temos as montanhas, os nossos mártires e os nossos jovens, que ainda estão lutando nas linhas de frente.

Somente quando o último guerrilheiro for morto, somente quando não houver mais o YPG / YPJ na frente de batalha, somente quando as montanhas não existirem mais, somente quando a resistência solitária de Öcalan não iluminar mais nosso caminho, será o dia em que devemos dizer “os curdos não existem mais”.

Até lá, nossa resistência deve continuar até o último curdo amante da liberdade dar o seu último suspiro.

A liberdade e a luta pela liberdade não podem morrer jamais!

Se queremos liberdade é preciso tomá-la! Não podemos apelar à consciência dos imperialistas, dos colonialistas, dos opressores e dos criadores da nossa condição despossuída e marginalizada. Nossos mártires não morreram por esta ideologia, morreram lutando contra ela.

Fonte: Hawzhin Azeez / The Region / Tradução: Midia1508

Texto original: https://theregion.org/article/13299-it-is-time-to-reaffirm-commitment-to-rojava-rather-than-wallow-despair