Foto: Fórum de Comunidades Tradicionais Angra/Paraty/Ubatuba

Na manhã da última segunda-feira (10/12), a BR-101 (Rodovia Rio-Santos) ficou fechada nos dois sentidos, na altura de Paraty, na Costa Verde do Rio. Moradores do Quilombo do Campinho realizaram uma manifestação contra o aumento no preço das passagens de ônibus da empresa Colitur, que faz o transporte da área até o centro da cidade. O valor da tarifa passou de R$ 4,25 para R$ 5 no domingo (9).

Apoiados por ativistas e outros moradores da região de Paraty e Ubatuba,  os quilombolas bloquearam a pista com barricadas feitas com galhos de árvore incendiados. O só foi dissipado por volta de 12h30, após forte da Polícia Rodoviária Federal, que fez uso de armas de choque, gás de pimenta e até mesmo de munição letal.

Um vídeo, postado em redes sociais, mostra um dos agentes da corporação atacando um jovem com uma pistola taser.

Neste outro registro, um grupo de mulheres se após ter sido agredidas com spray de pimenta pelos policiais.

Não é de hoje que a Colitur provoca a ira da população local. Apadrinhada por sucessivos prefeitos e governadores, a viação monopoliza o transporte coletivo em Paraty há mais de 30 anos. Em 2015, a empresa foi alvo de protestos, após um acidente com um de seus ônibus matar 15 pessoas e deixar outras 63 feridas. O laudo pericial concluiu que a tragédia foi causada por uma falha mecânica.

Foto: Reprodução

Em 99, um outro desastre envolvendo a concessionária já havia feito outras 4 vítimas fatais. O caso está entre os mais de 80 processos judiciais acumulados pela Colitur. Há também ações por batidas, atropelamentos, irregularidades em licitações e desrespeito à gratuidade para estudantes da rede pública. Ao todo, as condenações passam de R$ 1 milhão.

Funcionários e passageiros sofrem com as más condições de conservação dos ônibus, quentes pela falta de ar-condicionado e constantemente lotados. No acidente de 2015, o veículo transportava mais de 80 pessoas, apesar de seus documentos indicarem capacidade para apenas 45.

A dona de casa Mirian dos Santos Silva é uma das vítimas do acidente. Ela sofreu traumatismo craniano, fraturas na face e nas pernas, perfuração do pulmão e teve 12 costelas quebradas. Mirian ainda não se recuperou do ferimentos e agora está com dificuldades para terminar o tratamento.

“Eles prometeram que iam me ajudar no médico, e todo mês iam botar uma salário na minha conta, pra mim ter esse dinheiro todo mês, como eu não estava podendo trabalhar. Até agora nada…”, denuncia.

No início de 2017, a companhia foi novamente repudiada, ao aumentar da tarifa de várias das suas linhas. A medida acabou sendo revogada, após uma série de bloqueios de estradas em diferentes bairros do município. No último deles, em 17 de janeiro daquele ano, os moradores já estavam tão furiosos com a intransigência da empresa que chegaram a atear fogo em dois ônibus.

Foto: Reprodução

A Colitur tem usado o suposto “desfalque” na frota causado pelo incidente como desculpa para justificar os frequentes atrasos, que sempre existiram, mais têm se tornado cada vez maiores. Segundo os usuários, no entanto, a viação está deslocando vários ônibus de sua garagem em Paraty para as de outras cidades, com o objetivo de punir e culpar os protestos. Alguns veículos também têm sido mantidos sem circular mais tempo do que o necessário, com o mesmo objetivo. A perseguição da Colitur a movimentos que questionam a má qualidade do seu serviço não se restringe a Paraty. Em Lídice, distrito do município fluminense de Rio Claro, onde a viação também opera, a empresa abriu um processo contra 5 moradores e o “Movimento Basta Colitur”.

Foto: Centro de Mídia Independente

A alegação é de que se trataria dos supostos “líderes” dos atos contra o aumento da tarifa, uma mobilização que começou de forma inteiramente espontânea e horizontal.

A criminalização, no entanto, não tem surtido o efeito esperado. As manifestações continuam. Segundo uma moradora, “essa é a hora da população dizer basta de uma vez por todas! FORA COLITUR!”