No dia 9 de julho, na Cidade do México, capital mexicana, um protesto e homenagem à guerrilheira trans Lupilla Xiu ocorreu no “Tranny Fest”, festival anual de arte e resistência que foi realizado durante a ocupação de coletivos de pessoas trans em frente à Secretaria do Interior (SEGOB).
Lupilla Xiu (Guadalupe Xiu) foi uma ativista, mulher trans e indígena de Oaxaca. Ela sofreu deslocamento forçado durante a infância e sobreviveu à experiência de viver em situação de rua. Relatou ter sido vítima de tortura, prisão injusta e perseguição política. Ao longo de vários anos, passou períodos acampada em protesto diante da Secretaria de Governo (SEGOB), exigindo reparação e justiça.
Lupilla foi presa política em duas ocasiões devido à sua participação na tomada das ruas de Oaxaca impulsionada pela Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) em 2006 e por se juntar às fileiras do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) como guerrilheira. Sua morte premeditada é resultado da transfobia, ocorrido na ocupação que manteve em frente à SEGOB em diferentes épocas entre 2018 e 2023.
A SEGOB é a principal secretaria de estado do governo mexicano, equivalente ao Ministério do Interior. Ela é responsável por gerenciar a política interna do país, a segurança nacional e coordenar as relações entre o Poder Executivo Federal, os estados e os municípios.
Ocupação Trans na SEGOB exige justiça histórica
Após 20 dias em frente à Secretaria do Interior, coletivos de pessoas trans e profissionais do sexo levaram às autoridades uma agenda adiada por décadas, que inclui uma Lei Integral, políticas públicas e o reconhecimento de direitos.
Em frente às portas da SEGOB, a exigência pelo reconhecimento de direitos históricos para as pessoas trans e trabalhadoras do sexo se manteve firme e visível na Avenida Bucareli, onde fica o Palacio de Cobián, sede da Secretaria.
Conforme planejado, os membros do stt se reunirão nesta quinta-feira com o subsecretário de Direitos Humanos, Arturo Medina, e o secretário de governo da Cidade do México, César Cravioto, para colocar sobre a mesa uma agenda adiada por décadas. O encontro não é uma concessão, mas uma urgência, garantiram Sandra Montiel, fundadora do coletivo Esquina Libre, e Natalia Lane, da Coalizão Laboral Puteril (CLAP).
A ocupação começou como uma resposta à operação em que agentes da Guarda Nacional retiraram pessoas trans da SEGOB na noite de 23 de junho. As manifestantes exigiram uma reunião com o chefe da agência e abordar as demandas que levantaram a diferentes autoridades sem receber uma solução. Os grupos garantem que não sairão até que tenham respostas.
Embora o trabalho sexual não constitua um crime ou falta administrativa na Cidade do México e as pessoas trans façam parte dos grupos de atenção prioritária contemplados na Constituição da Cidade do México, as ativistas denunciam que as políticas públicas focadas nessas populações são, na melhor das hipóteses, insuficientes, e na pior das hipóteses – que é a maioria – inexistentes.

Uma luta pela “Cidadania Plena”
“Já é hora de começarem a nos levar a sério como cidadãos trans. Não somos uma comunidade, somos cidadãs”, diz Sandra Montiel, que exerce o trabalho sexual na área de Tlalpan há 30 anos. Durante esse tempo, ela testemunhou e foi vítima de violência sistemática: é sobrevivente de um ataque com ácido e viveu em primeira mão a discriminação institucional para acessar a justiça.
Ela conta que diante da falta de oportunidades educacionais ou de trabalho para pessoas trans, bem como de apoios governamentais focados nessa população, teve que retornar ao trabalho sexual. “Para poder fazer todas as cirurgias reconstrutivas que precisei, tratamentos dermatológicos, células-tronco… Imagine! Depois que fui atacada quando estava trabalhando”, lembra Sandra, de 48 anos.
Na idade que tem, sua preocupação é ter a garantia de que terá como se sustentar quando decidir se aposentar do trabalho sexual. Outras mulheres trans, com mais de 60 anos, não têm escolha a não ser continuar trabalhando, pois a pensão para idosos que recebem do governo federal não é suficiente para pagar aluguel, alimentação e medicamentos.
Natalia Lane, que sobreviveu a uma tentativa de transfeminicídio por um homem que contratou seus serviços, afirma que maiores medidas de segurança também devem ser implementadas em hotéis para evitar situações de violência, pois na Cidade do México as pessoas que se dedicam a fornecer esses serviços são vulneráveis a diferentes tipos de agressões.
“Nada de prostitutas sem prostitutas”, diz ela sobre as decisões que o governo tomou sem consultá-las, como a construção da ciclovia e da estrada elevada pela Copa do Mundo de 2026. A partir da reunião para a qual foram convocadas, Natalia espera que os canais de comunicação sejam abertos para serem consideradas “em qualquer tomada de decisão de políticas públicas que haja sobre nosso trabalho”.

A CNDH e a urgência de uma Lei Integral Trans
Victoria Samano, diretora de Lleca, um abrigo para pessoas LGBT+ e profissionais do sexo, explica que se trata de uma resposta ao não cumprimento da Recomendação 141/2023 da Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), que aponta as graves omissões institucionais na proteção de pessoas trans no México. A exigência de uma Lei Integral Trans não é apenas um capricho administrativo, mas a ferramenta necessária para articular uma política transversal que inclua moradia, acesso à saúde especializada e a desarticulação da violência institucional, garante.
Para outras trabalhadoras do sexo trans, como Montserrat Fuentes, Tatiana Montero e Abril Acosta, a indignação também surge pela entrega de apoio financeiro a algumas pessoas que oferecem serviços na área de Tlalpan, afetada pelas obras da Copa do Mundo de 2026. “Eles nos tratam como estúpidas”, elas apontam ao denunciar como a ajuda foi canalizada por meio de associações, ignorando aqueles que atuam de forma independente e foram as mais afetadas.
“Perdemos 80% de nossa receita nas estradas. Agora os clientes ou os carros não podem parar na avenida porque já estão apitando”, diz Montserrat. Há dias em que eles saem para trabalhar “e saímos sem ter ganhado nada”. Também não acessaram o apoio financeiro que algumas trabalhadoras receberam. Montserrat, Tatiana e Abril são membros da Brigada Callejera, uma associação civil que fornece serviços de saúde e despesas, o que as ajudou a lidar com a falta de renda.
“Fomos convocadas com a Brigada de Rua no Zócalo porque nos disseram que iam dar um apoio monetário, mas nos deram uma despensa que parecia uma zombaria. Como você acha que o governo nos dará para sobreviver alguns dias, quando eles nos afetaram por meses?”, reclama Montserrat. Sobre a Copa do Mundo, ele garante que a promessa de derramamento econômico foi “totalmente mentira, porque os estrangeiros não vão a Tlalpan, Sullivan ou La Merced para contratar serviços. Não estou dizendo que não os procurem, mas os conseguem em outro lugar, mesmo por catálogo”.

O caminho a seguir
A reunião do dia 9 de julho representa um ponto de inflexão. O governo da Cidade do México e o SEGOB têm diante deles um coletivo que não está mais disposto a aceitar a invisibilidade.
A ocupação também se tornou um ponto de encontro para lutas individuais contra a discriminação, como a de Razzia Santillán, fundadora do Clan Mariposas Negras. Razzia — que mantém uma banca de protesto na Cineteca Nacional desde 2023, após ter sido retirada de um banheiro feminino — teme que as acusações legais que enfrenta por suas ações sejam usadas como forma de retaliação. Ela espera apresentar seu caso na reunião e que esse canal de diálogo abra caminho para negociações com o centro cultural.
Enquanto isso, o acampamento em Bucareli permanece como um espaço de resistência política. Como resume Natalia Lane: “a Copa do Mundo vai embora, mas as putas e as pessoas trans ficam”. As mulheres que participam do protesto sustentam que sua pauta permanece não atendida: o cumprimento das recomendações da CNDH e o reconhecimento de direitos que, segundo afirmam, a cidade lhes nega há décadas.
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Fontes:
– PLANTÓN TRANS EN LA SEGOB: EXIGEN LEY INTEGRAL Y JUSTICIA HISTÓRICA
– Justicia Histórica Trans
– Clan Mariposas Negras
