Conflitos contra a polícia marcaram a noite de segunda-feira (25) no bairro de Prélaz, em Lausanne, na Suíça, onde um adolescente morreu no domingo enquanto fugia de uma abordagem da polícia em uma scooter.
Marvin M, um jovem negro de 17 anos e morador de Lausanne, dirigia uma scooter e foi perseguido pela polícia ao fugir de uma abordagem. O jovem bateu e morreu por volta das 3h45 da manhã de domingo (24), apesar das tentativas de ressuscitação dos serviços de emergência.
Este é o segundo caso fatal resultado de abordagem policial em menos de dois meses na cidade de Lausanne. Na noite de 30 de junho para 1º de julho, uma adolescente de 14 anos perdeu a vida em Plaines-du-Loup após cair de sua scooter durante abordagem da polícia. Sua morte provocou forte comoção e levou a várias homenagens na cidade.
Os confrontos iniciais ocorreram na noite de domingo (24), após a morte de Marvin. Os protestos se intensificaram na noite de segunda-feira (25). Revoltados com as duas mortes causadas pela polícia, manifestantes receberam os policiais com pedras, barricadas, morteiros e coquetéis molotov. Latas de lixo e contêineres foram incendiados. Os jovens, alguns usando balaclavas, entraram em confronto com a polícia. Sete pessoas foram presas.
A polícia respondeu com gás lacrimogêneo e canhões de água.
Segundo a imprensa local, os jovens envolvidos nos confrontos disseram que protestavam contra as recentes mortes de dois adolescentes em veículos motorizados perseguidos pela polícia em Lausanne. Nem todos os manifestantes eram moradores da cidade. Alguns vieram de Genebra, uma das cidades mais populosas do país, para apoiar os manifestantes.
Bombeiros foram mobilizados sob proteção policial em vários locais para conter cerca de dez incêndios.

“Assim que nos tornamos violentos, recebemos respostas”
Entrevistado pela RTS (Rádio televisão Suíça) na noite de segunda-feira (25), durante os confrontos dos quais participou, um jovem explicou, sob condição de anonimato, que queria “enviar uma mensagem às autoridades”. “Queremos mostrar ao mundo inteiro o que aconteceu. As pessoas precisam saber a verdade.”
Ele acusa a polícia de inicialmente mentir e omitir informações sobre a morte do condutor da scooter. “A polícia continua mudando a história. Houve uma série de mentiras […] Mas assim que nos tornamos violentos, eles finalmente se manifestaram e finalmente obtivemos respostas para nossas perguntas”, diz ele.
O jovem relatou um sentimento geral de tristeza e ódio pelas mortes de dois adolescentes no espaço de algumas semanas por intervenções policiais.
Ele expressa uma desconfiança marcante em relação à polícia, na qual “não acredita nem um pouco”, citando como exemplo as mensagens e fotos discriminatórias — incluindo racistas, antissemitas e sexistas — reveladas pela Prefeitura de Lausanne, compartilhadas entre policiais e ex-policiais em grupos de WhatsApp. “São essas as autoridades em quem devemos confiar?”, questiona.
“A morte foi a faísca, mas cristaliza um sentimento mais amplo. Em Prélaz, um bairro misto e de classe trabalhadora marcado pela migração, o estigma é forte desde as décadas de 1970 e 1990, e uma parcela da população se sente negligenciada. […] Eles vivenciam a discriminação como uma realidade cotidiana […] O acúmulo de microagressões ao longo de todos esses anos alimenta uma raiva pronta para ser expressa. Sua raiva reflete sofrimento e reflete um sentimento duradouro de injustiça e abandono, alimentado pela falta de espaços de reconhecimento”, disse em entrevista Sandro Cattacin, professor de sociologia na Universidade de Genebra.

Racismo na estrutura policial
A descoberta de mensagens discriminatórias em grupos do WhatsApp que reúnem cerca de cinquenta policiais, revelando o racismo dentro da polícia de Lausanne, provocou reações na população e em parlamentares da região.
Para os partidos de direita, não existe racismo estrutural. O Partido Liberal Radical da Suíça (PLR) de Lausanne, falar em racismo sistêmico ou estrutural é ir longe demais. “Quatro indivíduos problemáticos foram identificados: eles estão sujeitos a sanções administrativas e processos criminais que podem ou não resultar em condenação. Quanto aos demais, é essencial lembrar que os policiais estão comprometidos todos os dias com os interesses de todos”, enfatizou sua presidente, Mathilde Maillard, em entrevista ao jornal local.
“As imagens veiculadas são chocantes, assustadoras e, às vezes, terrivelmente estúpidas. Elas não dão crédito algum à polícia. Mas, chegar ao ponto de falar em racismo sistêmico, não tenho certeza se é representativo de toda a força policial”, disse o deputado do partido conservador União Democrática do Centro (UDC), Valentin Christe, também em entrevista ao jornal local.
À esquerda, o tom é diferente. “Estamos agora pedindo uma auditoria completa da polícia de Lausanne”, insistiu Sarah Neumann, presidente do Partido Socialista de Lausanne. “Uma reforma completa provavelmente também envolverá uma revisão do treinamento policial, desde o treinamento inicial até o desenvolvimento da educação continuada.”
É importante destacar que a extrema direita avançou na Suíça durante as eleições legislativas de 2023.






