‘Já estavam presos, mataram eles porque quiseram’, diz testemunha de chacina da PM na Chapada dos Veadeiros

Os mortos na ação policial foram Salviano Souza Conceição, de 63 anos, Ozanir Batista da Silva, de 46, Antônio da Cunha dos Santos, de 35, e Alan Pereira Soares, de 27 anos.

Familiares e moradores protestam contra a chacina e por justiça — Foto: @viladesaojorgechapadaveadeiros

Na última quinta-feira (20), quatro homens foram executados por policiais militares em Colinas do Sul (GO), na Chapada dos Veadeiros. Segundo o registro feito pelos próprios militares, foram disparados cerca de 58 tiros.

Desde semana passada, moradores da Vila de São Jorge têm realizado protestos nas ruas contra o que eles definiram como uma chacina contra membros antigos da comunidade e que, ainda segundo eles, eram inocentes. A Militar de afastou, na segunda-feira (24), os seis policiais militares envolvidos na ação.

A operação, na versão dos policiais, teria acontecido para coibir o plantio ilegal de maconha no local, uma chácara. Nessa versão, após chegarem na propriedade, os policiais teriam sido recebidos a tiros por sete pessoas que estavam no local e, por isso, reagiram. Quatro morreram e três conseguiram fugir. Ao todo, foram 58 disparos, sendo 40 de fuzil e 18 de pistola, segundo o boletim de ocorrência. Essa versão, no entanto, tem sido amplamente contestada pela população local. Nenhum policial ficou ferido, não há tiros na viatura e nem evidências ou marcas de bala além dos que foram realizados pelos próprios agentes.

Em um áudio enviado pela companheira grávida de uma das vítimas a um parente, e que acabou circulando pela comunidade, ela, que deverá prestar depoimento como testemunha, afirma que viu o momento em que os quatro homens se renderam e deitaram no chão. Ela nega que tenha havido qualquer tipo de confronto, assim como rechaça a possibilidade de que eles estivessem armados.

“(…) Eles chegaram lá no Jacaré (localidade) e falaram para os meninos: “Deita”, e os meninos deitaram. Eles falaram que os meninos correram para o mato, mas os meninos não correram. Em momento algum os meninos reagiram, até porque nem arma eles tinham“, diz a mulher na gravação. “As armas todas você sabe (se referindo ao interlocutor) que foram plantadas, não tinha uma arma lá que eles pudessem usar para se defender, e eles falaram que os meninos reagiram. Já estavam com os meninos presos, já, e mataram eles porque eles quiseram, não foi porque os meninos reagiram, não, em momento algum eles reagiram“.

Áudio da testemunha

Os moradores assassinados na ação policial foram Salviano Souza Conceição, de 63 anos, Ozanir Batista da Silva, de 46, Antônio da Cunha dos Santos, de 35, e Alan Pereira Soares, de 27 anos. Uma manifestação na Vila de São Jorge, no domingo (23), reuniu centenas de pessoas no vilarejo. Com gritos, cartazes e lágrimas, todos pediam por justiça e reforçavam a inocência dos quatro locais. E afirmam que não havia mandado de busca nem investigação prévia sobre a denúncia dos PMs. 

Ainda segundo a manifestação dos moradores, citando dados da recente edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2021), publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a polícia goiana é a segunda mais letal do país e responsável por 29% das mortes violentas intencionais.

A População da Vila de São Jorge, Chapada dos Veadeiros, exige que seja feita Justiça no caso da #chacinanachapada bem como o Governador do Estado de Ronaldo Caiado (DEM) venha a público se retratar com a população, familiares e amigos das 4 vítimas, por ter elogiado a essa ação de execução de 4 moradores inocentes, pela Polícia Militar do Estado de Goiás sem ao menos aguardar as investigações.

Revoltante e inadmissível a chacina que aconteceu na Chapada dos Veadeiros, pessoas que eu conheço e convivo aqui na Vila de São Jorge, foram executadas pela polícia, numa ação cruel, injusta, brutal e desproporcional. O que aconteceu foi uma execução a sangue frio, sem direito à defesa ou julgamento. Mataram meu amigo Chico Kalunga, que foi pescar no sítio do meu amigo Nirinho, vulgo Jacaré, que também foi assassinado pela polícia.

Murillo Aleixo Bianchini, morador da região

Murillo conta que a polícia forjou o local onde as mortes aconteceram e duas das vítimas não estavam na chácara onde havia os pés de maconha. De acordo com ele, os homens sequer eram donos das armas que teriam sido plantadas na propriedade. 

Duas das vítimas nem no local estavam, estavam numa terra vizinha, onde cuidavam das plantações deles. Não tinham nada a ver com a história. Além disso, há testemunhas que viram que todos os quatro foram rendidos, não houve confronto. Foi queima de arquivo. Não havia sequer tiro nas paredes. A perícia no local vai desfazer toda a narrativa que eles contaram no boletim de ocorrência.

Murillo Aleixo Bianchini, morador da região

Ele conta que era amigo de três das vítimas e que um trabalhava com ele e era quilombola, Antônio da Cunha dos Santos, conhecido na comunidade como Chico Kalunga. Ele era “uma pessoa daquelas que respiram a própria cultura, originário raiz. Sabia das plantas do Cerrado como ninguém.” Segundo Murillo “a família está desolada porque, além de o crime ter sido bárbaro, uma execução a sangue frio, há a indignação por eles estarem sendo tratados como criminosos.”

Antônio da Cunha dos Santos, quilombola conhecido como Chico Kalunga, executado na ação — Foto: Acervo pessoal

Os moradores escreveram uma Nota Pública que segue abaixo:

NOTA PÚBLICA EM REPÚDIO À CHACINA PROMOVIDA NA CHAPADA DOS VEADEIROS PELO ESTADO DE

A comunidade de São Jorge e da Chapada dos Veadeiros, com apoio de diversas entidades de defesa de e movimentos sociais de Goiás, vem a público denunciar a ação policial do último dia 19 de janeiro, já conhecida como Chacina da Chapada dos Veadeiros, promovida pelo Estado de Goiás, que assassinou quatro pessoas, uma delas quilombola, na zona rural de Cavalcante.

Neste dia, a Polícia Militar de invadiu, sem mandado de prisão ou investigação prévia, uma propriedade localizada na zona rural de Cavalcante onde havia uma plantação de Cannabis e encontravam-se sete pessoas. Quatro delas foram assassinadas pela PM sem direito à defesa e outras três conseguiram fugir com vida.

Os policiais alegam que receberam uma denúncia anônima da existência de “tráfico de drogas” e ao chegarem no local, teriam sido recebidos à bala. Entretanto, nenhum policial ou viatura foram alvejados ou feridos. As vítimas foram mortas por 58 tiros, sendo que 40 disparos foram feitos por fuzis.

Salviano, Chico, e Alan eram conhecidos por todos da comunidade. Muitos possuem histórias pra contar dos momentos vividos juntos. Eram pessoas de boa índole, não eram violentos, não tinham “passagem pela polícia”, não andavam armados. Não eram bandidos. Eram pacíficos. Morreram por causa de uma insana, que condena e mata de forma seletiva uma parte da população que é preta e pobre, em verdadeiros tribunais de rua.

Por que matar primeiro e perguntar depois? Por que não optar por uma investigação inteligente, que permita conhecer o perfil dos suspeitos envolvidos e seus antecedentes? Por que a polícia goiana em um sem número de vezes não cumpre sua missão de prender suspeitos e garantir o direito de defesa de todas as pessoas, observando o uso proporcional da força e o respeito à lei? Por que não respeitam o Estado de Direito, onde impera a lei e o devido processo legal? Por que os órgãos de controle mantidos com recursos públicos pouco agem?

Nos últimos anos, diversas entidades da sociedade civil vêm apresentando inúmeras denúncias de casos emblemáticos de violência policial, abuso de autoridade, abordagens ilegais, formação de grupos de extermínio, tortura e desaparecimentos forçados protagonizados pela polícia militar. Uma situação tão grave que, denunciada nos meios políticos, foi nacionalmente e internacionalmente reconhecida a partir da realização de uma audiência temática da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em Washington, e da federalização de inquéritos que demonstraram a grave violação de e a inércia das instituições estaduais.

Para se ter uma noção da situação atual, segundo o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2021), a polícia goiana é a segunda mais letal do país e é responsável por 30% das mortes anuais totais do estado, índice superior à média nacional, que é de 12%. Outro indicador de letalidade é a proporção de civis mortos para cada policial. Em Goiás, para cada policial morto, morrem 240 civis. É o maior índice dentre os 27 estados brasileiros e um dos maiores do mundo, incluindo dados de conflitos bélicos.

Recente análise de dados oficiais da Justiça nos mostra que só uma em 200 mortes por intervenção policial em vira processo na Justiça, nos deixando estarrecidos pela total inoperância dos sistemas policial e judiciário que falham reiteradas vezes em garantir justiça por meio de uma apuração ágil e transparente dos casos de violência nos quais estão envolvidas as forças de segurança.

E por permanecerem sem solução e na invisibilidade, condenam centenas de famílias a um sofrimento psíquico sem fim, estimulam a impunidade e geram ainda mais violência.

Mas estamos aqui para dizer “Basta”! Não devemos aceitar mais a violência e a impunidade!

Denunciamos que os nossos mais nobres anseios por segurança pública e direito à vida abundante e plena estão sendo sequestrados por um Estado incapaz de controlar a violência e responsabilizar quem descumpre a lei no exercício de sua missão pública. Recusamos a ideia de que nossa segurança depende da quantidade de terror que se espalha pelo mundo.

Exigimos o imediato cumprimento das leis vigentes e uma investigação séria e independente capaz de apurar todas as irregularidades cometidas, assim como fazer justiça à memória das vítimas e à dignidade das famílias.

São Jorge e a Chapada dos Veadeiros, símbolos de resistência e diversidade, não verão a história de seus filhos e filhas serem manchadas pela impunidade e pela violência do Estado.

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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