O erro de se transformar o ‘Fora Bolsonaro’ em campanha eleitoral

Promover campanha eleitoral nos atos 'Fora Bolsonaro' é um equívoco e diminui a adesão popular ao movimento.

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Incontáveis bandeirolas e carros de som louvando o ex-presidente Lula e sua esperada candidatura para 2022, transformaram a mobilização em um verdadeiro comício, no ato de sábado, dia 02/10/2021 — Foto: Rafael Daguerre

Milhares de pessoas foram novamente às ruas em todo o país contra o governo de Jair Bolsonaro, que completou mais de mil dias no cargo. Motivos para se revoltar com o presidente não faltam: carestia, gestão genocida da pandemia, devastação ambiental, entre outros. Ainda assim, vale destacar: a forte rejeição a Bolsonaro (que tem chegado perto de 60%, segundo as últimas pesquisas) não se traduziu em grandes engajamentos nas ruas.

O deste início de outubro, programado por seus organizadores para ser “o maior Fora Bolsonaro” já visto, acabou não correspondendo a essa expectativa, atraindo um número menor de participantes que os realizados nos meses de junho e julho – principalmente nas capitais de Rio e São Paulo. Também passou longe de ser a resposta à altura aos atos golpistas do último 7 de setembro pela qual tantos ansiavam.

Mais até do que nas vezes anteriores, ficou nítido que, apesar da retórica, na prática, os partidos e centrais sindicais envolvidos não estão interessados na pauta do impeachment em si, mas em fazer dela pretexto para a campanha eleitoral antecipada. Com incontáveis bandeirolas e carros de som louvando o ex-presidente Lula e sua esperada candidatura para 2022, transformaram a mobilização em um verdadeiro comício.

Novamente, a aposta parece ser em “derrotar o fascismo nas urnas”, como se este fosse desaparecer da sociedade brasileira e das instituições do Estado com um eventual revés eleitoral de Bolsonaro. Caminho bem diferente do que aquele seguido nos países da América Latina onde as ruas conseguiram efetivamente estremecer a direita no poder. Quem acompanhou os acontecimentos políticos no Chile e na nestes últimos anos saberá ao que estamos nos referindo.

A realidade é que, independente de quem vença o próximo pleito presidencial, os muitos retrocessos que temos vivido no Brasil não serão desfeitos de cima para baixo, por meio de uma simples canetada. Somente por meio de muita pressão, com greves e outras ações que impactem diretamente o Estado e a burguesia, que o proletariado nacional conseguirá reaver tudo aquilo que lhe tem sido espoliado.

Manifestante carrega cartaz durante o ato Fora Bolsonaro de sábado, dia 02/10/2021 — Foto: Rafael Daguerre

Além do PT de Lula, participaram do evento outras 19 legendas partidárias: Cidadania, DEM, MDB, PCB, PC do B, PCO, PDT, PL, Podemos, PSB, PSD, PSDB, PSL, PSOL, PSTU, PT, PV, Rede, e UP. A maioria delas com pouca ou nenhuma base popular e algumas com posicionamentos mais próximos até do próprio bolsonarismo do que de qualquer força política minimamente progressista. Toda essa miscelânea, totalmente desconectada de coerência programática com as lutas populares, apenas reforça a dificuldade da classe trabalhadora, de estudantes e de movimentos estudantis, em enxergar alguma diferença entre as siglas.

Do alto dos seus palanques, parlamentares e pré-candidatos se sucederam em intermináveis falações na Praça da Cinelândia, acabando por afugentar quem não estava ali pra servir de claque para político. Um desacerto até mesmo para aqueles que só pensam em eleição.

Com menos dirigismo, os protestos teriam tudo para atrair mais gente, afinal não são poucos os que, sem partido e, por vezes, até sem militância política, não deixam de ter uma inclinação contrária a Bolsonaro e a tudo o que seu governo representa. Inclusive, muitas dessas pessoas são as mesmas que estiveram presentes nas primeiras manifestações, mas que foram perdendo o ânimo diante do formato burocrático e eleitoreiro que desde o início se buscou imprimir aos atos.

Talvez, o esvaziamento que se viu seja justamente o resultado desejado por parte da brasileira, sempre mais preocupada com voto e conciliação do que em organizar o povo para a luta de classes.

Rafael Daguerre

Fotojornalista/Videorrepórter

Um dos fundadores da Mídia1508. "Ficar de joelhos não é racional. É renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas" ― Carlos Marighella.

Ricardo Pitta

Redator e revisor.

3 Comentários

  1. Perfeito ! Acrescento apenas que os movimentos independentes devem chamar atos de paralisação dia de semana até ficar maduro pra fechar a Av Brasil. Desde que vi um boneco gigante do Lula numa dessas manifestações perdi completamente o desejo de participar, indo apenas a atos puxados por independentes, mas precisamente FIST

  2. acho que as críticas são justas e revelam o óbvio do imobilismo da esquerda (que-a-direita-gosta) tradicional. agora, mais importante é como nós independentes e autônomos vamos se portar? Continuaremos à reboque dos mesmos que criticamos ou vamos tensionar com eles a agenda, que deve ser a agenda revolucionária e anti-fascista? O fato, por exemplo, de que não conseguimos atos próprios talvez desde o ano passado é muito revelador do que nós estamos deixando de fazer.

  3. Erro é você escrever um texto desses atacando Lula. Vocês parecem mais é da direita, mesmo! Falar que não há bases populares, quando houve uma campanha da mídia para acabar com o Lula e a parte que o apoia. Antes tínhamos gasolina, gás, luz, comida, bolsas que muitos usufruíram e hoje cospem no prato que comeram. Falam em conciliação, essa baboseira toda. Então, vamos lá, chega de fazer artigo, articula aí alguma coisa que tenha força, mesmo, e não só tentar sabotar quem tirou o Brasil da fome!

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