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A educação e o paradoxo da esquerda que teme

Embora ir às ruas na pandemia para protestar possa parecer um paradoxo, também aponta para a contradição de grande parte dos professores que acreditam que esse governo genocida cairá porque doutores em educação se reuniram em uma live.

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Foto: Juliane Nunes

No último dia 29 de maio a Avenida Presidente Vargas e outros locais no foram tomados pela população exigindo vacinação para todos e a saída do Presidente. Tal fato traz a para um dilema, talvez um paradoxo. Com a defesa da priorização da vacinação para os profissionais da educação, agora já implementada em quase todo estado do Rio de Janeiro, a mobilização sinaliza para sua dispersão.

A greve pela vida, como foi chamada pelo movimento sindical, acomodou grande parte da categoria em suas casas, protegida do vírus pelo ensino remoto. Enquanto isso, profissionais administrativos, professores sem comorbidade, funcionários da limpeza e da cozinha, se expunham ao vírus. Assim como a comunidade em geral, incluindo estudantes que precisaram pegar o transporte público lotado para trabalhar auxiliando seus familiares nesse momento de crise econômica.

A greve pela vida, além de causar um afastamento abissal dos professores de suas comunidades escolares, possibilitou a consolidação do ensino remoto como alternativa de e abertura para a interferência de empresas privadas na esfera pública. Na rede estadual do Rio de janeiro, ele tem sido realizado em parceria com a Google e a IP.TV, essa questão venho abordando nas minhas publicações anteriores, parceria que até o momento parece que continuará mesmo com o retorno das aulas presenciais.

O Colégio Pedro II, escola de ensino público, debateu com a comunidade escolar diversos problemas do ensino remoto e optou pela adoção da plataforma Moodle para essa modalidade de ensino. Com layout semelhante ao do Google Classroom, o que sanaria a crítica dos estudantes da Faetec que utilizaram a plataforma da CECIERJ e a consideraram confusa, o Moodle é um software livre, o que demonstra um cuidado e preocupação maior do ensino federal com essa implementação do ensino remoto.

A secretaria de do estado, por sua vez, continua implementando uma política autoritária, impondo cada vez mais o uso das plataformas Applique-se e Google Classroom, e contabilizando o controle de frequência dos professores através do registro de acesso nessas plataformas.

Foto: Juliane Nunes

Todavia, esse debate a respeito das plataformas de ensino remoto não deveria ser suficiente para encerrar o debate e a mobilização política da no estado do Rio visto que, completando aniversário de 8 anos de congelamento, o salário do profissional da educação há muito tempo não o possibilita uma vida digna. A greve pela vida é um grande fiasco porque não aborda a questão econômica, conduzindo a categoria para uma “greve” de pauta única, a vacina, e que não paralisa os meios de produção.

A inclusão na lista de prioridade dos profissionais da não é de forma alguma resultado da postura resiliente dos profissionais, que continuaram realizando seu trabalho remoto na plataforma, alimentando esse grande Frankenstein que é o ensino remoto, com suas diversas plataformas.

Junto às pressões dos profissionais grevistas e a recente mobilização nas ruas, essa inclusão foi acarretada pela pressão do embate político, em muitas cidades realizadas entre os sindicatos e o Ministério Público, para a abertura das escolas no período da pandemia. Enfim a categoria da foi vacinada e aqueles que pressionavam para a abertura das escolas serão atendidos.

O encaminhamento das discussões no movimento sindical da a esse respeito, bem como as críticas feitas aos profissionais que foram às ruas exigir vacina para haver a reabertura das escolas, devem perdurar até o início de setembro, quando a categoria terá então tomado sua segunda dose da vacina. Até lá, parte dos professores defende continuar em seu imobilismo subserviente de continuidade do ensino remoto, enquanto outros, em menor número, acredita na importância da mobilização nas ruas, sinalizada no mundo todo pelos movimentos sociais.

Foto: Juliane Nunes

Embora ir às ruas na e correr riscos para exigir vacina possa parecer um paradoxo, também aponta para a contradição de grande parte dos professores que defende a manifestação exclusivamente on-line, temendo o risco de ir às ruas na pandemia, e acreditando que esse governo genocida irá cair porque doutores em se reuniram em uma live.

Trancam-se em suas casas e dialogam apenas com seus próprios coletivos. Um comportamento que lembra a crítica feita pelo Comitê Invisível no livro “Motim e destituição agora”, quando apontam que “Jamais um indivíduo chegará a ser tão possessivo, narcisista, egoísta, invejoso, nem ter tanta má fé e crer tanto em suas próprias bobagens quanto um coletivo.” (p. 177).

Enquanto houver esse discurso de proteção do coletivo corporativista de educadores que exclui toda a população, do incentivo das manifestações virtuais e do silenciamento das ruas, a educação do estado do Rio de Janeiro não contribuirá em nada na real transformação política estadual e nacional.

O importante a concluir é que a culpa não está nos que estão em casa, ou nos que estão nas ruas, ou em última instância no vírus. O problema, a culpa, se queremos tanto achar um culpado, é do governo. E por isso é tão importante continuar a mobilização pelo Fora Bolsonaro.

Carina Blacutt

Carina Blacutt é filósofa e professora da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, mestre em Estética e Filosofia da Arte pela UFRJ, integrante do coletivo Filósofas na Rede, do sindicato SEPE Costa Litorânea e colunista de educação da Mídia1508.

3 Comentários

  1. Apenas duas ressalvas: a greve pela vida defendia o fechamento das escolas e, em relação à acomodação da categoria, vem das ameaças de desconto, perda de lotação e encaminhento para a CRE (municipal) ou Metropolitana (estadual) para escolha de uma nova escola para lotação. Ah, a acomodação dos trabalhadores é bastante generalizada por diversas categorias

  2. A consolidação do “ensino” remoto não se sustentará, haja vista os baixíssimos índices de adesão efetiva dos estudantes, professores, da ineficiência pedagógica deste modelo na conjuntura pandêmica, pela estrutura social a que estão submetidos os trabalhadores e pelas profundas críticas que este modelo tem sucitado.
    Também não cabe a comparação com a realidade do Colégio Pedro II, uma vez que trata-se de um universo docente e discente bem menor, isso sem falar na tradicional articulação política que a referida comunidade escolar possui.

  3. Apenas alguns apontamentos respeitosos. De resto, concordo que a “greve” pela vida foi bastante limitada, principalmente quando não levou em consideração a necessidade de uma luta econômica e política.

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