Após chacina, movimentos sociais protestam em frente à Cidade da Polícia no Rio

Ontem, na operação que se tornou a mais letal da história da cidade, a Polícia Civil executou brutalmente 24 pessoas.

Manifestantes protestam contra chacina no Jacarezinho — Foto: Rafael Daguerre/1508

Na manhã desta sexta-feira (7), moradores da favela do e realizaram uma manifestação em frente à Cidade da Polícia, que fica ao lado da favela, na zona norte do Rio de Janeiro, pedindo justiça pela chacina ocorrida no dia anterior. Em uma operação que se tornou oficialmente a mais letal da história do Rio, a Civil assassinou brutalmente 27 pessoas. Os manifestantes caminharam até a entrada do local do crime e foram seguidos por forte repressão policial. Segundo os moradores, o número de mortos pode ser ainda maior. Eles afirmam que há menores de idade entre as vítimas.

Um dos momentos mais marcantes do ato aconteceu quando a mãe de uma das vítimas se juntou aos participantes. “Eu quero meu filho! Esses desgraçados vieram pra matar! Os meninos ia se entregar! Eles vieram pra matar!” revoltou-se a mulher. Assista aqui.

Um dia após o massacre, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) divulgou uma lista com os nomes de 16 dos mortos. São eles:

Carlos Ivan Avelino da Costa Junior, 32 anos; Cleiton da Silva de Freitas Lima, 27 anos; Francisco Fabio Dias Araújo Chaves, 25 anos; Jhonatan Araújo da Silva, 18 anos; John Jefferson Mendes Rufino da Silva, 30 anos; Jonas do Carmo, 31 anos; Isaac Pinheiro de Oliveira, 22 anos; Márcio Manoel da Silva, 41 anos; Marlon Santana de Araújo, 23 anos; Maurício Ferreira da Silva, 27 anos; Natan Oliveira de Almeida, 21 anos; Rai Barreto de Araujo, 19 anos; Richard Gabriel da Silva Ferreira, 23 anos; Rômulo Oliveira Lucio, 20 anos; Toni da Conceição, 30 anos; Wagner Luis de Magalhães Fagundes, 38 anos.

Na visão de Fransérgio Goulart, da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial da Baixada Fluminense, mais uma vez o governo do Rio de Janeiro descumpriu a liminar do Supremo Tribunal Federal (STF) que proibiu operações policiais desse tipo durante a pandemia, a partir da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) nº 635.

“É a barbárie da barbárie, é a chacina, é o descumprimento dessa cautelar do STF, ou seja, a e o governador do Estado estão pouco se lixando para essa liminar” avaliou o ativista, em declaração ao site Ponte Jornalismo.

Segundo Fransérgio, o Ministério Público do Rio de Janeiro sabia da operação e nada fez para controlar o uso da força da policia.

“Se ele foi avisado pela dessa operação, o que ele fez para fazer o seu papel constitucional de controle das polícias? E tem um agravante nessa operação, o MP foi avisado, a polícia fez a operação e a hegemônica, os jornais, os programas televisivos, mais uma vez fazendo aquele show midiático a partir das dores, dos moradores e das moradoras que moram no e legitimando essa ação policial. Não dá mais”, diz.

Elogiada como um “trabalho de inteligência” pelo governador Cláudio Castro (PL), a sanguinária ação policial foi idealizada pela DPCA (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente), com o apoio da CORE (Coordenadoria de Recursos Especiais). Segundo nota do Ministério Público do Rio de Janeiro, a justificativa teria sido a de proteger “os direitos fundamentais de crianças e adolescentes e demais moradores que residem nessas comunidades”.

Toda essa fantasiosa narrativa oficial cai rapidamente por terra quando se ouve a descrição do cenário encontrado pela Defensoria Pública após a chacina: “Primeiro o choque inicial foi a quantidade de sangue nos becos da favela. Era muita poça de sangue. A segunda casa que nós visitamos era a casa de uma família, um casal e uma criança de 8 anos. Nessa casa um rapaz foi executado no quarto da menina de 8 anos. Essa família viu a execução, inclusive a menina de 8 anos. Tinha uma poça de sangue nesse quarto, a cama dessa criança lotada de sangue, inclusive a coberta que ela usa, estava lá, nessa poça de sangue. Essa menina está completamente traumatizada”, relatou à imprensa a defensora Maria Julia Miranda, integrante do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos.

Moradores contam que a se tornou incontrolável após um dos agentes ter sido morto com um tiro na cabeça durante a intervenção, que se transformou em uma verdadeira “operação vingança”.

Casas de famílias foram simplesmente invadidas e se tornaram palco de execuções sumárias. Em uma delas, dois homens foram assassinados na frente de uma idosa.

Foto: Erick Rosa/1508

O que se viu foi uma população inteira exposta à letalidade, cerca de 37 mil pessoas que vivem no Jacarezinho, uma das maiores e mais negras comunidades do Rio. Rajadas vinham também do alto, disparadas de dois helicópteros blindados, conhecidos como “caveirões aéreos”.

Duas pessoas ficaram feridas no próximo à favela.

Em vídeo publicado no Twitter, o advogado Joel Luiz Costa, fundador do Instituto de Defesa da População Negra, que atua no Jacarezinho, criticou a violência de Estado:

“Isso aqui não é democracia, não é nada do que a gente pensa que é viver em sociedade, é muito cruel você estar na rua, sentar com os amigos para tomar uma cerveja, fazer coisas triviais que todo ser humano faz, viver a vida e ver uma dezena de marcas de tiros na porta de um bar, de uma loja de cosméticos, cano estourado, balas e balas no chão, ninguém merece isso”, afirma durante a gravação. 

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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