“Não teve tiroteio”: protesto na Cidade de Deus pede justiça por Marcelo, morto pela polícia

O caveirão ficou de frente pro ferro velho. Não tinha confronto nenhum. De repente, deram um tiro, e quando eu fui ver acertou o pobre do rapaz, disse uma testemunha.

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Manifestantes em marcha por justiça para Marcelo / Foto: Ellan Lustosa

Centenas de pessoas, entre familiares, amigos e apoiadores, protestaram nesta terça-feira por justiça para Marcelo Guimarães, assassinado na manhã de segunda-feira (4). Testemunhas acusam policiais militares do 18º BPM, Jacarepaguá, de efetuarem os disparos. A polícia diz que “havia confronto” com criminosos e que Marcelo estava no “fogo cruzado”. Diversas pessoas que estavam no local, no momento em que Marcelo é baleado, afirmam que não havia “confronto” algum e que a versão da PM é mentirosa.

O ato se concentrou no local onde Marcelo foi morto. As Mães de Manguinhos, movimento social de mães da de Manguinhos, vítimas da violência do Estado, foram ao protesto e deram apoio aos familiares. Após diversas falas denunciando a nas favelas, a manifestação saiu em marcha pela rua Edgard Werneck, uma das principais vias de acesso à .

Com seguidos gritos de ordem como “vidas negras importam” e pelo fim da polícia militar, a manifestação caminhou até a porta do 18º BPM, batalhão dos policiais acusados de efetuarem os tiros que mataram Marcelo.

Os manifestantes repetiam seguidamente aos gritos “não houve confronto, não houve confronto”, contestando a versão policial.

O protesto seguiu até a praça Padre Júlio Groten, onde foi finalizado com falas em apoio à família e destacando o racismo estrutural do Estado brasileiro, que mata de forma sistemática a população preta.

A companheira de Marcelo, hoje viúva, refutou a declaração da polícia “não houve confronto na Cidade de Deus, os policiais tiraram a vida do meu marido”, disse. Carla e Marcelo eram casados há 21 anos. Ele deixa dois filhos, uma de 19 anos de idade e um de cinco. Marcelo tinha 38 anos.

Uma testemunha que gravou um vídeo logo após a morte também nega esta versão. Marcelo foi morto embaixo do viaduto que dá acesso à Linha Amarela. Por volta de 12h30m do dia 4, moradores protestaram contra o crime fechando a via expressa, com barricadas.

Oswaldo, pai de Marcelo, foi ao local do crime e disse aos jornalistas que seu filho morreu “na mão de um policial”. “É covardia! Ele passando com a moto dele, (comprada) do suor dele, um policial atirar covardemente nele. Eles ficam aqui parados debaixo do viaduto da Linha Amarela extorquindo as pessoas e fazendo covardia com as pessoas”, denunciou.

Angélica, mãe da vítima, conta que o filho matriculou o filho de cinco anos há dois dias no colégio e que foi levá-lo para o primeiro dia de aula. Na volta, foi assassinado. Segundo ela, os policiais não chegaram sequer a abordá-lo.

Angélica, mãe de Marcelo, emocionada, toca o grafite em homenagem ao seu filho / Foto: Ellan Lustosa

A mãe de Marcelo relatou a uma jornalista que policiais estavam rindo na cena do crime: “E matam e ficam rindo. Porque tinham policiais aqui (no local do crime) rindo. Eu só quero uma coisa: que dessa vez a Justiça seja feita. Isso não pode continuar assim, eles assassinando vidas”, disse Angélica, revoltada.

Patricia Moura de Souza, que trabalha em um ferro velho muito próximo ao local onde Marcelo foi baleado e morto, contou que viu o que aconteceu.

“Trabalho no Ferro Velho, cheguei 7h30. O caveirão ficou de frente pro ferro velho. Não tinha confronto nenhum. De repente, deram um tiro, e quando eu fui ver acertou o pobre do rapaz. E na minha direção, se ele passasse quem iria cair morta ali era eu. Para que ficar dando tiro à toa? É uma vida”, lamentou.

“Ele não era bandido, não gostava nem de cigarro, de beber. Trabalha há mais de 20 anos com mármore. Tiro no peito, meu deus do céu, tiro no peito”, repetia Carla, desolada.

Marcelo era morador da Gardênia Azul, também na Zona Oeste, e tinha deixado o filho na escolinha de futebol. Ele passaria na Cidade de Deus para buscar a mala de ferramentas dele e, no caminho, foi morto.

Assista aqui a transmissão ao vivo que realizamos do protesto.

Rafael Daguerre

Fotojornalista/Videorrepórter

Um dos fundadores da Mídia1508. "Ficar de joelhos não é racional. É renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas" ― Carlos Marighella.

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