Policial joga adolescente de 16 anos de ponte em protesto no Chile

O jovem sofreu traumatismo craniano, fratura nos pulsos e um corte no couro cabeludo. Ele não corre risco de morte, mas continua internado com estado de saúde estável.

Policiais olham o menino imóvel após a queda em Santiago / Foto: Sebastian Silva/EPA

Vídeos gravados durante uma manifestação realizada em Santiago, na sexta-feira, dia 2 de outubro, registram o momento no qual um adolescente de 16 anos é jogado por um policial do alto de uma ponte no rio Mapocho, o principal da capital chilena. O jovem foi levado para a clínica Santa Maria de Santiago, com traumatismo craniano, fratura nos pulsos e um corte no couro cabeludo. Ele não corre risco de morte, mas continua internado com estado de saúde estável.

No sábado (3), manifestantes foram até o ponto do qual o jovem foi jogado e protestaram contra a .

O caso acontece apenas semanas antes do primeiro aniversário da explosão social de 18 de outubro de 2019, data que tem gerado temores no governo do país, comandado pelo direitista Sebastian Piñera, em relação a uma possível nova onda de protestos em larga escala. Em resposta àquela mobilização está previsto para ser realizado no próximo dia 25 de outubro um plebiscito no qual os chilenos decidirão se substituirão ou não a atual Constituição em vigor no país, que data de 1980.

Enquanto as restrições à mobilidade decorrentes da pandemia são levantadas – quase toda Santiago já se encontra fora da quarentena -, manifestantes retomam sua rotina de atos semanais na Praça Itaju, todas as sextas. Quando a crise sanitária começou, em meados de março, o movimento social chileno demonstrava toda a sua força – como em 8 de março, quando cerca de dois milhões de mulheres foram às ruas, segundo as organizadoras. A covid-19, no entanto, freou as manifestações de rua.

Na noite de sexta, centenas de pessoas se reuniram no epicentro urbano das revoltas populares na capital e, como costuma acontecer, ocorreram confrontos entre manifestantes e policiais carabineiros. Pelo menos 21 pessoas foram detidas e 18 carabineiros ficaram feridos, segundo a informação oficial. Foi nesse contexto que ocorreu a queda do jovem: ele estava escapando, juntamente com uma multidão, de um grupo de policiais, quando foi empurrado por um dos agentes da . O adolescente ficou estendido de barriga para baixo no leito do rio (foto), sem movimento, e outros manifestantes desceram para resgatá-lo.

Os carabineiros foram mudando suas versões dos fatos. Na sexta-feira à noite, o tenente Rodrigo Soto negou, inicialmente, que um policial tivesse empurrado o menor de idade no rio: “Quero desmentir categoricamente este tipo de situação. (…) Chega de mentir às pessoas com coisas que os Carabineiros jamais cometeram”. Depois, ainda na noite de sexta, em uma segunda declaração, Soto afirmou: “O que os Carabineiros desmentiram e voltam a desmentir totalmente é que essa pessoa tenha sido pega pelos pés ou que tenha sido lançada ao rio pelo jato d’água [da polícia], como inventaram testemunhas em redes sociais”.

“Enquanto os manifestantes fugiam, vimos o momento em que o policial interceptou [o menino] e o jogou da ponte”, disse Pavel Pavelic Jofre, em entrevista ao jornal The Guardian. Pavelic liderava uma companhia de voluntários de primeiros socorros nos protestos. “Conseguimos trazer dois de nosso grupo para ajudá-lo e, depois de estabilizar sua condição, os bombeiros conseguiram retirá-lo do rio para ser levado ao hospital”, completou.

No dia seguinte, no entanto, o chefe da Área Metropolitana Oeste dos Carabineiros, general Enrique Monrás, se viu forçado a admitir o fato, diante da repercussão que este já havia ganhado na internet: “Um de nossos carabineiros tentava deter um jovem e este perdeu o equilíbrio no corrimão da ponte Pio Nono e caiu na margem do rio Mapocho”.

“Violações Generalizadas dos Direitos Humanos”

Na última quarta-feira (14), a poucos dias do aniversário de um ano do início das manifestações, a Anistia Internacional publicou um relatório onde denuncia que “graves violações dos direitos humanos ocorreram de forma generalizada” durante a repressão aos protestos no país, que deixou pelo menos 30 mortos e milhares de detidos e feridos. Segundo dados do Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH), 460 pessoas ficaram lesionadas nos olhos após o impacto no rosto de balas de borracha ou gás lacrimogêneo disparados por agentes antimotins.

A entidade criticou a impunidade nas ações policiais e a indiferença do alto comando da Polícia de Carabineiros , apesar de ter conhecimento da situação. “Levaram um mês para limitar o uso da munição e nunca chegaram a proibi-la, apesar de existir um relatório interno que mostrava a sua periculosidade”, afirma o documento, onde também é citado o caso do adolescente atirado da ponte Pio Nono.

Contra o legado neoliberal da ditadura Pinochet

Os protestos tem como alvo o governo Piñera e o modelo socioeconômico neoliberal chileno, exigindo a revogação da Carta de 1980. Imposto durante a ditadura do general Augusto Pinochet, o texto coloca o Estado em um papel de “subsidiário”, ou seja, que delega suas responsabilidades ao setor privado, sem estabelecer obrigações.

Isso fica evidente em temas centrais, como saúde, educação e previdência. No caso da saúde, o documento diz que caberá ao cidadão escolher qual modelo ele fará uso, se o privado, que tem preços elevados, ou o público, considerado de baixa qualidade e com poucos investimentos. Ao falar sobre educação, existe o dever do Estado financiar um sistema universal, porém, na prática, as melhores instituições são as privadas.

Outro ponto de crítica está na proibição de greve para o funcionalismo público, assim como para os empregados em empresas e instituições “cuja paralisação possa causar grave dano à saúde, à economia, ao abastecimento, ou à segurança nacional”.

O parágrafo 18 do artigo 19 fala da previdência privada, um modelo que, na prática, é obrigatório e que acabou levando 78% dos aposentados do país a receber menos de um salário mínimo.

Além disso, o país é o único na América Latina que não reconhece em sua Constituição a existência e os direitos dos povos indígenas habitantes em seu território.

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