Manifestantes incendeiam igrejas no Chile

Os manifestantes também atearam fogo em uma estação de metrô em Puente Alto, zona sul da capital, e em uma delegacia da polícia.

Manifestantes atearam fogo na igreja de São Francisco de Borja / Foto: AP

Duas igrejas católicas foram incendiadas no último domingo (18) em do . Os incêndios ocorreram durante o grande pelo primeiro aniversário da mobilização contra as desigualdades sociais no país e o governo do direitista Sebastian Piñera. Os manifestantes também atearam fogo em uma estação de metrô em Puente Alto, zona sul da capital, e na 20ª delegacia da polícia de carabineiros (espécie de equivalente local à PM brasileira). Foram ainda registrados saques a supermercados e barricadas em diferentes partes da cidade. Cerca de 580 pessoas foram detidas durante os confrontos.

Os templos atacados foram a capela “dos Carabineiros”, San Francisco de Borja, e a paróquia Asunción. Esta última, a segunda das igrejas a ser queimada, teve sua estrutura destruída enquanto vários atos ocorriam ao redor da Praça Itália – rebatizada Praça da Dignidade pelo movimento.

Enquanto a construção ardia em chamas, bombeiros e equipes de resgate faziam uma cerca para evitar que o colapso do edifício atingisse as pessoas. “Deixa cair, deixa cair”, gritavam os revoltosos, que festejaram a subsequente queda da cúpula da igrejinha, que chegou a ser utilizada como centro de detenção e tortura durante a ditadura do general Augusto Pinochet.

Antes, bem próximo ao local onde ocorreu o incêndio, a igreja de San Francisco Borja, que se destina aos serviços religiosos para os agentes da repressão, já havia sido saqueada e queimada, mas os bombeiros conseguiram apagar as chamas antes que elas causassem maiores danos.

Ao longo do dia, chegaram à Praça da Dignidade principalmente jovens, mas foram vistas famílias e pessoas de todas as idades, incluindo crianças e idosos. Houve batucadas, representações de coletivos de mulheres, bandeiras do povo Mapuche e do Chile, música ao vivo, entre outras atividades culturais e políticas.

Manifestantes no interior da igreja / Foto: Esteban Félix/AP Photo

Foi novamente um protesto de massas, como os feitos antes da crise sanitária em março. No dia 8 desse mês, no Dia Internacional da Mulher, aproximadamente 1,2 milhão de chilenas marcharam pelas ruas capital, de acordo com as organizadoras. Foi a última grande mobilização antes da pandemia, cuja primeira onda ainda não está controlada no país , onde ontem foram informados 1.759 novos casos.

A revolta popular emerge à margem de estruturas tradicionais como os partidos políticos e os sindicatos. Uma amostra dessa insatisfação ocorreu no domingo na mesma área da Praça da Dignidade, quando o administrador do bairro da Recoleta, Daniel Jadue, um dos principais quadros da esquerda institucional chilena, foi rechaçado pela multidão.

Outras cidades do país também foram palco de protestos contundentes. Em Coquimbo, 500 quilômetros ao norte de Santiago, um grupo atacou carabineiros com coquetéis molotov e incendiaram barricadas.

“Não é pelos 30 pesos, é pelos 30 anos”

O “estalido social“, ou explosão social, no Chile começou em 18 de outubro de 2019, por causa do aumento de 30 pesos na tarifa do metrô. Mas isso foi apenas o estopim, como expressa o slogan principal da revolta: “Não é pelos 30 pesos, é pelos 30 anos.”

A primeira reação do governo Piñera foi revogar o aumento, decretar estado de emergência e toque de recolher em várias partes do país. Depois, propôs um plebiscito para reformar a Constituição e, em dezembro, anunciou aumento das aposentadorias mais baixas e do salário mínimo. Apesar das medidas, os protestos continuaram. Em dois meses, várias estações de metrô e agências bancárias foram destruídas, supermercados foram saqueados. 

A repressão também tem sido intensa. Segundo avaliação divulgada na última quarta-feira (14) pela Anistia Internacional, a reação do Estado chileno às manifestações tem sido marcada por “graves violações dos direitos humanos”, que “ocorreram de forma generalizada”:

“Os comando estratégicos dos Carabineiros permitiram a prática de atos de tortura e maus-tratos contra os manifestantes, considerando um mal necessário dispersá-los a todo custo”, denunciou a diretora para as Américas da entidade, Erika Guevara, em apresentação do relatório “De olho no Chile: violência policial e responsabilidade do comando durante o surto social”.

O saldo dessa política é que, pelo menos, 30 pessoas foram mortas por agentes antimotim e cerca de 4 mil foram feridas. De acordo com dados, Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH), mais de 460 pessoas ficaram lesionadas nos olhos após o impacto no rosto de balas de borracha ou gás lacrimogêneo disparados pela polícia.

Para os setores mais radicalizados da Praça da Dignidade, o que isso indica é que as “soluções” institucionais apresentadas pelo governo e a oposição parlamentar estão longe de representar uma verdadeira resposta aos anseios do povo:

“No presente, exatamente há um ano que o povo despertou da letargia democrática e neoliberal, as portas de um novo processo eleitoral o qual muitos acreditam que é um avanço que dá a possibilidade de melhorar nossas condições de vida, a repressão deixa claro que continuará assassinando e atacando a todos aqueles que queiram continuar enfrentando-os nas ruas” afirma, em um dos seus comunicados, o grupo anarquista La Ruptura, que prega o boicote ao plebiscito sobre a constituição, previsto para o próximo dia 25.

Na visão do coletivo, o caminho tem de ser o da organização “com solidariedade e autonomia à margem da política dos ricos”: “É necessário e urgente preparar-se porque o processo iniciado em outubro não se deterá, a batalha pela dignidade recém começa”.

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