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Ensinando a transgredir na pandemia

O dia 15 de outubro no Brasil nunca foi um dia festivo, sempre foi um dia de luta. Ser professor no Brasil não é uma tarefa fácil.

Protesto de profissionais da educação no Centro do Rio de Janeiro / Foto: Carina Blacutt

Por Carina Blacutt e Marcela Tavares

“A academia não é o paraíso. Mas o aprendizado é um lugar onde o paraíso pode ser criado. A sala de aula com todas as suas limitações, continua sendo um ambiente de possibilidades. Nesse campo de possibilidades temos a oportunidade de trabalhar pela liberdade, de exigir de nós e dos nossos camaradas uma abertura da mente e do coração que nos permita encarar a realidade ao mesmo tempo em que, coletivamente imaginamos esquemas para cruzar fronteiras, para transgredir. Isso é a como prática da liberdade.” (hooks, 2013, p.273)

Filósofa, negra, professora estadunidense, bell hooks em seu livro “Ensinando a transgredir: a educação como prática da Liberdade” discute sobre o papel emancipador da educação a partir de uma perspectiva freireana e feminista Negra. O trecho que selecionamos de seu livro traz uma reflexão de extrema importância para esse 15 de outubro, dia do professor no Brasil. Ser professor no Brasil não é uma tarefa fácil. Haja visto os baixos salários, falta de estrutura nas escolas e a política do atual governo, que menospreza e precariza cada vez mais os profissionais da educação.

E nós que somos professoras, nesse dia simbólico nos perguntamos: como, no momento atual em que vivemos, em uma pandemia e todas as suas idiossincrasias, podemos desenvolver uma educação como prática da liberdade, como propõem hooks?

O dia 15 de outubro no Brasil nunca foi um dia festivo, sempre foi um dia de luta. Neste ano, estreiam dois filmes que abordam essa realidade. O primeiro deles é “Abraço” (2020), um filme produzido pelo movimento sindical, trata-se de uma ficção que conta a luta de professores de Sergipe durante uma greve em 2008. Nele, a personagem Ana Rosa é mãe, professora e lidera o movimento grevista e para isso tem que lutar contra o machismo estrutural e a resistência da família. Ser mulher e militante, nunca foi fácil neste país!

de profissionais da educação no Centro do / Foto: Carina Blacutt

O segundo filme em estreia é um média-metragem chamado “Ensino de Filosofia: em defesa do pensamento crítico”, produzido pelo Bantu Comunicações e Linhas de Fuga. Neste documentário, diversos depoimentos foram misturados a passagens filosóficas formando uma narrativa que conta a história do ensino da Filosofia no ensino médio, que se tornou obrigatório em 2007 como resultado de uma luta ferrenha liderada por profissionais e estudantes da área.

Ambos os filmes, retratam a realidade das autoras que aqui escrevem. Somos filósofas e professoras militantes por um ensino público, gratuito e, principalmente, de qualidade. O ensino da filosofia no Brasil tem sua história marcada por avanços e retrocessos – lembramos de quando na ditadura militar esta disciplina foi substituída por uma matéria anômala denominada “Moral e Cívica” – mesmo nos dias de hoje, depois da reforma do ensino médio em 2016, a filosofia deixou de ser obrigatória nos três anos e passou a só ser ministrada em dois. A luta de professores e profissionais desta área é permanente, apesar de ser uma das principais disciplinas com poder emancipatório, pois é na própria filosofia que compreendemos o que é a liberdade.

Durante a pandemia de 2020, mais de 1 milhão de docentes tiveram suas atividades interrompidas nas salas de aula do ensino fundamental, dentre estes, milhares de professores de filosofia se viram impelidos a pensar e discutir questões que surgiram neste período. Nós criamos o coletivo “Filósofas na rede”, um grupo constituído por professoras da rede estadual, federal, professoras universitárias, professoras da rede privada e pensadoras, que criaram um lugar de encontro nas redes sociais, para pensar juntas e através da filosofia, maneiras de enfrentar a pandemia e as consequências dela.

Eu, Marcela, sou professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro no município de Duque de Caxias, e de repente me vi impedida de encontrar meus alunos do ensino médio integrado e dos cursos para Jovens e adultos e não pude mais desenvolver os trabalhos que comecei este ano. No entanto, apesar do Instituto ainda não ter iniciado as chamadas APNPs (atividades pedagógicas não presenciais), já pude constar que a realidade da maioria dos meus alunos não é compatível a um ensino totalmente à distância. Principalmente, quando se trata dos jovens e adultos, que são trabalhadores e trabalhadoras e que muitas vezes têm se arriscado para manter seus empregos. Muitos já relataram perdas irreparáveis na família e, psicologicamente, esta situação de ensino remoto também se torna inviável. Além disso, alguns estudantes com necessidades especiais, também são prejudicados em seu aprendizado nesta modalidade de ensino.

Já eu, Carina, professora da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, percebo que a realidade das aulas de filosofia, na modalidade de ensino remoto, está muito distante de proporcionar de fato uma prática libertária. Com menos de 20% de estudantes acessando a plataforma onde se encontra os conteúdos, o município onde moram meus alunos não é contemplado com uma rede móvel ampla e eficiente, em muitas áreas não há sequer sinal de celular. Isso faz com que os estudantes não só sejam excluídos da Educação básica, mas também os obriga a enfrentar o risco de se expor, indo presencialmente à escola buscar o material impresso. Com estudantes lutando para sobreviver, como pensar em uma educação que emancipa?

Protesto de profissionais da educação no Centro do Rio de Janeiro / Foto: Carina Blacutt

O ato de hoje, realizado na Cinelândia, na cidade do Rio de Janeiro, é uma
demonstração que os profissionais da Educação ainda resistem e lutam por emancipação. Proposto pela frente contra ensino remoto e EAD na educação básica, a manifestação é um grito de liberdade realizado com máscaras, distanciamento e bastante álcool em gel. A proposta da frente é pela suspensão imediata das aulas durante a pandemia, suspendendo, assim, todo o calendário letivo de 2020, para que toda a comunidade escolar possa encontrar “uma solução verdadeira e suficiente, capaz de levar adiante os princípios que norteiam a educação brasileira: o ensino universal, a liberdade de ensino, a autonomia escolar e a qualidade de ensino”. O ato pacífico que, no entanto, é contestador, busca alertar à sociedade e aos governantes sobre todas essas questões que colocam, neste momento atual, a profissão de professor em voga e em risco. Risco de vida e de precarização do trabalho e em voga, pois mais do que nunca é possível perceber a importância do trabalho docente e da sua presença no espaço escolar.

Respondendo à pergunta que nos fizemos no começo deste texto: como podemos desenvolver uma educação como prática libertadora? Uma única resposta nos vêm a mente: essa educação só é possível com a presença do ensino de filosofia nas escolas, mas de uma filosofia decolonial, feminista, negra, indígena, latino-americana, e porque não, brasileira. Assim como nos propõe bell hooks, devemos transgredir fronteiras e nos aproximar do mais íntimo e familiar dos estudantes, mas como fazê-lo se há uma barreira no distanciamento? O que percebemos é que a forma que o ensino remoto vem sendo aplicado, com obrigações e avaliações, afasta a comunidade escolar ao invés de aproximá-la. Mais que avaliar, deveríamos nos preocupar com acolher os estudantes e suas famílias.

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Carina Blacutt é professora de Filosofia
da Rede Estadual de Educação do Rio de Janeiro.

Marcela Tavares é professora do Instituto Federal do
Rio de Janeiro no município de Duque de Caxias.

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