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Satélites desmentem Bolsonaro: fogo no Pantanal não foi iniciado por “índios e caboclos”, mas por pecuaristas

O discurso mentiroso de Bolsonaro dialoga diretamente com mais uma campanha de desinformação (esta sim real) que vem sendo promovida por seus apoiadores.

Foto: Marcos Corrês / PR

Em discurso de abertura na 75ª Assembleia da ONU (Organização) na manhã desta terça-feira, 22, o presidente (sem partido) mentiu ao tentar atribuir queimadas que assolam ao país aos povos originários. Atacando uma suposta “campanha de desinformação” sobre a Amazônia e o , o político de extrema direita buscou relacionar os incêndios florestais a “índios e caboclos” que, segundo ele, “queimam seus roçados” em áreas que já teriam sido desmatadas. Essa versão é desmentida por imagens de satélite do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e da NASA, que revelam que, em alguns dos locais que mais sofreram com as queimadas no , os focos de incêndio surgiram e se multiplicaram primeiro em propriedades rurais privadas para depois tomar as terras indígenas.

Além de serem afetados pelo fogo que avança pelo bioma, os indígenas são uma parte da força que tenta impedir a destruição de seus territórios. Segundo o último edital do Ibama para brigadistas no do Sul, das cinco brigadas existentes no estado, quatro são indígenas.

O discurso mentiroso de Bolsonaro dialoga diretamente com mais uma campanha de desinformação (esta sim real) que vem sendo promovida por seus apoiadores. Em grupos de WhatsApp, ruralistas tem feito postagens acusando indígenas de incendiar a vegetação. Na verdade, trata-se de um grupo de brigadistas que, contratados pelo próprio Ibama, utilizam técnicas de queimada controlada, antes do período dos incêndios, justamente para evitar que estes se espalhem descontroladamente.

Conteúdos falsos compartilhados em redes sociais acusam indígenas e brigadistas de provocarem queimadas. Técnicos utilizam fogo controlado para retirar parte da vegetação, impedindo que incêndios se espalhem ainda mais / Foto: Reprodução

Bolsonaro contradiz ainda sua própria Polícia Federal, que, na semana passada (14), realizou realizou buscas e apreensões em quatro fazendas no município de Corumbá (MS), baseadas em indícios de que os incêndios na região,  que também abriga o bioma Pantanal, podem ter sido provocado intencionalmente para a abertura de pastos. A suspeita é a de que pode ter acontecido algo similar ao ‘Dia do Fogo’, quando fazendeiros e empresários de Novo Progresso, no Pará, organizaram queimadas na Amazônia nos dias 10 e 11 de agosto do ano passado. O portal Repórter Brasil aponta aqui detalhes dessa denúncia.

Fazendas que iniciaram incêndios são fornecedoras de multinacionais

Um estudo realizado pelo Instituto Centro de Vida (ICV)  identificou que as queimadas no Mato Grosso começaram em cinco fazendas, a partir da análise cruzada dos focos de calor do INPE, imagens dos satélites Sentinel-2 e Planet e mapeamento das áreas atingidas por incêndios da NASA. O Instituto analisou os focos de incêndio no Mato Grosso entre 1º de julho e 17 de agosto, mas ressalta que a primeira queimada na região começou em 11 de julho.

O fogo que teve início nessas cinco fazendas pecuaristas do município de Poconé (MT) foi responsável por destruir 116.783 hectares, área equivalente à cidade do Rio de Janeiro. Esse volume de destruição correspondeu a 36% da área total atingida por incêndios no Pantanal mato-grossense no período analisado (entre julho e a primeira metade de agosto).

Segundo levantamento da Réporter Brasil, uma das propriedades rurais é a fazenda Comitiva, de Raimundo Cardoso Costa, onde o fogo começou em 20 de julho e foram registrados pelo menos 171 focos de incêndio. A área total destruída pelo fogo iniciado nesta fazenda foi de 25.188 hectares.

De acordo com dados da Secretaria de Estado de Fazenda do Mato Grosso, Costa é proprietário de outra fazenda, vizinha à Comitiva, chamada Recanto das Onças, que comercializa gado com o grupo Bom Futuro, de Eraí Maggi, maior produtor de soja do mundo. O grupo o está entre os fornecedores de gado dos maiores frigoríficos do Brasil: as gigantes multinacionais JBS, Marfrig e Minerva.

Outra das fazendas identificadas foi a Espírito Santo, de José Sebastião Gomes da Silva, onde o fogo começou em 4 de agosto. Segundo o Inpe, foram pelo menos 73 focos de incêndio que destruíram 14.292 hectares, segundo análise da NASA.

Gomes da Silva é dono ainda de outra fazenda, a Formosa. Essa propriedade vende gado para a fazenda Rio Bonito, de Elza Junqueira de Carvalho Dias, que, por sua vez, comercializa gado com a JBS e Marfrig. A Fazenda Formosa também é fornecedora da Amaggi Pecuária. A empresa faz parte do grupo Amaggi, da família do ex-ministro e ex-senador Blairo Maggi. Primo de Eraí, Blairo tem 10 fazendas no Mato Grosso e atua em diversos setores além de soja e pecuária, como energia e logística. A Amaggi Pecuária também está entre as fornecedoras da JBS, Marfrig e Minerva. 

Mais de uma centena de frigoríficos assinaram com o Ministério Público Federal (MPF) um acordo, que ficou conhecido como “TAC da Carne”, em 2009, para não comprar gado de áreas desmatadas ou autuadas por trabalho escravo na região amazônica. Mais de 10 anos depois, os frigoríficos conseguem driblar o acordo com uma série de artimanhas, muitas vezes envolvendo fornecedores indiretos com problemas socioambientais.

“Tudo está acabando”, denunciam indígenas

Apenas em setembro, 164 focos de incêndio avançaram sobre terras indígenas (TIs) no Pantanal. Mais de 200 em agosto. Quase metade das áreas indígenas regularizadas na região já enfrenta queimadas – que têm cercado aldeias, destruído casas e plantações e levado a internações por problemas respiratórios. 

A área indígena com mais focos é também a maior, a TI Kadiwéu, dos Terena e Kadiwéu, no . Foram 176 focos desde maio deste ano, a maior parte deles em agosto.

A Terra Indígena Baía dos Guató, do povo Guató, no município de Barão de Melgaço (MT), é um exemplo de como focos de incêndio podem proliferar em propriedades privadas para depois atingir TIs e unidades de conservação. No início de agosto, quase não havia focos de incêndio ao norte do território. Com o passar dos dias, eles passaram a ser registrados em áreas de reserva legal e mata nativa dentro de propriedades privadas ao norte da área indígena. Em seguida, surgiram incêndios dentro da TI. Os dados de satélite do Inpe registram 57 focos de incêndio na área em setembro e 85 em agosto. Quase toda a extensão da terra foi tomada por focos.

“As queimadas destruíram roças, queimaram casas. O fogo destruiu uma parte bem grande do nosso território, destruindo muitas árvores, animais, aves, prejudicando nossa fauna e flora e a nossa segurança alimentar, porque destruiu nossas roças. Estamos muito preocupado com as nossas matas porque é delas que retiramos o nosso sustento, as nossas medicações tradicionais. Com a queimada, tudo isso está comprometido. Não encontramos mais muitas ervas que usamos para tratar das enfermidades e também a palmeira acuri, que utilizamos para fazer cobertura das casas tradicionais e alguns utensílios, e pra fazer a chicha, uma bebida tradicional. Tudo está acabando”, denuncia Alessandra Guató, em declaração dada recentemente à ONG Agência Pública.

O território fica próximo ao Parque Estadual Encontro das Águas, abrigo da maior concentração de onças pintadas do mundo, que também foi tomado por focos de incêndio. Foram 456 apenas em agosto e setembro. Segundo o ICV, 85% da área do parque foi destruída pelas queimadas: 92 mil de um total de 108 mil hectares foram incinerados.

De acordo com estimativa do Ibama divulgada nesta terça (22), mesmo dia em que Bolsonaro tentava pintar o quadro de um “Brasil paralelo” na ONU, a área atingida pelo fogo no Pantanal passou de 3,1 milhões de hectares. É uma área maior do que o estado de Alagoas e três cidades de São Paulo juntos.

A situação, que já era crítica, se agravou ainda mais na última semana, segundo o Inpe. Em sete dias, foram queimados o equivalente a 34 mil campos de futebol. Dados do Programa Queimadas da instituição mostram que os focos cresceram 206% no primeiro semestre de 2020, em comparação com o mesmo período do ano passado. Ao considerar Mato Grosso e Mato Grosso do Sul é o maior registro desde 1998, quando começou a série histórica.

O reflexo do fogo na vegetação é visível. Muitas árvores queimadas com a destruição do habitat natural de várias espécies de animais. As cinzas geradas pelos incêndios são altamente tóxicas. Elas são levadas pelo vento e contaminam os rios. 

Em regiões arrasadas pelas chamas, as águas estão escuras.

“O rio não parece o rio. O peixe já está difícil para a gente pegar. E está difícil. Ainda mais com essa queimada de agora, ficou muito mais difícil as coisas”, conta uma pescadora. 

Indígenas alertam que queimadas, além de destruírem vegetação e matar animais, afetam rios e os deixam vulneráveis a assoreamento / Foto: Gustavo Figueiroa/SOS Pantanal

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