EUA: Kyle Rittenhouse não é herói, é um racista e não agiu em legítima defesa

Rittenhouse juntou-se a um grupo armado de extrema direita para combater o movimento Black Lives Matter, do qual é contrário.

Montagem da esquerda para a direita: Facebook / Agência Anadolu / Paul Williams

Para começar, é importante destacar: alguém que atua exclusivamente contra uma manifestação antirracista é, consequentemente, um racista.

Kyle Rittenhouse, um jovem branco de 17 anos, juntou-se a um grupo armado de extrema direita contra os protestos que ocorrem na cidade de Kenosha, no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos (). Segundo esse grupo, armaram-se para proteger a propriedade privada e as pessoas que não faziam parte das manifestações.

Os protestos começaram após a polícia de Kenosha tentar matar um homem negro desarmado com sete tiros pelas costas, no dia 22 de agosto. Nos dias seguintes, a cidade foi tomada por manifestações, lojas e carros foram destruídos e incendiados por pessoas antirracistas revoltadas com a polícia. Jacob Blake, de 29 anos, inacreditavelmente sobreviveu aos tiros, mas provavelmente ficará paralisado da cintura para baixo.

Na última terça-feira (25/08), durante mais uma manifestação contra o e a , Kyle Rittenhouse matou dois manifestantes antirracistas e feriu gravemente outro, que precisará de uma cirurgia reconstrutiva para não perder um braço.

Os assassinatos tornaram-se um ponto crítico em um debate sobre as mobilizações – que denunciam o racismo institucional no país – e a reação da extrema direita, com seus “vigilantes” que atuam armados contra as manifestações em diversas regiões dos EUA. Os supremacistas brancos, naturalmente, afirmam que as mortes partem de uma ação de autodefesa.

Rittenhouse saiu de carro de Antioch, cidade onde vive, levado pela própria mãe para Kenosha. Para alguns – que são contra as manifestações – ele é visto como um herói que pegou em armas para proteger a propriedade e as pessoas que ficaram desprotegidas.

Rittenhouse foi para Kenosha com um fuzil semiautomático AR-15.

“Kyle é um menino inocente que justificadamente exerceu seu direito fundamental de autodefesa. Ao fazer isso, ele provavelmente salvou sua própria vida e possivelmente a vida de outras pessoas”, disse Lin Wood, advogado que faz parte de uma equipe representando Rittenhouse.

Não, Kyle não é inocente e muito menos um herói.

O estado de Wisconsin permite que os proprietários de armas as carreguem abertamente em público, mas uma pessoa menor de 18 anos não pode possuir legalmente ou portar uma arma de fogo, a menos que essa pessoa esteja caçando ou praticando tiro ao alvo com um adulto ou no exército. Sendo assim, Rittenhouse não poderia estar armado.

Após as mortes, Rittenhouse pode ser visto caminhando em direção à polícia com sua arma pendurada no corpo e levantando as mãos. Policiais em veículos táticos passam direto por ele e literalmente o ignoram. A polícia tem recebido muitas críticas por sequer pedir identificação para ver se ele tinha idade suficiente para carregar uma arma. Antes das mortes, alguns policiais foram vistos em vídeo agradecendo ao grupo que Rittenhouse estava ajudando e jogando garrafas de água para eles.

Tratar a ação de Rittenhouse como “autodefesa” é uma completa inversão de valores. Rittenhouse estava armado e matou duas pessoas desarmadas. Sua ação não é uma reação a uma injustiça, pelo contrário, ela defende injustiças e busca a manutenção do status quo. A reação às injustiças – de um sistema estruturalmente racista – vêm justamente dos protestos antirracistas do Black Lives Matter, que ele e o grupo armado de extrema direita foram para as ruas combater. Rittenhouse foi armado para Kenosha para desafiar o movimento Black Lives Matter, do qual é opositor. Ele já fez parte de um programa de jovens cadetes para aspirantes a policiais e é abertamente apoiador do “Blue Lives Matter”, um contramovimento nos EUA que defende a polícia em resposta ao Black Lives Matter.

O próprio ato de Rittenhouse comprova a diferença de tratamento ao homem negro em comparação a um branco. A polícia deu sete tiros pelas costas em um homem negro desarmado, mas deixou um adolescente branco armado com um fuzil semiautomático matar duas pessoas e não reagiu com tiros contra ele. Este caso apenas reafirma que vidas negras não importam e que existe um racismo institucional a ser combatido.

Mesmo após os inúmeros protestos antirracistas em todo o país nos últimos três meses, iniciados após o assassinato de George Floyd, morto asfixiado por um policial em Minneapolis, a prática racista da polícia segue acontecendo. O caso de Jacob Blake é mais um – entre tantos – em que um homem preto desarmado não oferece qualquer resistência ou risco e é friamente assassinado pela polícia.

Blake ter sobrevivido é uma exceção à regra.

Jacob Blake foi baleado sete vezes nas costas por um policial na frente de seus três filhos. A indignação no país cresce em relação à resposta da polícia ao adolescente branco Rittenhouse, armado com uma AR-15, em comparação ao homem negro desarmado, Blake / Foto: Facebook

Como ocorreram as mortes

Na noite das mortes, Rittenhouse é visto em vídeo com uma camisa verde correndo por um estacionamento com o fuzil, seguido por um homem mais tarde identificado como Joseph Rosenbaum, de 36 anos, de acordo com uma denúncia. Rosenbaum joga um saco plástico em Rittenhouse, erra, então cinco tiros soam e Rosenbaum cai no chão. Mais tarde, ele foi declarado morto. Ele sofreu três tiros, um nas costas.

“Acabei de matar alguém”, diz Rittenhouse em seu celular, de acordo com a denúncia, e ele começa a correr. Várias pessoas o perseguem. “Bata nele!” uma pessoa na multidão diz. Várias pessoas gritam que ele acabou de atirar em alguém. Outro grita: “Pega ele! Pega aquele cara!”. Rittenhouse tropeça e cai. Um homem segurando um skate parece tentar desarmar Rittenhouse. Um tiro ressoa, e o homem, Anthony Huber, de 26 anos, sofre um tiro no peito e cambaleia para longe. Ele também morreu.

Na briga, que durou apenas alguns segundos, Rittenhouse atira em uma terceira pessoa que estava segurando uma pistola, segundo a denúncia. Esse homem, Gaige Grosskreutz, de 26 anos, tem um grave ferimento no braço, mas sobreviveu. No vídeo, Grosskreutz não atira, ele parece tentar retirar a arma de Rittenhouse.

Grosskreutz é um ativista que se ofereceu como médico voluntário durante as manifestações em Kenosha, de acordo com a ativista de Milwaukee Bethany Crevensten. Grosskreutz fazia parte de um grupo de cerca de vinte ativistas que se manifestaram em torno de Milwaukee após a morte de George Floyd e foram a Kenosha para protestar. Grosskreutz usava uma mochila e um boné com a etiqueta “paramédico”.

Em uma audiência de extradição no Tribunal do Condado de Lake, na sexta-feira (28), um juiz adiou a decisão sobre se Rittenhouse, que está sob custódia em Illinois, deve ser devolvido a Wisconsin para enfrentar as acusações, que inclui homicídio doloso de primeiro grau que pode levá-lo à prisão pelo resto de sua vida.

A mídia dos EUA

A cobertura da mídia dos EUA, em sua maioria, trata Kyle Rittenhouse como um “vigilante” – uma palavra geralmente usada para descrever uma pessoa não autorizada que assume a responsabilidade de proteger sua comunidade na ausência de autoridades legais.

Ainda que em alguns programas de TV encontre-se críticas:

“Ninguém dirige para uma cidade armado porque ama muito os negócios de outra pessoa. Eles fazem isso [sair armados] porque esperam atirar em alguém. Essa é a única razão pela qual pessoas como ele se juntam a essas gangues […] é um bando de caras ameaçando as pessoas com armas”, disse o apresentador do Daily Show, Trevor Noah.

Mas em geral, os meios de comunicação, incluindo o The Guardian, se referiram a Rittenhouse como um “vigilante”. Rittenhouse, que já foi visto na primeira fila de um comício de Donald Trump, presidente dos EUA, foi descrito no The Intercept como um “vigilante conservador”. Em um artigo o New York Post também o chama de “vigilante”.

Não é difícil identificarmos que este caso também se trata de racismo.

É fácil comparar a rapidez com que a mídia trata de rotular pessoas não brancas que praticam protestos violentos como “terroristas”. Trump se referiu ao Black Lives Matter e a grupos antifascistas, que protestam contra a violência policial, como “terroristas” este ano. Mas preferiu se reportar aos “vigilantes brancos armados” que patrulham a capital do estado de Michigan como “Very Good People” (“gente muito boa”).

Sem dúvida que rotular alguém de terrorista é um tema de grande debate, mas de uma coisa podemos ter certeza, os movimentos de esquerda que usarem da violência jamais serão chamados pela mídia dos EUA de “vigilantes”.

Rafael Daguerre

Fotojornalista/Videorrepórter

Um dos fundadores da Mídia1508. "Ficar de joelhos não é racional. É renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas" ― Carlos Marighella.

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