/

Entrevista: torcida antifascista é perseguida pela diretoria do próprio clube

Somos um grupo de Atleticanos e Atleticanas: laicos, suprapartidário, que respeita os valores coletivistas, luta pelas liberdades individuais e a democracia...

Nos últimos anos, o futebol brasileiro viu o surgimento de torcidas antifascistas pelas arquibancadas do país. Sem dúvida que o crescimento da popularidade de Jair Bolsonaro aliado ao avanço do no país e seu uso desavergonhado do futebol para fazer política, levou ao aumento de coletivos de torcedores de futebol com o objetivo de barrar grupos fascistas fora e dentro dos estádios. A democracia corinthiana, por exemplo, nasceu em resposta à ditadura militar, em 1981.

Em geral, as torcidas antifascistas são grupos de torcedores politizados que compreendem a relação futebol-política e que lutam contra a elitização do esporte nos estádios. São pessoas que usam sua paixão pelo futebol e seu clube como ferramenta para transformação social, com discussões políticas contra homofobia, racismo, machismo e capitalismo.

Hoje há dezenas de torcidas de futebol antifascistas representando clubes brasileiros de todas as regiões. São mais de 60 torcidas antifascistas.

Entrevistamos uma torcida antifascista que recentemente ganhou destaque por sofrer perseguição política da própria diretoria do clube. A torcida organizada antifascista do Clube Atlético Paranaense (CAP), a antiga ‘CAP Antifascista’, hoje, ‘Resistência Atleticana Antifascista’, foi notificada extrajudicialmente de que deveria retirar todas as publicações que utilizassem a marca do clube.

Leia a entrevista:

A torcida CAP Antifascista existe há quanto tempo?

Nossa caminhada começou em dezembro de 2017. Percebemos que torcedores de ESQUERDA, pessoas do Povão em geral, não tinham mais espaços nas ARQUIBANCADAS da BAIXADA. Em 2018, este grupo de torcedores mobilizou-se na cidade de Curitiba, mais especificamente no ACAMPAMENTO MARISA LETÍCIA, quando da prisão arbitrária e ilegal do ex-presidente Lula – já nascemos na resistência e na luta, portanto. Com o domínio do no Brasil, e o plano do futebol moderno instalado nas estruturas do Clube, vários torcedores Atleticanos começaram a procurar o Coletivo para saber qual a causa da nossa luta: a adesão foi e está sendo muito boa.

Por que a diretoria não quer a torcida CAP Antifascista relacionada ao clube? Outras torcidas sofrem a mesma pressão? Por exemplo, a Reaçonaria, abertamente de extrema direita.

O atual “DONO” do ATLÉTICO PARANAENSE, pela sua condição financeira/social, foi e continua sendo um cabo eleitoral do atual governo. Nas eleições de 2018, por exemplo, a direção obrigou os jogadores a entrar em campo de verde e amarelo, e uma faixa com os dizeres “Todos Juntos Pelo Brasil”, numa vergonhosa alusão à campanha bolsonarista. Soma-se a isto, o fato do patrocinador master do Clube ser declaradamente de extrema-direita, e boa parte da torcida do Atlético que frequenta o Estádio, serem eleitores do atual presidente. É notório a pressão de vários setores ligados ao Clube, reivindicando uma postura energética da Instituição, em relação às ações tomadas pelo Coletivo CAP ANTIFA. Ganhamos muita visibilidade, sobretudo nos últimos meses, devido nossas manifestações políticas realizadas na cidade. Segundo informações que recebemos, essa retaliação tem um único e exclusivo objetivo: acabar com o nosso Movimento. Outras organizações, diga-se, não sofreram nenhuma notificação da atual direção.

Vocês realizaram protestos contra o governo Bolsonaro junto a torcidas do Paraná e Coritiba, tradicionalmente torcidas rivais, como se dá essa relação? E há diálogo com torcidas antifascistas de outros estados?

Temos um bom diálogo com as torcidas ANTIFAS da cidade de Curitiba. Todos os atos realizadas em contra este governo genocida, foram em ações conjuntas entre as três torcidas ANTIFAS: Gralha Marx, Coxa Comunas, e dois Coletivos de Atleticanos: CAP ANTIFA e Atleticanhotxs. Em relação a outros estados, percebemos que ainda não há um diálogo significativo – estamos buscando essa troca de ideias, que é necessária e urgente para fazermos ações conjuntas por todo o Brasil.

Essas manifestações contra o governo podem ser o motivo da perseguição da diretoria?

Certamente! Em abril de 2018, criamos uma página no Facebook, com o objetivo de nos manifestarmos politicamente, durante as eleições. Somos integralmente contra a política do atual governo. Isto conta muito na perseguição que estamos sofrendo. Foi nossa apresentação de forma organizada, perante a sociedade, que incomodou o Clube. Atingimos um público preocupado com o viés político da torcida Atleticana, junto à imagem da Instituição. Logo após nossas ações já mencionadas, o Coletivo CAP ANTIFA recebeu, via messenger do Facebook, uma notificação extrajudicial, para desvincular toda e qualquer ligação do nome, imagem, símbolo, sigla, mascote… enfim, tudo que associasse ao Clube. Sob a alegação de que as manifestações e publicações realizadas, têm potencial de abalar severamente a integridade e a reputação da marca: Clube Atlético Paranaense.

Escudo da torcida Resistência Atleticana Antifascista.

Quanto às torcidas organizadas do CAP, existe algum diálogo?

A formação do Coletivo é composta por: alguns sócios integrantes da Torcida, alguns sócios ex-integrantes da Torcida, e Atleticanos que nunca tiveram ligação com Torcida Organizada. A atual diretoria da principal Torcida Organizada optou por ficar neutra, neste sentido. Nós, entretanto, resolvemos lutar por um Mundo melhor, por um país mais justo e solidário, e por um Clube de Futebol mais plural e democrático. Mesmo sendo independentes, temos um bom diálogo com a diretoria da Torcida.

Como elas estão tratando essa perseguição a vocês?

Com indiferença. O mesmo Clube que nos persegue, também impõe muitas proibições às Torcidas Organizadas. Então deveríamos estar na mesma trincheira… na mesma luta, não é mesmo? Afinal, o maior patrimônio de um Clube de Futebol é a sua fanática Torcida. Temos um excelente diálogo com outro grupo de Atleticanos Antifascistas, denominados Atleticanhotxs.

A própria diretoria já fez uso da marca CAP para fazer política, quando em 2018 a instituição apoiou o então candidato a presidente Jair Bolsonaro, durante o Campeonato Brasileiro daquele ano. O que vocês podem falar sobre essa contradição da diretoria em comparação com o tratamento que vocês estão recebendo?

De fato, uma contradição! Na notificação extrajudicial que recebemos, a diretoria alega (também!) que nós não respeitamos a pluralidade dos torcedores atleticanos. Ora, e eles em 2018? É este plano de gestão, implantado nos últimos anos, que tem como objetivo elitizar o Estádio… afastando os Torcedores Organizados, os torcedores das periferias, pois cria barreiras econômicas de participação das classes menos favorecidas, nas atividades ligadas ao Clube.

Vocês pensam em mudar o nome da torcida por causa da perseguição da diretoria?

Logo após o recebimento da notificação extrajudicial, tivemos um debate interno. Fizemos consultas jurídicas, e tomamos a decisão de mudar nossa nomenclatura. Por meio de uma votação, escolhemos um novo nome para o nosso Coletivo.

Nos últimos anos o número de torcidas antifascistas aumentou significativamente. Por que vocês acham que isso vem ocorrendo?

Ainda há uma barreira sobre o tema “Futebol e Política”, dentro dos Clubes e das Torcidas Organizadas no Brasil. A política está relacionada a todas as manifestações humanas em sociedade. No futebol, não seria diferente. O aumento do número de torcedores antifascistas se dá, principalmente, como reação aos discursos de ódio, de segregação, de intolerância, de xenofobia, alimentados pela fala e comportamento do atual presidente da República. Como ficarmos neutros numa situação destas? É civilização x barbárie. Estamos ao lado da Humanidade.

Qual a opinião de vocês sobre a elitização do futebol no país?

Somos totalmente contra este processo. Nossa principal luta é barrar este plano em execução no futebol brasileiro, que se iniciou logo após as reformas de alguns estádios para a realização da Copa Mundo de 2014. Muitos clubes brasileiros, inclusive o Atlético Paranaense, aderiram o projeto de administração clube/empresa, visando apenas à lucratividade em detrimento ao acesso de classes sociais menos favorecidos. Futebol é um esporte popular. E ao Povo deve servir, portanto.

Como a CAP Antifascista tem lidado com a e o que vocês pensam sobre a volta do futebol em plena pandemia?

Participamos de dois grandes atos na cidade de Curitiba contra o descaso do governo federal frente à mundial – um verdadeiro caso de genocídio! Respeitamos todos os protocolos médicos. Ficou evidente, para a população brasileira, que não teremos um plano sanitário para combater a COVID-19. Infelizmente! Somos contra o retorno do futebol no Brasil, durante a pandemia. Há toda uma cadeia de trabalho em torno da volta às atividades futebolísticas. Clubes de futebol com estruturas inferiores, com os da 2ª e 3ª divisão, e até alguns da Série A, não têm condições sanitárias para manter seus funcionários e atletas isolados do restante da população que convive diariamente frente à pandemia. No final contas, quem pagará com a própria vida, é o trabalhador pobre das periferias brasileiras. A CBF, junto com este grupo político que toma o de assalto, são vergonhas nacionais!

Caso queiram falar sobre algum tópico que não foi perguntado, fiquem à vontade…

Somos um grupo de Atleticanos e Atleticanas: laicos, suprapartidário, que respeita os valores coletivistas, luta pelas liberdades individuais e a democracia, contrário a cultos personalistas, e acredita que a diferença entre pobres e ricos não é natural. Defendemos a diversidade, e uma sociedade plural – livre de toda e qualquer forma de discriminação.

Somos antifascismo.
Somos a RESISTÊNCIA ATLETICANA ANTIFASCISTA.

_
Abaixo a nota de esclarecimento da torcida publicada no dia 3 de agosto, em resposta à perseguição da diretoria:

No dia 28 de julho de 2020, o CAP ANTIFA, movimento de torcedores criado com o objetivo de lutar em defesa da democracia, recebeu com surpresa e incredulidade uma notificação extrajudicial do Clube Athletico Paranaense, assinada por seus advogados. A nota exige a imediata “retirada de todas as publicações que façam referência às marcas do Notificante”, sob a alegação de que as “manifestações e publicações realizadas têm potencial de abalar severamente a integridade e a reputação da marca do clube”.

Qual é a pessoa, instituição ou clube que procura se afastar e silenciar deliberadamente um movimento de torcedores que tem a defesa da democracia como única e exclusiva razão de existir?

No meio de todas estas crises que vivemos em 2020, o futebol está no centro das atenções por três questões: primeiro, a questão sanitária que envolve a volta ou não aos gramados e em que condições; segundo, uma grande disputa política e financeira sobre modelos de gestão que já mudaram a configuração legal das formas de transmissão no Brasil, num cenário que agora está repleto de incertezas; por último, o uso político do futebol, algo que em si não é novidade, mas que nos últimos meses revelou para muita gente que havia um espaço de debate e ação política em grupos de torcedores que reagiram contra a ascensão do movimento autoritário patrocinado pelo discurso do governo federal.

Como não se insurgir contra ataques escancarados à democracia brasileira? Quem pode ser contra aqueles que lutam em defesa da democracia?

O mesmo Athletico que obriga jogadores a entrar de verde e amarelo, com uma faixa vergonhosa “TODOS JUNTOS PELO BRASIL”, em claro apoio ao então candidato da extrema-direita, que se apropriou de símbolos nacionais, e desrespeitando a pluralidade dos seus torcedores, quer agora censurar um movimento legítimo de torcedores ao proibir que se utilize a sigla CAP em manifestações que visam à defesa da democracia brasileira diante de um momento tão preocupante e delicado. O mesmo Athletico, que persegue a principal Torcida Organizada do Clube pelo uso do escudo da Instituição, agora nos tem como alvos em potencial.

Compreendemos o Athletico Paranaense como um patrimônio de seus torcedores, de todas as classes sociais e não apenas da elite econômica de Curitiba e Região Metropolitana. O Clube de muitos, aos poucos foi se tornando um “bem de poucos”, com a criação de inúmeras barreiras que simplesmente impedem ou impossibilitam o acesso a milhares de torcedores da periferia e das classes menos favorecidas de sua massa de torcedores. Destaque-se que não vimos o Clube se manifestar da mesma maneira, contra outros websites, páginas de redes sociais ou quaisquer outras formas de manifestação, da mesma maneira que se manifestou contra a nossa organização. Defendemos princípios democráticos, a liberdade de organização e manifestação, a igualdade social e repudiamos qualquer tipo de discriminação de gênero, raça, cor ou credo. Portanto, quando o Clube coloca em campo um time com a camisa amarela apropriada como símbolo de um dos maiores genocidas da atualidade, não caberia uma “notificação extrajudicial” aos dirigentes cobrando explicações por tal atitude? Qual é a posição do Conselho Deliberativo? Pau que bate em Chico ignora a existência de Francisco?

É de se lamentar que a direção do nosso Clube se preocupe em reprimir seus torcedores, ao invés de dar ouvidos ao clamor das ruas que hoje, infelizmente, estão banhadas com o sangue de milhares de pessoas. A quem de fato o Clube quer proteger? A marca ou a política permanente e sistemática de exclusão do povo pobre dos seus espaços? A marca ou o governo genocida encastelado no poder em nosso país?

A marca do Athletico Paranaense deveria ser um bem coletivo. Ela antecede a existência desses dirigentes atuais que aí estão e só existe graças a paixão de muitos. Ela também pertence aos torcedores pobres, favelados, às crianças da periferia, aos excluídos, da mesma forma que pertence àqueles que podem frequentar os jogos. Ela pertence a nós. Ela pertence à massa que vibra nas arquibancadas e também à que exige justiça nas ruas.

É preciso resgatar o caráter de cultura popular que tornou o futebol tão importante no Brasil. O grande historiador Eric Hobsbawm observou, que “o futebol carrega o conflito essencial da globalização”, porque expõe seu grande paradoxo: quer ser entidade transnacional do capitalismo, mas a matéria prima são a paixão e a fidelidade local dos torcedores com uma equipe. Para quem quiser entender a dimensão política e social do futebol brasileiro basta imaginar como seria a paisagem cultural do país sem o futebol e tudo que ele dá para as pessoas, coisas como a tradição, o ritual, o espetáculo dramático, o senso corporativo, de identidade, a hierarquia, a lealdade, um espaço para dar vazão ao espírito combativo, um dos poucos espaços no meio do grande mercado que é nossa vida que a arte e a beleza ainda são valorizadas. A atual gestão do clube Athletico Paranaense pode até tentar, mas não se pode jamais tirar o futebol do povo, um povo que está mais sofrido do que nunca.

Rafael Daguerre

Fotojornalista/Videorrepórter

Um dos fundadores da Mídia1508. "Ficar de joelhos não é racional. É renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas" ― Carlos Marighella.

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

Últimas Notícias