Manifestantes incendeiam ônibus em protesto após assassinato de jovem pela PM em São Paulo

Os policiais tentaram forjar que Rogério portava uma arma, mas não conseguiram graças aos moradores locais que rapidamente começaram a filmar e informavam que o rapaz estava desarmado.

Dois ônibus são incendiados em protesto por morte de jovem em abordagem policial

Dois ônibus foram incendiados e quatro apedrejados e destruídos na noite desta segunda-feira (10/8) durante um contra o assassinato pela Polícia Militar de do adolescente Rogério Ferreira da Silva Júnior, no Parque Bristol, zona sul da cidade. A manifestação teve início na tarde desta segunda-feira (10/8), na esquina em que Rogério morava.

O jovem, que trabalhava como ajudante em uma empresa de logística, morreu a cerca 500 metros do local, na Avenida dos Pedrosos, na tarde anterior, executado com um tiro nas costas no dia em que completou 19 anos de idade.

Assista o vídeo dos ônibus incendiados:

Rogério Ferreira da Silva Júnior, 19 anos

Em um vídeo gravado por uma câmera de segurança, pode-se ver duas motos da PM perseguindo a moto de Rogério, que não esboça reação, até que esta para ao lado do meio-fio e tomba. Segundo um amigo da vítima, que testemunhou o crime, os PMs não permitiram que ninguém socorresse o rapaz enquanto ele ainda dava sinais de vida. Só quando ele não esboçava nenhuma reação que foi permitido algum socorro e uma enfermeira amiga da família tentou fazer massagem cardíaca.

Assista o vídeo da câmera de segurança:

Os policiais tentaram forjar que Rogério portava uma arma, mas não conseguiram graças aos moradores locais que rapidamente começaram a filmar e informavam que o rapaz estava desarmado. Posteriormente, com a proporção que se transformou o caso, os próprios PMs admitiram que Rogério, que trabalhava em uma empresa de logística, não portava nenhuma arma. A Corregedoria da PM apoia a tese dos policiais, no entanto, de que se trata de “legítima defesa putativa”, ou seja, os policiais imaginam que há uma ameaça, mas que na verdade não existe. Os policiais afirmam que Rogério teria “feito menção de colocar a mão na cintura”, como se fosse sacar uma arma.

No boletim de ocorrência, o policial militar Guilherme Tadeu Figueiredo Giacomelli afirmou que estava perseguindo a motocicleta conduzida por Rogério Ferreira da Silva Junior, e que o rapaz teria feito um movimento simulando que sacaria uma arma de fogo.

Torna-se cada vez mais evidente que no Brasil a polícia tem licença para matar sem sofrer qualquer consequência. Com outra infeliz conclusão, que dentro da burocracia e das instituições do próprio Estado as injustiças serão perpetuadas. Denunciar a polícia para a própria polícia não resolverá.

“Eu nem conhecia o maninho que faleceu, mas era mais que minha obrigação colar e fazer o que foi feito. O Rogério era uma vida. Da mesma forma que poderia ser a minha ou a sua”, afirmou. “Só fiz o meu papel de ser humano que não aguenta tudo calado. A revolta dos humildes é a pior das revoltas.”

Amigos lembraram que Rogério tinha acabado de conseguir um emprego com carteira assinada, como operador de empilhadeira.

A violência da polícia tem alvo, cor e classe social

O debate sobre o racismo institucional tem aumentado. Este ano, após o assassinato de George Floyd por um policial, em Minneapolis, nos EUA, manifestações antirracistas explodiram em todo o mundo.

A polícia cumpre seu papel de controle social e defesa da propriedade privada através da aplicação sistemática de terror – terrorismo de Estado – contra a população pobre e negra. A execução de jovens negros em favelas e periferias é parte do cotidiano brasileiro. Não o contrário. Portanto, é necessário destacar que não é despreparo ou mero desvio de conduta. A polícia é preparada para matar e reprimir pobre.

Em 2013, na cidade de Campinas, um capitão da PM pede a intensificação do policiamento em ruas próximas a um colégio aos sábados “focando em abordagens a transeuntes e em veículos em atitude suspeita, especialmente indivíduos de cor parda e negra com idade aparentemente de 18 a 25 anos”.

Em 2012, segundo uma pesquisa da Anistia Internacional, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.

Ano passado, imagens publicadas em uma rede social do Batalhão de Ações Especiais de Polícia de São José do Rio Preto, mostram PMs atirando contra alvos com a inscrição “favela”. Um dos PMs atira a queima roupa. 

Manifestante carrega cartaz durante o protesto / Foto: Reprodução

A violência da PM de São Paulo em 2020

De janeiro a maio deste ano, 442 pessoas foram mortas por policiais militares no estado de São Paulo, maior número para o período desde o início da série histórica, em 2001. Também houve aumento de 34% no número de mortos em batalhões da capital paulista. Para especialista, o aumento reforça que não são ‘casos isolados’. Vale ressaltar que esse aumento ocorre em plena pandemia.

O número de pessoas mortas por policiais militares dentro e fora de serviço no estado de São Paulo de janeiro a maio de 2020 é o maior de toda a série histórica iniciada em 2001: 442 vítimas.

O total deste ano ultrapassou o número de mortos por PMs em 2003, com 409 mortes em decorrência de intervenção policial, segundo a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno.

O número de mortos por policiais de batalhões das cidades da Grande São Paulo, com exceção da capital paulista, aumentou 70% de janeiro a maio de 2020 em comparação com o mesmo período de 2019, com base em dados da Corregedoria da Polícia Militar no Diário Oficial.

Destaque-se que estes são números oficiais. O número deve ser ainda maior.

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