Líbano vive dia de ira após explosão

A manifestação é contra a classe política, a quem eles culpam pelas explosões que destruíram uma parte da área portuária da cidade na última terça-feira.

Foto: Hannah McKay / Reuters

Libaneses realizaram neste sábado (8/8) um grande na capital do país, Beirute. A manifestação é contra a classe política, a quem eles culpam pelas explosões que destruíram uma parte da área portuária da cidade na última terça-feira, deixando 158 mortos, mais de 6.000 feridos e dezenas de pessoas desaparecidas, além de quase 300.000 desabrigados.

Cerca de 5.000 manifestantes se reuniram na Praça dos Mártires para iniciar o ato. Uma forca foi montada no local. A manifestação está sendo chamada de “Dia da Ira” e “Dia do Julgamento”.

Imagens exibidas pela TV local mostram pessoas tentando avançar rumo ao Parlamento libanês e tropas de segurança fazendo barreiras. Para conter os manifestantes, a polícia lançou bombas de gás lacrimogêneo. De acordo com a Cruz Vermelha Libanesa, 55 pessoas tiveram que ser levadas para hospitais por ferimentos durante a manifestação, e outras 117 foram socorridas nas ruas. Um agente da repressão foi morto pelos revoltosos.

A simulação de enforcamentos nas manifestações se tornou um símbolo chave dos movimentos populares contra o atual governo libanês, que ocorre desde o ano passado.

“Depois de três dias limpando os escombros e curando nossas feridas, é hora de deixar nossa raiva esvair e puni-los por matar pessoas”, declarou Farès al-Hablabi, de 28 anos. “Devemos nos levantar contra todo o sistema […] a mudança deve ser compatível com a escala do desastre”, acrescentou ele, que participou de outro levante popular na cidade em 17 de outubro de 2019.

Informações preliminares apontam como causa provável da tragédia, a explosão de 2.750 toneladas de nitrato de amônio, material inflamável habitualmente usado na fabricação de fertilizantes e explosivos. Apreendida de um navio abandonado em 2013, a substância estava armazenada no porto de Beirute havia seis anos, sem as condições de segurança adequadas. Mas não se sabe o que teria detonado o material.

Respondendo a especulações, o partido xiita Hezbollah negou envolvimento com as explosões, que caracterizou como um “acontecimento excepcional” e disse que não mantinha armas no porto.

“Querem dizer ao povo de Beirute que aqueles que destruíram suas casas e mataram seus filhos são do Hezbollah. Eu nego, absoluta e categoricamente, a presença de qualquer míssil ou material nosso no porto”, disse Hassan Nasrallah, líder do partido. “Mesmo que um avião tenha batido ou que tenha sido um ato intencional, se for confirmado que o nitrato estava no porto há anos, negligência e corrupção são absolutamente partes desse caso.”

Jornalista acusa Israel

O jornalista israelense Richard Silverstein publicou uma reportagem acusando Israel pela explosão. Silverstein, que publica textos no jornal britânico The Guardian, afirmou que a intenção do país governado por Benjamin Netanyahu seria atacar um depósito de armas do Hezbollah no porto de Beirute. No entanto, “eles não sabiam que havia 2.700 toneladas de nitrato de amônio armazenadas em um armazém ao lado”:

“Embora Israel tenha atacado regularmente o Hezbollah e os depósitos e comboios de armas iranianos na Síria, raramente realiza tais ataques descarados no Líbano. Esse ataque na capital do país marca uma escalada ainda maior. A pura imprudência dessa operação é surpreendente”, diz o jornalista.

Em outra reportagem, Silverstein compartilha o trecho de uma entrevista à CNN de Robert Baer, um ex-analista da CIA — agência de inteligência norte-americana. Especialista em Oriente Médio, Baer diz que analisou atentamente o vídeo da explosão e que foram “munições” que causaram a explosão no porto da capital libanesa.

“Foi claramente um explosivo militar”, disse o analista. “Não era fertilizante como nitrato de amônio. Eu tenho certeza disso. Você olha para aquela bola laranja e é claramente um explosivo militar”, continua.

“Parece quase um acidente”, diz ele. “Foi incompetência, e talvez tenha sido corrupção, mas a questão é: Se foram explosivos militares, para quem eles foram ou por que foram armazenados lá?”, questiona.

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