Protesto lembra demolição de hospital que levou à morte pacientes do CTI

Por causa da demolição do Hospital Central IASERJ, 15 pacientes em estado grave morreram após a transferência forçada para outro hospital. Até hoje os responsáveis não sofreram qualquer acusação.

Manifestantes em frente ao antigo IASERJ / Foto: Rafael Daguerre - Mídia1508

Neste sábado, 18 de julho, o movimento social MUDI – Movimento de Moradores e Usuários em Defesa do IASERJ/SUS realizou um para lembrar a demolição do Instituto de Assistência dos Servidores do Estado (IASERJ) e contra a privatização do Sistema Único de (SUS), na Praça da Cruz Vermelha, no Centro do . O movimento denuncia a falta de EPIs (Equipamento de Proteção Individual) e o atraso de dois meses de salário de boa parte dos profissionais da em plena pandemia.

O grupo também distribuiu máscaras aos moradores em situação de rua.

Todo ano o MUDI/SUS vai para rua denunciar e pedir justiça pelo crime por destruírem um hospital, pelos pacientes mortos e cobra o direito à saúde da população, pois fazia alguns anos que o Hospital Central do IASERJ deixara de ser exclusivo dos servidores do estado do Rio.

O ato foi finalizado em frente ao portão principal do terreno do antigo Hospital Central do IASERJ, na Av. Henrique Valadares 107, Centro, que virou um grande terreno abandonado. Desde a demolição o local se transformou em proliferação de ratos e mosquitos, se tornando frequente as reclamações de moradores pelo descaso do governo e preocupação com doenças.

A manifestação contou com ativistas e militantes do MUDI/SUS, do IAL (Instituto Anjos da Liberdade), da FIST (Frente Internacionalista dos Sem Teto), da Aldeia Maracanã e de moradores em situação de rua e do bairro.

Fechamento e demolição do hospital

Em 14 de julho de 2020 completou oito anos que o ex-governador Sérgio Cabral e o ex-secretário de saúde Sérgio Côrtes, em acordo com o então ministro da saúde José Gomes Temporão, retiraram todos os pacientes internados do Hospital Central do IASERJ, inclusive os que estavam em situação grave entubados no CTI, e desativaram o hospital. Após a transferência, 15 pacientes que estavam em estado grave, morreram logo em seguida nos hospitais a que foram encaminhados.

A demolição do hospital, na Cruz Vermelha, Centro do Rio, prejudicou milhares de pacientes que diariamente buscavam atendimento naquela unidade. O hospital realizava a cada mês cerca de 9 mil atendimentos, 35 mil exames laboratoriais, 1.500 diagnósticos por imagem e tinha cadastrados 80 mil pacientes do SUS. Oferecia serviço de emergência, maternidade, especialidades ambulatoriais, inclusive para tratamento de câncer, com mais de 400 leitos e 40 especialidades médicas. Em seu lugar seria feita uma obra milionária para a construção de um centro de pesquisa do Instituto Nacional do Câncer (Inca), que fica ao lado, na qual seriam gastos mais de R$ 500 milhões. A obra sequer foi iniciada, porque a empreiteira contratada pelo Inca, a Schain Engenharia, passou a ser investigada por desvio de dinheiro público pela Operação Lava Jato. Auditores do Tribunal de Contas da União (TCU) descobriram que o valor do contrato tinha sido superfaturado.

O estado do Rio acabou com 10 mil leitos entre 2006 e 2017.

Em um panfleto distribuído na manifestação, o MUDI/SUS informa que o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), demitiu dois mil agentes comunitários de atenção básica na área da saúde. No início do ano, somente a Organização Social (OS) Viva Rio, demitiu cerca de 6.000 profissionais da saúde após rompimento de contrato da prefeitura. O texto do movimento lembra também que o governador do estado, Wilson Witzel (PSC), retirou do portal da transparência os contratos milionários entre a Secretaria de Saúde e o Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde (IABAS), que é uma entidade privada. A OS IABAS entrou sem licitação para construir hospitais de campanha, que sequer entregou no tempo necessário para salvar vidas contra o coronavírus. Com o escândalo, o ex-secretário de Saúde Edmar Santos, que é tenente-coronel da Polícia Militar, foi preso.

O Tribunal de Contas do Estado aponta que alguns contratos firmados sem licitação, entre eles, o de compra de respiradores, oxímetros e medicamentos e o de contratação de leitos privados chega a R$ 1 bilhão.

Seis por meia dúzia

O atual secretário de Saúde do Rio é Alex Bousquet, um velho conhecido. Entre os profissionais de saúde, Bousquet é conhecido como ‘coveiro de hospital’, por ter sido nomeado diretor do Hospital Central do IASERJ por Côrtes, em julho de 2012, para comandar o processo de transferência compulsória de pacientes. O médico Pedro Cirilo, responsável pelo hospital na época, pediu demissão por entender ser uma irresponsabilidade transferir pacientes internados no CTI e sem a permissão das famílias. Bousquet foi nomeado para realizar o trabalho sujo, a transferência ocorreu no início da madrugada de 14 de julho de 2012, com uso do Batalhão de Choque da PM.

Bousquet era homem de confiança de Sérgio Côrtes no governo Cabral. Preso duas vezes na operação Lava-Jato, Côrtes foi acusado de receber propina de empresários e de comandar o esquema de corrupção na saúde, durante as gestões de Sérgio Cabral (PMDB). No período em que Sérgio Côrtes geriu a saúde do estado (2007-2013), a rede hospitalar foi ainda mais sucateada.

As integrantes do movimento ressaltam a evidente corrupção e o descaso com a vida da população tanto da prefeitura quanto do governo do estado. Dinheiro desviado do orçamento público que deveria ser aplicado no SUS.

CPI

O MUDI/SUS pleiteia a instauração na ALERJ (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) uma CPI, a do “Hospital Central do IASERJ”, para que seja apurado os responsáveis pelo fechamento, demolição e também pelas mortes de 15 pacientes, que morreram logo após a transferência para outros hospitais. Sem dúvida, Sérgio Cabral e Sérgio Côrtes são peças fundamentais neste processo, até hoje nunca responderam por nada relativo ao fechamento e demolição do hospital.

A proposta da CPI inclui também investigações de caixa dois e lavagem de dinheiro. O próprio Tribunal de Contas do Estado (TCE) impugnou o valor inicial previsto para a obra. Com a redução o valor ficou em 500 milhões, o que ainda levanta suspeita de uma obra superfaturada.

O movimento busca com a CPI a Anulação do Termo de Cessão do Terreno e a reconstrução de um novo “Complexo Hospitalar Central do IASERJ”, com os princípios da construção sustentável, em respeito ao meio ambiente. E que traga de volta o Instituto Estadual de Infectologia São Sebastião, que na época funcionava em um dos prédios do hospital.

Não podemos esquecer do governo de Michel Temer (PMDB) e sua Emenda Constitucional n° 95/2016, que impôs ao país o congelamento de recursos para a saúde e a educação por 20 anos. E mesmo com a pandemia o Estado brasileiro a mantém. Naturalmente, ela representa os interesses de empresários e de planos de saúde.

* Os vídeos foram feitos pelo MUDI/SUS.

Rafael Daguerre

Fotojornalista/Videorrepórter

Um dos fundadores da Mídia1508. "Ficar de joelhos não é racional. É renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas" ― Carlos Marighella.

Deixe seu comentário

Your email address will not be published.