Incêndio atinge terra indígena na periferia de São Paulo

Um incêndio se alastra pela Terra Indígena Jaraguá, na periferia da capital de . Segundo relatos dos moradores, o fogo se aproxima da Tekoa Itakupe, uma das seis aldeias existentes no território, no qual residem cerca de 720 índios da etnia . A fumaça pode ser vista dos bairros nas proximidades do Pico do Jaraguá, como Pirituba e Perus.

O fogo se iniciou por volta das 11h. De imediato, os moradores conter as chamas que se aproximavam de algumas casas e acionaram o Corpo de Bombeiros de São Paulo, que teve dificuldade de chegar ao local com mangueiras.

Os Guardiões da Floresta, jovens da comunidade, seguiram o dia inteiro na tentativa de conter a queimada, que só aumentava, devido ao tempo e à mata secos que contribuíram para combustão.

Somente no fim da tarde, depois de muitas ligações para o 193, é que o apoio aéreo do corpo de bombeiros chegou ao local para apagar o incêndio do alto.

Com o pôr do sol, o apoio aéreo foi interrompido, mas a comunidade seguiu em luta para conter o fogo do chão que, por volta das 21h parecia ter sido controlado, mas voltou com força próximo dos lagos da aldeia, queimando canos de abastecimento de água.

Às 18 h, a postagem de um morador, reproduzida pela página Existe Guarani em SP, traduzia o desespero dos Guarani com a ineficiência do socorro prestado pelo Estado:

“O fogo continua na terra indígena Jaraguá bem do lado da aldeia Itakupe, os nossos jovens estão fazendo o possível para apagar mais o fogo está se alastrando mais rápido para a comunidade e não temos nenhum apoio do poder público” denunciava o indígena Richard Wera Mirim, no texto da publicação, que traz também imagens das chamas.

Disputa

O incidente ocorre em meio a uma disputa entre os indígenas e a empreiteira Tenda, por uma área de 8.624,59 m², fica próximo a entrada do Parque Estadual do Pico do Jaraguá.

O Parque dá acesso ao ponto mais alto do município (1.135 metros de altitude), é tombado como patrimônio cultural da humanidade pela Unesco desde 1994 e faz parte da zona conhecida como cinturão verde da cidade de São Paulo. Ali, encontra-se boa parte da escassa vegetação nativa remanescente da Mata Atlântica que ainda permanece em pé na região metropolitana da capital paulista.

É para este local que o Prefeito Bruno Covas (PSDB) concedeu um alvará autorizando a Tenda a construir um grande empreendimento imobiliário de até 11 torres e ao menos 880 imóveis que serão comercializados para mais de 2 mil famílias, a maioria dentro da faixa de renda de quem recebe até três salários mínimos. O projeto prevê a derrubada de 528 árvores para dar lugar aos edifícios.

Com a autorização em mãos e sem qualquer participação dos moradores da TI Jaraguá, a Tenda deu início as obras, começando obviamente pela supressão da vegetação. No dia 30 de Janeiro, após dois dias de trabalho no terreno, os funcionários contratados pela empresa já haviam derrubado mais de 500 árvores. Entre as espécies que foram ao chão, está o cedro, considerado sagrado para os povos Guarani.

Em respeito à sua cultura, os indígenas ocuparam o terreno no dia 30 e impediram que mais árvores fossem derrubadas, inaugurando um período de reza no local para uma cerimônia de luto pelo “descanso dos espíritos da floresta derrubada” destinada a Nhanderu – divindade maior dentro cosmovisão da etnia. Além da realização do cerimonial, a comunidade plantou mais de 800 mudas no local para repor o dano ambiental provocado pela Tenda.

A cerimônia deveria acontecer até a chegada da lua nova. Neste meio tempo, a Tenda conseguiu uma liminar de reintegração de posse, expedida pela Justiça Estadual de São Paulo, para a retirada dos indígenas. No dia 06 de Fevereiro, a juíza Maria Claudia Bedotti determinou que a Polícia Militar removesse a ocupação – batizada Yara Ty, pelos índios.

A estratégia escolhida pelas lideranças indígenas foi saírem de dentro do terreno de onde estavam, mas permanecerem mobilizados nas calçadas em frente ao portão. O desfecho impediu qualquer ação violenta e o próprio cumprimento da ação de reintegração de posse. Ao mesmo tempo, entraram com um recurso judicial para impedir a construção até que a comunidade seja consultada e os estudos de impacto socioambiental sejam aprovados na esfera federal, a qual pertence a garantia dos direitos de populações tradicionais.

Os Guarani denunciam que a Tenda teria declarado um impacto ao meio ambiente muito menor do que será executado e que ao todo o projeto pode levar a derrubada de até 4 mil árvores no terreno. Argumentam ainda que o empreendimento afeta diretamente o curso de água do Ribeirão das Lavras, que é utilizado para rituais, lazer, abastecimento da comunidade e cujas faixas marginais são denominadas áreas de preservação permanente.

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