Jovem vítima de prisão racista é solto após pressão de movimento negro

Na tarde de sexta-feira (12/6), Gabriel Silva Santos, de 22 anos, saiu de casa para sacar o seguro-desemprego, em Salvador. Na saída do banco, enquanto falava no celular, escuta o som de disparos, bem próximos do seu ouvido. Acreditando se tratar de um assalto, joga o aparelho no chão e coloca as mãos para o alto. Em seguida, pra sua surpresa, o ex-estoquista, que como tantos brasileiros havia perdido trabalho em decorrência da pandemia, descobre que era ele quem estava sendo preso.

Levado por policiais militares à Delegacia de Repressão à Furtos e Roubos de Veículos, Gabriel foi colocado diante de um casal que havia sido vítima de um roubo de automóvel acontecido nas redondezas dois dias antes. Nem o proprietário do carro, nem sua esposa, o reconheceram como autor do crime. E nem poderiam, afinal, o rapaz sequer sabe dirigir, como foi informado aos agentes por seus familiares tão logo souberam da detenção.

O único indício contra Gabriel era a descrição do ladrão: negro, loiro e de tatuagens. Para a Polícia Civil baiana, isso foi mais que suficiente para prosseguir com a acusação, mesmo diante de tantas evidências de inocência. Também foi o bastante para o Judiciário local converter a prisão (“em flagrante”, segundo o registro) em “preventiva”. Na delegacia, Gabriel, que sofre de asma, ficou em uma cela com 14 presos, sendo que seis estão com suspeita de Covid-19.

No sábado (13/6), familiares e amigos organizaram um protesto em frente à delegacia onde Gabriel estava detido. No mesmo dia, uma campanha nas redes sociais levantou a hashtag #soltemGabriel, que viralizou com a ajuda de ativistas antirracistas de diversas partes do país.

A campanha começou quando a repórter Ashley Malia, do jornal A Tarde, que também é colaboradora da página Pretitudes, divulgou em seu Twitter a denúncia da prisão. A tag chegou a ficar em primeiro lugar no Twitter.

Com a grande repercussão do caso, Gabriel foi solto na manhã deste domingo (14/6), depois que os advogados entraram com um pedido de habeas corpus. Participaram do caso os advogados Alberto Mariano, Dandara Amazzi Lucas Pinho, Filipe Pinheiro, Maria Eugenia Damasceno Pinto e Paulo Cesar dos Santos Junior.

“O caso de Gabriel é mais uma prova do quanto estamos diante de um Estado racista”

“Existem inúmeros casos como o de Gabriel, de pessoas negras que vão presas injustamente. Apesar da gente viver em Salvador, uma das cidades mais negras, sofremos muito com o racismo. Temos uma polícia extremamente violenta”, declarou Ashley ao portal de notícias Ponte Jornalismo.

“Aqui temos uma polícia extremamente violenta e violenta com pessoas negras. Vivemos em uma cidade que é majoritariamente negra, mas somos vistos como suspeitos, como alvo. Nós não temos o direito de ser inocente até que se prove o contrário. O caso de Gabriel é mais uma prova do quanto estamos diante de um Estado racista”, apontou.

Entrevistada pelo mesmo veículo, a advogada Maria Eugênia Damasceno Pinto, destacou a ilegalidade na forma como foi conduzido o caso: “A prisão dele foi convertida sem ter passado pela audiência de custódia. Tiraram esse direito dele” denuncia.

Na avaliação de Maria Eugênia, que também é presidente do Connegro (Coletivo Nacional de Organização Negra), é importante que os movimentos sociais continuem atentos ao caso: “Precisamos que a mobilização continue, para que esse caso seja arquivado e não fique instaurado nada no nome dele.”


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