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“A Cedae é do povo”, dizem manifestantes em protesto

Foto: Rafael Daguerre / Mídia1508

Manifestantes realizaram um em frente à sede da  (Companhia Estadual de Águas e Esgotos), empresa pública responsável pelo saneamento básico do , no Centro da cidade, no fim da tarde desta terça-feira (21/01). Os manifestantes reclamam da qualidade da distribuída para a população do Rio e criticam o plano de da empresa estadual. Os manifestantes bloquearam uma das pistas da Avenida Presidente Vargas, no sentido Candelária, em caminhada para a Cedae. Policiais tentaram impedir com agressões e ameaças, mas não conseguiram.

A manifestação seguiu pela avenida até a porta da estatal.

A crise da água começou há mais de 15 dias. A partir de um levantamento das redes sociais e reportagens mostra que moradores de pelo menos 77 bairros da cidade do Rio de Janeiro e de seis municípios da Baixada Fluminense já relataram que receberam da Cedae água com gosto e cheiro de terra.

A companhia diz que a mudança na água é causada pela substância geosmina, que não causa riscos à saúde, entretanto, muitos moradores relatam ter sofrido com náusea, vômito e diarreia após o consumo. A coloração barrenta que o líquido apresentou em algumas residências não foi ainda explicada pela empresa.

Nesta semana, o sistema que vai tratar a água com o uso de carvão ativado vai entrar em operação. O maquinário está sendo montado na Estação de Tratamento de Água (ETA) Guandu, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Assista a transmissão ao vivo do ato aqui.

A Cedae protela desde 2009 a execução de uma obra emergencial que evitaria a crise no abastecimento do Grande Rio. O projeto, orçado à época em cerca de R$ 33 milhões, reduziria a chegada de esgoto no lago onde ocorre a captação de água na ETA (Estação de Tratamento de Água) Guandu, localizada no rio de mesmo nome, no limite entre os municípios de Nova Iguaçu e Seropédica, na Baixada Fluminense.

Foto aérea mostra poluição da água em ponto de captação na ETA do Rio Guandu na Baixada Fluminense / Imagem: Divulgação/Comitê Guandu

A presença de esgoto nos mananciais que abastecem a estação é a principal causa para a proliferação de cianobactérias responsáveis pela liberação da geosmina — substância que deixa gosto e odor terrosos na água. Atualmente, cerca de 9 milhões de pessoas no Rio e em outras sete cidades da região metropolitana consomem a água produzida pela ETA Guandu.

A coloração, assim como a presença de geosmina, não é natural, ao contrário do que afirmam as autoridades fluminenses. Segundo nota técnica elaborada pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) divulgada na última quarta-feira (15), “a geosmina, um composto orgânico volátil, é produzida por algumas bactérias heterotróficas ou cianobactérias, que crescem em abundância em ambientes aquáticos com altas concentrações de nutrientes, especialmente em mananciais que recebem esgotos não tratados”.

A situação é gravíssima. Para termos uma ideia, em 8 meses, rios do Guandu recebem em esgoto o equivalente ao rompimento de Brumadinho.

A situação reflete o crônico problema de saneamento básico na Baixada Fluminense e, em especial, nos municípios cortados pelo Rio Guandu e seus afluentes, como Nova Iguaçu, Seropédica e Queimados. Dos três, só Nova Iguaçu tem algum tratamento de esgoto — 0,1% de tudo que produz. Os demais não tratam nenhum esgoto. Como consequência, os rios Queimados e Ipiranga — afluentes do Guandu que cortam a baixada — recebem diariamente 1,1 tonelada de matéria orgânica proveniente de esgoto. Isso equivale a 56 milhões de litros de esgoto por dia.

Em menos de oito meses, os dois rios recebem em esgoto o equivalente ao volume do material despejado no rompimento da barragem do Córrego do Feijão, e em Brumadinho (MG), estimado em 12,7 milhões de metros cúbicos.

O ambientalista Sergio Ricardo, coordenador do Movimento Baía Viva, diz que o nível de poluição nos mananciais chega a prejudicar a captação de água, sobretudo em momentos onde há fortes chuvas na região. Estudo feito pelo movimento e entregue ao MPF e ao MP-RJ (Ministério Público do Rio) aponta que, entre 2000 e 2010, a ETA do Rio Guandu foi paralisada parcialmente 22 vezes por conta do grande aporte de sedimentos e poluição em sua área de captação.

Sergio Ricardo critica o fato de a Cedae não ter tomado nenhuma medida para resolver a questão da geosmina na água. “Foi confirmado pela própria Cedae que, em 2004, esse problema já havia ocorrido. E agora descobrimos que, 15 anos depois, nenhuma medida foi tomada. Não atuaram para resolver as causas do problema e nem incluíram a geosmina no monitoramento”, diz, lembrando que isso já é feito por estados como São Paulo e Minas Gerais.

Foto: Rafael Daguerre / Mídia1508
Foto: Rafael Daguerre / Mídia1508
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