No último sábado, dia 26, aconteceu a Marcha Antifascista de na Praça da Sé, que reuniu diversos coletivos e organizações populares. Obviamente, o primeiro ano do mandato de na presidência do país foi um dos principais alvos da mobilização, mas este ano a Marcha também celebrou um importante “aniversário” para a esquerda brasileira: há 85 anos, a mesma Praça da Sé viu acontecer a chamada “Revoada das Galinhas Verdes”, uma das principais demonstrações de força do brasileiro.

Ocorrido em 7 de outubro de 1934, a “Revoada” – também conhecida como “Batalha da Praça da Sé” – marca o episódio em que a Frente Única Antifascista (composta por anarquistas, comunistas, socialistas, sindicalistas e outros setores progressistas) dissipou um comício da Ação Integralista Brasileira (AIB), um movimento de extrema direita com inspiração no fascismo italiano e no nazismo. Mesmo armados e como sempre com apoio policial, os integralistas foram dispersados. O fato foi chamado de “Revoada dos Galinhas Verdes” porque, além do verde-oliva ser a cor símbolo da AIB, o “Jornal do Povo” estampava em sua capa: “Um integralista não corre: voa”.

Outra pauta da Marcha é contra o das populações periféricas, pretas, pobres, e LGBTs. A sempre foi um problema no país, independente do governo, contudo, inegavelmente a vitória de Bolsonaro e seus aliados aprofundaram a política de morte contra a classe trabalhadora.

Foto: Nikos Nikola

COMUNICADO SOBRE A MARCHA ANTIFASCISTA 2019, SÃO PAULO

A Marcha Antifascista 2019 foi coordenada pela Ação Antifascista São Paulo, junto com diversos coletivos e organizações populares: Antar. ARC, Bueiro Periférico. C16, DM16, FeminiVegan, FOB-SP, Mandela Free, Núcleo do Grajaú, OASL, P16, RASH, Rayo Proletário, Rede de Proteção e ao Genocídio e RP-Sindical.

Foram 2 meses de reunião em que foram preparadas comissões de propaganda e agitação, segurança e trajeto. Foi discutido o tom da Marcha esse ano, em que somou-se ao acúmulo de anos anteriores (contra o genocídio, a repressão e corte de direitos) também uma pauta ambiental e anti-imperialista (‘nem entreguismo, nem imperialismo, pela autodeterminação dos povos da floresta’). Como sempre, fez-se a memória do confronto entre Integralistas e Antifascistas em 1934, chamada ‘A Revoada das Galinhas’, em que os Antifascistas saíram vitoriosos. No trajeto, saímos da Sé, passamos pela antiga sede dos Integralistas e terminamos no antigo DOPS (Luz).

Pela primeira vez em 3 anos, a Marcha conseguiu chegar ao fim do trajeto desejado sem repressão. Isso foi possível devido às reuniões e alinhamento dos coletivos, que entenderam o momento e decidiram por uma estética menos ‘hostil’ (sem cobrir o rosto) e fazer agitação com os trabalhadores da região através de jornais, panfletos e conversas; também tivemos a presença da Fanfarra Clandestina, que manteve ritmo.

Uma semana antes da Marcha, o perfil de Twitter do Bolsonaro e de outros quadros do PSL, compartilharam massivamente a Marcha incentivando a extrema direita ao confronto. Conseguimos uma concentração de 500 pessoas, que afastou a possibilidade de conflito junto à disciplina dos organizadores às deliberações das reuniões. A polícia esteve presente em peso, de forma hostil, coldre aberto e envelopando os manifestantes do começo ao fim, filmando e fotografando cada um presente.

Os cantos incentivaram os presentes, dando grande eco entre a população presente no centro de São Paulo, a união entre diversas organizações demonstrou-se de extrema importância no combate ao fascismo seja em sua forma clássica ou neoliberal.

Por Nikos Nikola (Centro de Social Paul Z. Simons, ligdo à FOB-SP)

Foto: Nikos Nikola

História: A Revoada dos Galinhas Verdes

O 7 de outubro de 1934

As notícias das agressões integralistas chegavam de várias partes do país elevando as tensões e preparando o conflito que se avizinhava. Nesse clima é tornada pública a notícia de que os fascistas realizariam no dia 7 de outubro de 1934 uma grande marcha em São Paulo em comemoração ao segundo aniversário de fundação da Ação Integralista Brasileira (AIB), tomando como referência a Marcha sobre Roma patrocinada pelos fascistas italianos.

O intuito de Plínio Salgado e seus correligionários era se colocar enquanto força política fundamental na manutenção do governo Vargas, acessando assim as estruturas de poder do Estado. No contexto de crise econômica e política, o fascismo se esforçava para se tornar uma via política possível perante as classes dominantes. A existência dessa possibilidade representava uma ameaça de morte à classe trabalhadora.

Ciente dessas questões, a Frente Única Antifascista – FUA (que era uma frente de massas que contava com a participação de anarquistas, trotskistas, situacionistas, estudantes em geral e até liberais ditos democratas, além de militantes do PCB) buscou articular uma contramanifestação, convocando todas as organizações afiliadas, mais o próprio Partido Comunista Brasileiro e o Socorro Vermelho. Sob a ameaça por parte dos fascistas da utilização dos mesmos métodos empregados na Europa, a frente aprova a realização da contramanifestação na mesma data e local dos integralistas.

Cada organização envolvida ficou responsável por mobilizar um contingente de pessoas para a praça e providenciar mecanismos de defesa para executar a proposta votada, que era impedir que os integralistas tomassem as ruas. É importante ressaltar que um compromisso dessa envergadura colocava que nenhuma organização deveria recuar da sua execução. Os stalinistas não aceitaram a direção militar da frente, mas se comprometeram a estarem presentes, assim como os anarquistas.

O responsável pelos grupos de defesa da FUA, João Cabanas, ficou com a tarefa de organizar três grupos dispostos no entorno da Praça da Sé para fazer face às hostes fascistas. A força pública começa então a ocupar a praça e evacuar prédios no início da tarde. Por volta das 14 horas o local já estava totalmente tomado por algo em torno de 400 homens da cavalaria, artilharia e corpo de bombeiros.As escadarias também já estavam ocupadas por crianças e moças integralistas e por uns poucos milicianos. As hostes fascistas se distribuíam ao longo da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, da altura da Av. Paulista até a Rua Riachuelo próximo ao Largo São Francisco, onde se localizava a sede dos integralistas. Calcula-se algo em torno de quatro mil camisas-verdes advindos de várias cidades do Estado e mesmo de outros Estados, como o .

O primeiro incidente dar-se-ia com uma metralhadora acidentalmente disparada por homens da força pública que deixou alguns feridos e um morto. Passado curto período do incidente, com a praça já tomada pelos fascistas, Fúlvio Abramo, jornalista trotskista brasileiro, tenta realizar um breve discurso, mas acaba sendo atacado com uma rajada de balas dando início ao conflito armado, que envolveu os fascistas, os militantes de esquerda e parte da força pública.

Os tiros partem de todos os lados causando a morte do militante do PCB, Décio Pinto de Oliveira, e deixando outra dezena de feridos, dentre eles Mário Pedrosa. A força pública teve um saldo de três agentes mortos e vários feridos. Quanto aos integralistas não se tem o número preciso. O grosso do contingente integralista saiu em disparada da praça abandonando seu uniforme verde por vários pontos da cidade, daí o nome “Revoada dos Galinhas-Verdes”.

Ao início da noite, a praça já estava totalmente deserta e o que seria um momento de apoteose do fascismo no Brasil significou o início de sua derrocada. A ideia da contramanifestação alcançou seu êxito, a saber, dissolver a manifestação integralista. E assim, os antifascistas ganharam a batalha das ruas.

Um ato tão memorável como esse tem muito pouco ou quase nenhum destaque na História do Brasil ou mesmo da esquerda, em partes é explicável pelo destino de seus integrantes e seus futuros políticos. O PCB foi à contragosto arrastado pelos acontecimentos, a LCI praticamente deixou de existir sobre os ataques do Estado Novo e os outros agrupamentos dispersaram-se. Passado esse momento e já no inicio de 1935, o PCB lançará a ANL que colocará ponto final a FUA pelo seu esvaziamento.

Mas, como nas palavras de Mário Pedrosa, o 7 de outubro de 1934 foi um dia memorável para a classe trabalhadora brasileira e deve ser comemorado e rememorado para que tenhamos em mente que as nossas divergências são importantes, no entanto em determinadas conjunturas é necessária a mais ampla unidade da classe contra seus inimigos: a classe burguesa e seus lacaios fascistas em qualquer lugar do mundo.

Foto: Nikos Nikola

Foto: Nikos Nikola

Foto: Nikos Nikola

Foto: Nikos Nikola

Deixe seu comentário: