Um líder indígena foi encontrado morto no início da semana na aldeia Mariry, em Pedra Branca do Amapari, a 200 km de Macapá. Segundo lideranças da comunidade e funcionários da Secretaria Estadual dos Povos , o cacique  foi atacado enquanto voltava da casa da filha. O corpo foi encontrado esfaqueado dentro de um rio. Ainda de acordo com os relatos, crime se deu em meio a uma invasão de um grupo de cerca de 50 garimpeiros ao território tradicional.  Acuados, os indígenas se refugiaram na aldeia vizinha Aramirã, para onde crianças e mulheres foram levadas.

“Eles [garimpeiros] estão armados com metralhadoras e estamos em perigo. […] Se não chegar apoio nós vamos agir logo. Estamos com medo”, afirmou a liderança Jawaruwa   em uma mensagem de audio. Além do assassinato de Emyra, os indígenas denunciam ainda que um outro cacique, Arawyra, foi vítima de uma tentativa de homicídio nesta sexta-feira (26). Ele estava com sua mulher e uma neta em uma plantação quando foi surpreendido por cinco homens, que atiraram contra a família.

O assessor técnico da Secretaria dos Povos Indígenas do Governo, Makreito Wajãpi, explica que esse tipo de situação não tem precedentes na história recente da região. “É a primeira vez que aconteceu isso na nossa vida. Ficamos muito preocupados e tristes, porque temos família, crianças, e nossa preocupação é isso.”

Indígenas da aldeia Marirí fugiram para aldeia Aramirã. Foto:Reprodução

O território Wajãpi fica próximo à divisa com o Pará e é lar 1.300 indígenas dessa etnia. Demarcado em 1996, abrange uma área de 6.000 quilômetros quadrados ricos em ouro, muito cobiçado por garimpeiros. Somente os indígenas possuem autorização para, de forma artesanal, explorar o ouro. Metade do território está dentro da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), que o Governo Michel Temer (MDB) tentou extinguir em setembro de 2017, por meio de decreto presidencial. A reserva abarca 4,6 milhões de hectares de floresta amazônica entre os Estados do Pará e e representa um empecilho para a atuação empresas mineradoras na região.

O presidente (PSL) tem um projeto para legalizar o garimpo em terras indígenas na . Neste sábado, explicou que buscará parcerias com os Estados Unidos para explorar a mineração nessas regiões, motivo pelo qual o qual pretende colocar seu filho, Eduardo, na embaixada dos Estados Unidos. Sobre a reserva Yanomami, Bolsonaro argumentou: “Terra riquíssima. Se junta com a Raposa Serra do Sol, é um absurdo o que temos de minerais ali. Estou procurando o primeiro mundo para explorar essas áreas em parceria e agregando valor. Por isso, a minha aproximação com os Estados Unidos”. Os conflitos pipocam por todos os lados: no último dia 10, por exemplo, o barrou um liderança e cinco estudantes indígenas de entrar no próprio território, na Terra Indígena Alto Rio Negro, no .

O assédio de garimpeiros, madeireiras e ruralistas são uma constante ameaça aos povos originários que vivem em territórios da Amazônia e da região centro-oeste do país. Houve aumento de 62% nos registros de invasões e exploração ilegal de recursos naturais em comunidades indígenas – homologadas ou não – entre 2016 e 2017, de acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Além de ameaçarem e atacarem os indígenas, os invasores estão destruindo extensas áreas de mata. Segundo dados do Instituto Socioambiental (ISA), 80% da devastação florestal registrada entre agosto de 2017 e julho de 2018 se deu apenas em dez reservas indígenas. Na comparação com o  biênio anterior, o desmatamento total no conjunto dessas terras saltou assustadores 124%, de 11,9 mil hectares para 26,7 mil hectares,  uma extensão maior do que a da cidade de Recife.

Esse índice equivale a quase dez vezes o aumento no ritmo do desflorestamento de toda a Amazônia, de 13,7%. Em toda a região, foram destruídos 790 mil hectares de mata, o equivalente a mais de cinco vezes o município de .

Com a chegada de Bolsonaro ao poder, os ataques aos territórios tradicionais parecem ter ganhado novo fôlego. As críticas do líder de extrema direita e dos ruralistas e militares que compõem o seu governo à demarcação de terras indígenas vem encorajando a grilagem nessas áreas. Segundo levantamento realizado pela entidade Repórter Brasil apenas em fevereiro de 2019 já havia pelo menos 14 terras indígenas já demarcadas invadidas no país.

“O pessoal está sem medo de entrar na nossa terra”, denunciou no início deste ano Adriano Karipuna, liderança indígena na Terra Indígena Karipuna, em Rondônia. Ele relata que, em janeiro, seus parentes encontraram cerca de 20 invasores na estrada com foices e motosserras.

“Bolsonaro prega que índio não precisa de terra, que não trabalha, que é como animal num zoológico. Quem já tinha maldade para fazer isso está agora recebendo apoio” avaliou o líder Karipuna.