Milicianos de tiram foto junto com vítima antes de executá-la — Imagem: Reprodução

Policiais militares do batalhão de Itaboraí, na região metropolitana do Rio, ganhavam presentes da que domina a cidade para entregar presos aos paramilitares, que os executavam e enterravam em cemitérios clandestinos. Em depoimentos prestados à Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DHNSG), os milicianos Jameli Alves e Celso de Souza descreveram em detalhes a prática, batizada pelo bando de “venda de cabeças”.  Os dois também delataram que eram chamados pelos agentes para participar da invasões à áreas controladas por quadrilhas rivais.

Jameli conseguiu até identificar um dos detidos que foi capturado pelo policial e entregue ao bando: Douglas Lino Neves, que foi encontrado morto dias depois. O paramilitar deixou claro que “o PM tinha conhecimento de que a milícia mataria os “vagabundos” que ele levasse”. Pela “venda”, o soldado recebeu “um veículo BMW branco como pagamento”, afirmou em depoimento.

Já Souza revelou que um outro soldado do 35º BPM chamava milicianos para operações conjuntas em áreas dominadas por facções em disputa com o grupo. Nessas ações — chamadas de “botes” pelo bando — o objetivo era matar varejistas de entorpecentes para roubar dinheiro, armas, joias, relógios e o que mais a quadrilha encontrasse. Numa ocasião, o “bote” rendeu aos milicianos duas gaiolas com passarinhos — um coleirinho e um trinca-ferro. Em outra, os criminosos usaram uma viatura do batalhão. O espólio era dividido entre os envolvidos. O policial costumava ficar com as pistolas roubadas.

Nove PMs já foram identificados como fazendo parte do esquema. Os soldados Cláudio Quintanilha e Luís Paulo dos Santos foram presos, no decorrer do inquérito, por execuções de supostos traficantes. O cabo Thalisson Gomes de Oliveira se entregou à polícia no último dia 4, após a Justiça expedir um mandado de prisão contra ele por participação em uma chacina realizada no início do ano. Um outro PM que participou da matança também foi citado num depoimento que faz parte do processo judicial, mas não teve a prisão decretada.

O crime ocorreu na noite de 20 de janeiro, na divisa entre Itaboraí e São Gonçalo. Por volta das 23h, três homens vestindo coletes à prova de balas e armados com pistolas e armas de grosso calibre, desceram de uma Pajero e assassinaram três pessoas em uma casa na rua da Igualdade, no bairro da Marambaia. Em seguida, o veículo — que levava três milicianos e, vestindo capuzes, dois cabos do 35º BPM — percorreu mais um quilômetro até uma barraca de lanches na Avenida Cabo José Rodrigues. Desta vez, só o motorista ficou no carro.  Outros três homens foram mortos. Uma mulher — a dona do estabelecimento — foi colocada, ainda viva, na mala do carro. Metros adiante, ela seria executada com um tiro de escopeta no rosto.

Milicianos exibem armas nas redes sociais. Foto: Reprodução

A carnificina, que foi descrita em detalhes por um ocupante do veículo à polícia, foi, ao mesmo tempo, a consumação de uma vingança e um recado. Os atiradores queriam retaliar a comunidade pela morte de Rodrigo Marques, um PM que morava na região e havia sido morto três dias antes a tiros. Nenhuma das vítimas tinha ligação com o caso.

A chegada da quadrilha à cidade remete ao início de 2018. Na época, um grupo de milicianos chefiado por Renato Nascimento Santos, o Renatinho Problema, saiu de Jacarepaguá, zona oeste do Rio, rumo ao município. Foragido, Renatinho queria retomar suas atividades num local em que sua atuação chamasse menos atenção.

Foi para Itaboraí visando a um faturamento maior por causa do Complexo Petroquímico do (Comperj), cujas obras foram retomadas no ano passado. Uma das táticas seria a cobrança de vans que faziam transporte de funcionários para o polo da Petrobras no município.

Com a benção de Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica — chefe de um dos maiores grupos paramilitares do Rio — Renatinho passou a arregimentar comparsas e armas. À tiracolo, levou seu braço direito, o sargento Fábio de Souza Costa, o China. De serviço, ele batia ponto na UPP do Borel. Nas folgas, ajudava Renatinho a tomar o controle de sete bairros de itaboraienses, mais da metade da área urbanizada do cidade, onde vivem 240 mil pessoas.

Preso no início de julho em sua casa em Rio Bonito, China havia assumido o posto de representante de Curicica na região após trair Renatinho Problema. Um documento anexado ao inquérito revela que o sargento informou o esconderijo do ex-chefe a agentes da 82ª DP (Maricá), que prenderam Renatinho em 18 de dezembro do ano passado.

Tortura como punição

Para punir moradores que eram considerados ameaças — e passar uma mensagem ao resto da população — a milícia de Itaboraí recorria a sessões públicas de tortura. Numa delas, em outubro de 2018, uma mulher grávida de dois meses perdeu o bebê. Na ocasião, um casal foi espancado na frente das duas filhas porque milicianos suspeitavam que eles passavam informações do grupo para traficantes.

A família teve que fugir do município após o crime. As vítimas foram algemadas e, em seguida, começou o espancamento. A mulher foi atingida por chutes na barriga. Já o homem teve um cano de pistola colocado na boca e foi agredido com um taco de sinuca. Depois das agressões, um dos criminosos obrigou o casal a se ajoelhar no chão e urinou no rosto dos dois. Por fim, eles foram obrigados a deixar a casa só com a roupa do corpo. O imóvel passou a ser ocupado pela quadrilha.

Um parente de um jovem que foi atacada pelo bando contou que os milicianos não poupam na crueldade.

“Pegaram meu enteado e deram umas porradas nele. Deram uns tapas na cara dele aqui. Quase mataram o garoto” denuncia.

Mensagem da milícia em muro de Itaboraí. Foto: Reprodução

“Discos voadores”

Sob o domínio da organização, a violência explodiu em Itaboraí. Mesmo tentando encobrir — com o auxílio de policiais — os assassinatos que cometia, o grupo paramilitar provocou uma escalada nos índices de homicídios dolosos e desaparecimentos no município. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), houve um aumento de 113% no número de pessoas desaparecidas de 2017 para 2018. Já os assassinatos cresceram de 95 em 2017 para 131 — um incremento de 37%.

Com a chegada dos milicianos, varejistas de entorpecentes começaram a aparecer mortos, com corpos deixados pelas ruas da cidade. No entanto, como isso estava despertando muita atenção, o bando modificou sua forma de agir, passando a ocultar os cadáveres. A partir de então, agindo com a ajuda de PMs, começaram a matar usuários de drogas, autores de pequenos furtos, familiares de membros de quadrilhas inimigas ou qualquer outra pessoa que entendiam como um entrave a suas ações.  O grupo chamava essas vítimas de “discos voadores”, porque sumiam de uma hora para outra.

O mototaxista Jonathas Freitas de Mendonça, de 19 anos, desapareceu em 5 de abril depois de ser perseguido no bairro Nova Cidade por homens num carro preto. Testemunhas contaram a parentes do jovem que, durante a fuga, ele foi baleado e caiu da moto. Ao tentar se esconder numa casa, foi capturado e colocado no porta-malas do veículo.

Jonathas: mototaxista teve coração arrancado. Foto: Reprodução

Semanas antes da perseguição, Jonathas denunciou, à Divisão de Homicídios ameaças que mototaxistas de Itaboraí sofriam por não pagar taxas estipuladas pela milícia — que cobrava R$ 20 semanais de cada profissional para que pudessem circular pela cidade.

Com medo, seus familiares se recusam a falar com a imprensa. Seu corpo até hoje não foi encontrado. Funcionários do Instituto Médico Legal (IML) de São Gonçalo contam que diariamente famílias de mortos pelos paramilitares vão à unidade tentar identificar cadáveres encontrados em Itaboraí. Como a maior parte dos corpos já se decompôs, a identificação só é possível a partir de exames de DNA — cujos resultados não têm prazo para sair. Até o fim desta semana, 15 cadáveres sem identificação serão enterrados como indigentes.

Em 12 de junho, um depoimento de dez páginas prestado por um miliciano preso no Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público detalhou o suplício a que foi submetido o mototaxista: Jonathas foi picotado, vivo, com um machado e teve seu coração arrancado.

O adolescente Marcos Antônio do Amparo Vieira, de 16 anos, é outro dos “desaparecidos” pela milícia. No dia 22 de março, ele estava sozinho em sua casa, no bairro da Caluge, quando  ouviu batidas na porta da frente e foi atender. No momento em que abria a porta, um homem vestido de preto e com o rosto coberto por uma touca deu um tiro com uma pistola em seu braço. Uma poça de sangue se formou na sala. Marcos Antônio foi amarrado e colocado por outros dois homens, também encapuzados, no banco de trás de um carro preto. Nunca mais foi visto.

“Só não queria que ele acabasse enterrado como indigente. Ele não queria saber de estudar, diziam que estava no tráfico. Mas ele tem família, queríamos nos despedir” desabafou um parente do jovem, que pediu para não ser identificado.

Apesar da dita “limpeza” (como os milicianos costumam se referir à sua atividade) e do pagamento das taxas de “segurança” pelos moradores, Itaboraí não ficou mais segura. Os roubos de cargas, por exemplo, dispararam: passaram de 126 em 2017 para 296 no ano seguinte, 136% de aumento. Já os roubos de carros cresceram 9%, de 966 para 1.217.

Na contramão, as prisões pelo crime de tráfico de drogas na área sob influência do grupo minguaram. Um levantamento feito pela DH mostra que as prisões por esse motivo nos sete bairros dominados pela milícia passaram de nove em 2017 para três em 2018. Em 2019, ainda não houve detenção por tráfico de drogas na região.

Marcos Antônio: adolescente foi raptado em casa. Foto: Reprodução.

“A milícia é o Estado”

Coordenadas por políticos e agentes da , como policiais e bombeiros militares, as milícias são o principal modelo de negócio criminal do . Praticam a extorsão sobre moradores sob o pretexto de oferecerem proteção. Com o tempo, passaram a explorar outras atividades ilícitas, inclusive ligadas ao tráfico de drogas. Estima-se que atualmente dois milhões de pessoas vivam sob o domínio de milicianos no território fluminense.

Autor do livro Dos Barões ao extermínio: a história da violência na Baixada Fluminense, o sociólogo José Cláudio Souza Alves estuda esse tipo de organização há 26 anos.  Em uma entrevista à Agência Pública realizada em janeiro deste ano, ele resume, com veemência: “A milícia é o Estado”:

“Há uma continuidade do Estado. O matador se elege, o miliciano se elege. Ele tem relações diretas com o Estado. Ele é o agente do Estado. Ele é o Estado. Então não me venha falar que existe uma ausência de Estado. É o Estado que determina quem vai operar o controle militarizado e a segurança daquela área. Porque são os próprios agentes do Estado. É um matador, é um miliciano que é deputado, que é vereador, é um miliciano que é Secretário de Meio Ambiente. Eu sempre digo: não é poder paralelo. É o poder do próprio Estado.”