Quilombolas denunciam invasão de terreno da comunidade em , na — Foto: Arquivo pessoal

O Quilombo , que fica em Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador, foi invadido neste domingo, 14. Segundo relatos, um grupo de cerca de dez homens armados que se identificaram como sendo da Polícia Civil, acompanhados de um autoproclamado “dono” do terreno, agrediu moradores e destruiu casas. O ataque aconteceu por volta das 8h30 da manhã, durante uma reunião de lideranças comunitárias.

“Estávamos em reunião na associação, quando chegaram uns moradores bem assustados. Eles falaram que estavam atacando os quilombolas. Alguns homens chegaram armados e agredindo, destruindo as casas de alvenaria e tocando fogo em barracos. Um rapaz ficou com o rosto desfigurado”, disse Ana Lúcia dos Santos Silva, 57 anos, presidente da Associação da Comunidade Quilombola do Quingoma.

Com cerca de 4 mil habitantes, a comunidade é certificada pela Fundação Palmares como remanescente quilombola desde 2013. Apesar disso, até hoje ainda não foi demarcada pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), situação que tem contribuído para agravar os conflitos de terra na região.

Os impasses se intensificaram a partir de 2016, quando a Concessionária Bahia Norte, empresa do grupo Odebrecht, começou a construir a Via Metropolitana, rodovia que cruza o território tradicional. “Chegaram com pessoas armadas, cortaram arames das cercas. Houve um grande conflito. Nós resistimos”, relata Ana Lúcia, popularmente chamada de Dona Ana.

Mãe de solteira de quatro filhos, a quilombola Raquel Rodrigues, 64 anos, conseguiu sobreviver durante boa parte da vida da caça de animais e frutas que eram cultivadas no Quingoma. Mas depois que condomínios foram construídos no entorno, os rios secaram e as matas foram derrubadas.

“Quando isso aconteceu a gente teve que ir para casa do branco. Não teve jeito, porque eles tiraram nossa fonte de renda. Aqui, cada pessoa tinha sua família que cultivava e vendia seu próprio alimento”, conta a dona de casa.

Dona Raquel nasceu e cresceu no quilombo, onde também criou seus filhos/Foto – MILENA ABREU

Capitaneados pela empreiteira, o governador Rui Costa e a prefeita de Lauro de Freitas, Moema Gramacho, ambos do PT, pressionam os moradores para diminuir o território que ocupam. Hoje, 578 famílias vivem em uma área de 1.284 hectares. O Estado quer reduzir para apenas 300 hectares, o que não englobaria nem 200 famílias. As demais receberiam títulos individuais.

“É uma proposta totalmente favorável ao setor imobiliário. Assim eles pressionam as famílias com títulos individuais a venderem suas terras. Porque é isso o que eles sabem fazer muito bem, é nos pressionar, é perseguir, é nos ameaçar. Eles dizem que nós não somos um quilombo, dizem que não temos nada a ver com quilombo. Tentam negar nossa história para ficar com as nossas terras”, avalia Ana.

Por conta de sua contra a , os moradores do Quingoma sofrem vários tipos de retaliações. No último dia 27 de setembro, o quilombola Reginaldo Santos de Jesus, conhecido como Mino, foi encontrado morto, após ficar desaparecido por um dia. Poucas semanas antes, no dia 13 de setembro, um imóvel pertencente à família de Dona Ana foi depredado. Em 2013, a presidente da associação teve sua própria casa invadida por um grupo de cerca de dez homens que, com armas em punho, a ameaçaram de morte e destruíram vários de seus pertences, inclusive objetos religiosos.

Moradores do Quingoma protestam contra redução do território tradicional. Foto: Reprodução

Os jovens não conseguem empregos na região quando no currículo colocam que são moradores do Quingoma. No quilombo não há um posto de saúde. A única escola infantil não é quilombola, nenhum dos funcionários moram na comunidade. A estrada que dá acesso ao quilombo é de chão batido, no verão reina a poeira e no inverno, a lama. O transporte é uma van velha caindo aos pedaços, que passa de hora em hora.

Filha de Dona Raquel, Rejane Rodrigues é uma das duas mulheres do Quingoma que conseguiu concluir o ensino superior. A trajetória para terminar o curso não foi fácil. Por vezes, a pedagoga precisou andar mais de cinco quilômetros, de madrugada, para voltar para casa.

“Foi uma luta essa faculdade, porque aqui não tem transporte, né? Mas aí um dia eu invadi a Câmara de Vereadores da cidade e falei que queria meu ônibus pra estudar. Invadi. Dei uma de maluca lá dentro. Aí eles mandaram”, lembra Rejane, atualmente aluna especial do mestrado da Universidade Estadual da Bahia. “Os novos capitães  do mato da Bahia Norte chegam aqui oferecendo dinheiro para a gente sair da nossa terra. Eles andam armados por aqui, para cima e para baixo, mas não temos medo. Já fui ameaçada aqui, mas não vou deixar eles destruírem a nossa terra” afirma a educadora.

Dona Ana denuncia ainda os abusos praticados pelos donos de terras ao redor do quilombo, os herdeiros dos latifúndios do passado. “Tem os sitiantes que exploram nossas meninas, violentam, compram virgindade. Exploram a mão de obra negra, ainda de forma escravizada, pagando pouco pelo trabalho que realizam. E quando não serve mais, não interessa mais, manda matar. Porque é isso que acontece com o povo negro. São esses mesmos senhores que ainda hoje massacram nosso povo, que nos privam da liberdade, que nos escravizam novamente”.

A liderança avalia que a ausência de políticas públicas por parte dos governos é parte da estratégia para tentar tirá-los da terra. “Eles fazem isso porque querem nos cansar, para que a gente sai daqui e deixe as terras pra eles. Isso aqui é ouro pra eles. Eles querem para especulação imobiliária. Eles querem tirar a gente daqui a força. A gente só serve para ser explorados como mão de obra barata. Querem seguir nos escravizando. Nos deixar sempre na senzala. Não sairemos daqui. Aqui é nosso lugar. Vamos resistir”.