Um incêndio destruiu completamente a casa de reza e da Aldeia Jaguapiru, na Reserva Indígena de (MS), na madrugada desta segunda-feira (8). Moradores da aldeia perceberam as chamas no início da manhã e chamaram o Corpo de Bombeiros. Uma equipe foi ao local, mas não conseguiu evitar a destruição total do espaço, considerado sagrado pelos .

Ñanderu Getúlio Juca

A comunidade está apreensiva porque a casa é o abrigo do Xiru, altar diante do qual os anciãos rezam, cantando e batendo o Mbaraka, instrumento utilizado para se comunicar com os espíritos. Na cosmovisão da etnia, a destruição destes artefatos pode ter implicações prejudiciais para as colheitas, o clima, os alimentos e a saúde dos indivíduos. Segundo os indígenas que tentaram combater o fogo, enquanto a casa queimava, os objetos de culto que eram ali protegidos, choravam e pediam socorro.

A construção era habitada pelo  Ñanderu Getúlio Juca, 75 anos, e sua companheira, a Ñandesy Alda Silva, 72, lideranças espirituais e figuras atuantes da Aty Guasu, assembléia dos povos Guarani e Kaiowa em luta pela retomada dos seus territórios. Por conta de sua militância, Getúlio é alvo de constantes ameaças, tendo denunciado algumas delas ao Ministério Público Federal (MPF).

No ano de 2013, investigações realizadas pelo órgão revelaram que parentes do indígena foram abordados por desconhecidos que lhes ofereceram R$ 500,00 para que revelassem o seu paradeiro. Um dos homens disse que “queria a cabeça” de Getúlio e que, em breve, eles “não teriam mais cacique”.

No dia 7 daquele ano, três lideranças foram abordadas quando chegavam à casa de reza que agora foi destruída. Eles contaram que “quando estavam chegando, entrou correndo atrás deles um carro, com farol alto, e fez uma manobra ‘tipo cavalo-de-pau’. Bem próximo à casa, desceu um homem branco, alto, de roupa preta. Olhou para as mulheres, que tinham descido do carro, e voltou ao seu carro. Esse movimento teria sido bem rápido, cerca de 2 minutos. O carro era um utilitário preto, cabine dupla, com faróis acesos no alto da carroceria. O homem não disse uma só palavra. Só olhou as pessoas, entrou no carro e saiu acelerando”.

Um dia antes, durante um encontro da Aty Guasu em Jaguapiru, duas mulheres que preparavam bebida típica já haviam ouvidos barulhos de galhos no quintal. Pensaram ser cachorros, e atiraram pedras e limões para espantá-los. Com isso, ouviram mais barulhos, “parecia de gente cansada, respiração ofegante”, afirmaram em depoimento. Viram um homem correndo em direção à estrada. O homem entrou num carro estacionado, que saiu em disparada. Passaram pela frente da casa. “Deu pra ver 4 homens dentro do carro cinza”, disseram.

Nos último 9 meses, pelo menos dez incêndios foram registrados em terras indígenas

Em apenas nove meses, diversos povos indígenas, de regiões variadas do Brasil, foram duramente atingidos por pelo menos dez incêndios, conforme levantamento feito pelo site De Olho nos Ruralistas. Alguns deles, pela forma com que iniciam – quase sempre na madrugada -, pela demora nas apurações e pela falta de conclusão nas investigações – deixam à mostra sinais de serem fruto de ações criminosas.

Um dia antes da destruição da casa de reza em Jaguapiru, o fogo tomou conta da aldeia Naô Xohã, da etnia Pataxó Hã-hã-Hãe, em São Joaquim de Bicas (MG), município atingido pelo crime ambiental da Vale em Brumadinho.  A indígena Célia Ãngohó, uma das liderança da comunidade, relata que uma garrafa plástica, com cheiro de combustível, foi encontrada horas após o fogo ter sido controlado pelos bombeiros.

No mesmo final de semana em que ocorreu o incêndio, um grupo de homens foi expulso por jovens Pataxó, após ser flagrado retirado retirando madeira da mata que rodeia o aldeamento. Os invasores estavam armados e disseram que voltariam à noite. Horas depois, na madrugada do domingo, alguns indígenas contam terem visto cinco pistoleiros na aldeia com os rostos cobertos dando tiros para o alto.

Os dois incêndios recentes envolvendo indígenas chamam atenção porque, além de terem o fogo como elemento comum, atingiram comunidades que são permanentemente ameaçados por atividades relacionadas ao agronegócio e à mineração. Esse tipo de violência – que sempre fez parte do cotidiano dos povos originários – parece ter se tornado ainda mais rotineira desde a eleição à presidência de , político conhecido por sua incitação ao ódio contra indígenas, e quilombolas.

Em Pernambuco, os Pankararu, que lutam contra posseiros por suas terras, sofreram três ataques incendiários, todos praticados pela parte da noite. O primeiro atentado foi no dia 29 de outubro, quando foram incendiados uma escola e um posto de saúde da família, localizados na aldeia Bem Querer de Baixo, no município de Jatobá. No dia 8 de novembro, um novo ataque destruiu uma igreja da comunidade. E, em 29 de dezembro, mais uma ocorrência – desta vez, o fogo consumiu outra escola da aldeia.

No fim de 2018, na Comunidade São Francisco, no Baixo Rio Envira, município de Feijó, no Acre, a casa do líder indígena Rui Nunes Kaxinawá foi destruída por um incêndio. Ele e sua família pertencem à etnia Huni Kuin e, quando o incêndio ocorreu, estavam em um seminário indígena organizado por Rui.

Neste ano, no dia 8 de fevereiro, mais uma Casa de Reza foi incendiada. As vítimas foram os indígenas Tarumã Mirim, do povo Guarani Mbya, em Araquari, no norte de Santa Catarina. Dias antes do episódio, moradores contam terem visto três drones sobrevoando a comunidade. O caso deixa poucas dúvidas sobre o fato de ser um crime: um indígena foi feito refém por três homens, no fim da tarde do dia 8, e levado à Casa de Reza, que, em seguida, foi incendiada.

Em março,  os Pataxó que habitam o Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal,  sofreram com um incêndio na reserva, que fica no município de Porto Seguro, litoral sul da . No mês de abril, a comunidade Guarani do Pico do Jaraguá, na capital paulista, também foi atingida pelo fogo. Em julho, indígenas desta mesma etnia, foram afetados por um incêndio não esclarecido na Reserva Indígena do Rio Silveiras, em São Sebastião, litoral norte de .