Manifestantes entraram em confronto com policiais em neste sábado (20/04), que marcou o 23° fim de semana de do movimento dos .   Os conflitos ocorreram após adeptos da tática black bloc atirarem pedras na polícia, que reagiu com bombas de gás lacrimogêneo e jatos d’água. Alguns militantes depredaram vitrines e atearem fogo a lixeiras e motocicletas na Praça da República. Pelo menos 227 pessoas foram detidas, incluindo menores de idade.

As manifestações reuniram aproximadamente 27.900 pessoas em várias cidades da , segundo balanço divulgado pelo Ministério do Interior às 19h (14h em ). Na capital, duas passeatas contaram com cerca de 9.000 participantes, contra 5.000 na semana passada. Desta vez, várias palavras de ordem fizeram alusões ao incêndio que atingiu a Catedral de Notre-Dame, na última segunda-feira.  “Milhões para Notre-Dame, e para nós, os pobres?” dizia um cartaz.

Um forte esquema de repressão foi montado, envolvendo 60.000 policiais em todo o território nacional.  Os agentes realizaram 20.500 revista desde as primeiras horas da manhã, confiscando todo tipo de objeto. Até capacetes de profissionais de imprensa foram apreendidos – sob o pretexto de que poderiam ser utilizados como projéteis durante o tumulto.

Um amplo perímetro ao redor da Catedral de Notre-Dame foi fechado para evitar ações perto do monumento. Como nas semanas anteriores, a polícia proibiu manifestações na avenida Champs-Elysées, em torno do Palácio do Eliseu e da Assembleia Nacional. Várias estações de metrô de Paris foram fechadas.

Em Bordeaux (sudoeste), centro de força do movimento, uma pequena multidão se reuniu na praça da Bolsa antes de iniciar a marcha, enquanto a polícia bloqueava o acesso às ruas do centro da cidade. Em Toulouse (sul), milhares de pessoas se reuniram em uma praça central. “Estou com medo, mas isso não me impediu de vir”, disse Claudine Sarradet, um aposentado.

Em Marselha (sul), cerca de mil coletes amarelos se reuniram para protestar no Porto Antigo.  Na cidade de Lille, no norte, centenas de pessoas se manifestaram pacificamente. “Macron não pode dar respostas porque não quer mudar sua política, a de ‘tudo para os ricos'”, disse Stéphanie, de 27 anos, dona de casa.

Segundo uma fonte policial, entre 200 e 300 pessoas se manifestaram em Rouen (norte), apesar de o protesto ter sido proibido.

Movimento critica golpe de marketing por trás doações

Os manifestantes não escondiam sua com a rápida mobilização para arrecadar fundos para a reconstrução da igreja incendiada. Apenas algumas horas após o incêndio, quase € 1 bilhão foram recolhidos para reformas que devem durar vários anos na Notre-Dame.  Duas das famílias mais ricas da França, os Pinault e os Arnault, ofereceram, respectivamente, € 100 e € 200 milhões. Além do grupo L’Oréal, da família Bettencourt-Meyers, que anunciou um aporte de € 200 milhões. Esse espetáculo de pretensa “generosidade” por parte dos bilionários intensificou a com a desigualdade social, que tem sido exposta pelos coletes amarelos:

“Faz cinco meses que há pessoas sendo mutiladas nas manifestações, como eu, que perdi um dos meus olhos. Ou cerca de vinte amigos meus que tiveram membros arrancados. Ninguém fala sobre isso, nenhum euro foi desbloqueado para nos ajudar. Somos vítimas dessa crise social, com emergências médicas, psicológicas, financeiras. Enquanto isso, tem gente liberando montantes enormes para comprar pedra e madeira”, se indigna o militante Jérôme  Rodrigues, que está cego do olho direito depois de ter sido atingido por um tiro de bala de borracha em um ato do movimento em janeiro.

O manifestante Frédéric Mestdjian endossa a reivindicação: “O que mais choca as pessoas é que, de um lado, conseguiu-se mobilizar todo esse dinheiro rapidamente para uma causa importante, mas material. Enquanto isso, há uma verdadeira emergência humana para a qual recebemos a resposta de que não há dinheiro”, afirma.

Mestdjian lembra que “em relação à catedral, há um interesse fiscal e também de imagem. É uma jogada de marketing desses doadores”. De fato, para estimular os franceses a contribuírem com os gastos da reconstrução, o governo anunciou uma redução de 75% no imposto de renda para desembolsos de até € 1.000. Além desse montante, a vantagem fiscal será um abatimento de 66%.

Os coletes amarelos também repudiaram o oportunismo com que o presidente Emmanuel Macron lidou com fato, se valendo da comoção nacional para tentar silenciar a oposição, com apelos a uma pretensa “união” dos franceses. Macron  havia se comprometido a realizar um pronunciamento na noite da segunda-feira passada (15), apresentando medidas para conter o descontentamento popular. Após o incêndio de Notre-Dame, no entanto, mudou seu discurso, passando a afirmar que as ações não mais tem data prevista para serem apresentadas.

Os coletes amarelos prometem se manter mobilizados. Outros atos do movimento já estão marcados, inclusive para o próximo 1° de Maio, Dia do Trabalhador, quando os militantes pretendem sair às ruas ao lado dos sindicatos.

“A mobilização continua dentro da ideia de permanecermos visíveis, mostrando nossa insatisfação. Não somos violentos, mas apenas pessoas revoltadas. Enquanto nossas reivindicações não forem consideradas, continuaremos a sair às ruas. Desde que eu nasci, aqui na França, todos os movimentos de contestação acontecem nas ruas, isso é um direito nosso. A grande expectativa é de sermos ouvidos um dia”, conclui Rodrigues.

Manifestantes incendeiam motocicletas durante o 23º ato do movimentos dos coletes amarelos na França /Foto: Jeff J Mitchell