Um nova invasão foi registrada esta semana na Terra Indígena (TI) , próximo ao município de Governador Jorge Teixeira (RO), a 322 quilômetros de Porto Velho. Segundo a ambientalista Ivaneide Bandeira, mais de mil grileiros estão tentando tomar a aldeia. As famílias que vivem no local relataram que são ameaças por parte de posseiros e madeireiros, que seguem montando acampamentos e dividindo lotes de terras.

Um Uru-eu-wau-wau descreveu em áudio as intimidações feitas pelos grileiros ao seu povo, que acontecem, principalmente, quando os indígenas estão fora da reserva. “Quando vamos ao mercado, por exemplo, eles falam assim: ó, nós vamos cortar a terra de vocês. Vocês não vão ter terras mais” diz. “Eles ainda falam assim: se vocês tentarem nos enfrentar, vamos meter bala. Eles falam assim. Isso é triste, né?”

Em uma invasão anterior, que ocorreu há dois meses, a placa da Fundação Nacional do Índio (Funai), que fica na entrada da aldeia, foi encontrada com marcas de tiros. Na ocasião, o assessor da organização de defesa étnico ambiental Kanindé, Gabriel Uchida, disse que os indígenas informaram à entidade ter visto pelo menos 50 motos e homens armados com foices, facões e serras elétricas.

Uru-eu-wau-wau  mostra cápsula de munição usada contra placa da Funai, que indica os limites da reserva / Foto: Ueslei Marcelino

Vídeos gravados por indígenas no dia 11 de janeiro mostram grileiros sendo expulsos de dentro da terra indígena. Em um dos vídeos é possível ouvir um dos invasores afirmando que mais de 200 pessoas virão da próxima vez. Em outro, os indígenas mostram uma área já desmatada. Além disso, denunciaram que os criminosos ameaçaram crianças e pessoas que tentaram chegar perto de onde ocorria a invasão, a sexta contabilizada na reserva.

“Eles (invasores) estão prometendo essa terra para várias pessoas das cidades do entorno e também estão ameaçando os indígenas, coisa que já fazem há muito tempo”, pontuou Gabriel.

“Eles derrubaram madeira, fizeram destruição de 25 km dentro da terra indígena. É importante dizer que há muitas aldeias dentro da TI e que eles estão com muito medo. O cacique da aldeia não pôde nos acompanhar até aqui, pois temeu deixar as mulheres e crianças da comunidade sozinhas e serem atacados”, relatou Ivaneide, durante um evento no início do ano em Porto Velho, para o qual foram trazidas duas lideranças Uru-eu-wau-wau.

Criança Uru-eu-wau-wau /Foto: Ueslei Marcelino

Segundo a ambientalista, o conflito entre os grileiros e indígenas é iminente.

“Esse tipo de grilagem perto da aldeia é a primeira vez ao longo da história da TI Ure-eu-wau-wau. Eles já grilavam em vários pontos da unidade, mas próximo deles é a primeira vez. É algo escandaloso”, afirma Ivaneide.

Para Maria Petroníla, coordenadora da Comissão da Pastoral da Terra na região, é possível que políticos e latifundiários estejam por trás das invasões. “Se fosse o caso de uma ou cinco famílias que entrassem nas terras indígenas era mais fácil para o Estado desvendar. Mas como se trata de um grupo maior, com uma força econômica muito grande, evidentemente que será muito mais difícil”, acredita.

Grilagem põe em risco abastecimento de água e energia em

A terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau tem 1.867.000 hectares de tamanho. A unidade de conservação, a maior terra indígena dentro de Rondônia, é rica em biodiversidade e abriga nascentes de importantes rios que cortam o estado.

Ambientalistas denunciam que, caso a grilagem avance, a produção de energia através de hidrelétricas poderia ser comprometida, tendo em vista, que o Parque Nacional de Pacaas Novos abriga, por exemplo, a nascente do rio Jamari que abastece a Usina Hidrelétrica de Samuel, em Porto Velho.

Além disso, a agricultura e o próprio agronegócio, poderiam sofrer sérias consequências com a possível falta de água. Outro impacto seria a desestabilização climática na região, importante fator para o cultivo de algumas culturas específicas.

Por fim, a própria vida dos indígenas que habitam a região demarcada está em risco. Isso porque cerca de dez aldeias, vários povos nômades, além de três povos isolados habitam a região. A sobrevivência desses indígenas é dependente da agricultura, caça e extrativismo.

Ao menos 14 terras indígenas estão invadidas no país

Segundo levantamento realizado pela entidade Repórter Brasil em fevereiro deste ano há pelo menos 14 terras indígenas já demarcadas sob ataque no país. Apenas em Rondônia, além da Uru-Eu-Wau-Wau, outras duas terras indígenas estão invadidas ou sendo ameaçadas, as dos povos Karipuna  e Karitiana. No Pará, são pelo menos cinco homologadas sendo invadidas, somente na região de Altamira, nos últimos meses de 2018, segundo informações da Funai: Arara, Koatinemo, Trincheira Bacajá, Apyterewa e Cachoeira Seca, estas duas últimas com um longo histórico de conflitos, nunca resolvidos.

O problema se repete no Maranhão (terras indígenas Araribóia, Awa e Caru), na terra Pankararu, em Pernambuco, na terra Tupiniquim, no Espírito Santo, na terra Kadiweu, que segue ocupada por pecuaristas no , onde grande parte das terras não está regularizada – uma situação que se arrasta por décadas.

Cerca de 220 ameaças às comunidades indígenas no país são feitas por fazendeiros e pecuaristas, enquanto outras 207 são relacionadas à madeireiros e 139 ligados à posseiros, segundo monitoramento do Instituto Socioambiental. O banco de dados, apesar de registrar conflitos intermitentes, dá uma ideia da dimensão do problema.

Houve aumento de 62% nos registros de invasões e exploração ilegal de recursos naturais em comunidades indígenas – homologadas ou não – entre 2016 e 2017, de acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que deve divulgar neste mês os dados de 2018. Além de ameaçarem e atacarem os indígenas, os invasores estão destruindo extensas áreas de mata.  Em outubro de 2018, o sistema de monitoramento do Instituto Socioambiental encontrou 42 focos de desmatamento apenas na TI Uru-eu-wau-wau.

Invasores enfrentam os Karipuna com foices

“O pessoal está sem medo de entrar na nossa terra”, afirma Adriano Karipuna, liderança indígena na Terra Indígena Karipuna, em Rondônia. Ele relata que, em janeiro, seus parentes encontraram cerca de 20 invasores na estrada com foices e motosserras. Mais de 10 mil hectares foram desmatados nos últimos quatro anos no território dos Karipuna, segundo o Cimi. A última invasão veio também com ameaças. Após o Natal, Adriano ouviu um alerta de um conhecido: “Avisa que o pessoal vai dar sumiço no Adriano e no irmão dele”.

“Bolsonaro prega que índio não precisa de terra, que não trabalha, que é como animal num zoológico. Quem já tinha maldade para fazer isso está agora recebendo apoio” avalia o líder Karipuna.

Uma liderança de Pitaguary, no Ceará, reforça que os ataques à comunidades indígenas explodiram desde que o militar assumiu a dianteira das pesquisas eleitorais, no final do ano passado: “Uma liderança nossa levou um tiro. Um outro foi queimado por defender nossas terras. E agora vai piorar”.

Diante da cumplicidade cada vez maior do Estado com as violações de seus direitos, os povos originários têm protegido eles próprios suas terras. Caso do povo Guajajara, do Maranhão, que criou o grupo Guardiões da Floresta há oito anos, hoje com 120 integrantes. Em vídeo gravado pelos indígenas em dezembro de 2018, os guardiões repreendem madeireiros ilegais encontrados desmatando seu território. “Não tenho nem ideia da quantidade de vezes já expulsamos os madeireiros’, conta Tainaky, uma das lideranças da etnia.

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