Militantes antifascistas e integrantes da extrema direita se enfrentaram na tarde deste domingo (31) em frente ao prédio da Federação de Indústria de (Fiesp), na Avenida Paulista. Com camisetas e bandeiras exaltando o Brasileiro e o presidente , os direitistas entraram em confronto com um grupo que vestia preto e seguia em direção ao Ibirapuera para a Caminhada do Silêncio, em memória das vítimas da regime militar.

A pancadaria começou após duas mulheres atacarem com um taser e spray de gengibre ativistas de movimentos sociais que haviam retirado balões colados na estação Trianon-Masp, como parte de uma comemoração pelos 55 anos do golpe de 1964. Além do gás e das armas de choque, manifestantes pró-ditadura usaram paus de bandeira para agredir os militantes contrários à celebração, que, mesmo desarmados, reagiram com socos e pontapés.

Antifas destroem bandeira tomada da mão de simpatizantes da ditadura | Foto: Reprodução

Uma das mulheres que iniciou a confusão foi identificada como Isabella Trevisani, de 22 anos, do grupo Despertar Patriótico/ Direita Unida. Ela exibe nos braços duas tatuagens: a frase “Brasil acima de tudo” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”, junto a uma caveira com um quepe do Brasil. Era Trevisani que trazia o taser e quem primeiro utilizou o spray – de efeito semelhante ao de pimenta – contra mulheres do movimento Democracia Corintiana, a quem xingou, aos berros, de “putas feministas”.

Isabella Trevisani com spray de gengibre | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Isabella carrega um taser e o símbolo da paz em uma pulseira | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Outro agressor identificado foi o vigilante Alexandre José Pereira Neves, que aparece em imagem divulgadas nas redes sociais com uma barra na mão. Ele vestia uma camiseta do falecido político de direita Enéas Carneiro, calça camuflada e coturnos. Neves aparece na fotografia abaixo agredindo uma mulher, também integrante da Democracia Corintiana.

Alexandre Neves agride mulher em ato pró-ditadura | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Vigilante usa mastro de bandeira para atacar ativista desarmado | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

O assessor da deputada federal Carla Zambelli (PSL) Leandro Mohallem tomou parte do conflito pelo lado dos pró-ditadura. Levou a pior. Após ser surrado pelos antifascistas, foi transportado para o hospital da Barra Funda pela PM, onde levou pontos na cabeça e ficou sob observação.

Leandro Mohallem (de amarelo) confronta militantes na Avenida Paulista. | Foto: Reprodução

Assessor de deputada é chutado por manifestantes | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Em 2016, Leandro foi um dos organizadores de um ato saudando o presidente estadunidense Donald Trump. É ele quem aparece neste vídeofazendo um discurso em um inglês de difícil compreensão. Desta vez, no entanto, tentava passar uma imagem pretensamente mais “nacionalista”:

“Eles chegaram agressivamente, só porque eu estava com a minha camisa “Meu partido é o Brasil”. É crime ser brasileiro neste país?” se queixava, enquanto era escoltado por policiais, após ter apanhado.

Um jovem negro foi levado algemado em uma viatura da Guarda Civil Metropolitana, acusado de ser o suposto causador dos ferimentos de Mohallem. Enquanto era preso, o rapaz ouvia um sermão do manifestante pró-ditadura Davi Benedito, de 57 anos, que perdeu um dente durante a briga. Nenhum manifestante de extrema direita foi detido.

“A gente tem o direito de comemorar o golpe, vivemos numa democracia” reclamou o direitista Davi Benedito, que perdeu um dente no conflito | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Na frente da 78ª Delegacia de Polícia, militantes bolsonaristas e pró-ditadura se uniram e passaram a fazer ameaças ao rapaz detido, ligado ao movimento antifascista. “A gente vai acabar com ele a hora que sair por essa porta”, ameaçava um homem que vestia uma camiseta com a inscrição “Exército Brasileiro”.

Enquanto o delegado Mauricio de Thomazi Guedes decidia como ia conduzir o caso, policiais militares chegaram com dois detidos. Os pró-ditadura se alvoroçaram e quando o porta-malas da viatura abriu, Trevisani, fotografou a dupla e postou nas redes sociais com uma mensagem incitando o ódio aos dois, a quem chama de “vagabundos do PT”.

Também esteve na delegacia o agricultor Guilherme Flach, que estava passeando na Avenida Paulista, quando viu o tumulto e se aproximou por curiosidade. Como estava perto do grupo antifascista, passou ser alvo de xingamentos e começou a fazer uma transmissão ao vivo do seu celular pelo Instagram. Neste momento, Isabella o ameaçou com a arma de choque.

Isabella ameaça cinegrafista com o taser

“Ela me deu um tapa e começou a gritar que eu tinha batido nela, que eu era agressor. Eu disse que não, ela jogou spray na minha cara. Eu vim aqui na delegacia porque quero fazer um boletim de ocorrência contra ela por calúnia e uso de arma de uso restrito”, afirmou Guilherme.

O taser de Isabella foi apreendido e o delegado confirmou que o armamento, possivelmente de origem paraguaia – possui restrições ao uso. “Pode matar gente cardíaca, por exemplo”, disse um investigador no corredor da delegacia.