Um grupo de 100 manifestantes foi até a Caixa Econômica Federal do Relógio de São Pedro, na Avenida Sete de Setembro, centro de , na tarde desta terça-feira (26), repudiar um episódio de sofrido pelo dono de farmácia Crispim Terral, de 34 anos. Apenas quatro dias depois de o jovem Pedro Henrique Gonzaga, de 19 anos, ter sido estrangulado até a morte por um segurança de supermercado no Rio, Crispim foi agredido com um “mata-leão” por um policial militar, após uma discussão com um gerente da instituição financeira. A abordagem violenta foi realizada pelos soldados Roque da Silva e Rafaeal Valverde Nolesco.

O caso aconteceu no último dia 19, mas veio a público nessa segunda-feira (25), quando Terral decidiu divulgar um vídeo em que aparece sofrendo a imobilização. A gravação, feita por celular, foi realizada por sua filha, de 15 anos.

O empresário foi à agência para receber o comprovante de pagamento de dois cheques. Nas imagens é possível ver que ele aceita ser levado para uma delegacia junto com o gerente geral da unidade depois que os dois se desentenderam. Mas o funcionário se nega. Ele diz que só aceitaria ir à delegacia se o cliente deixasse o local algemado.

na agência da Caixa / Foto: Betto Jr.

Crispim, então, insistiu para que não o algemassem. “Eu não negocio com esse tipo de gente”, respondeu o gerente. Para o empresário, foi aí que o racismo ficou escancarado:

“Quando o gerente se referiu a mim como ‘esse tipo de gente’, eu entendi que estava sendo vítima de um ato de preconceito racial. Eu vi repúdio no olhar dele e na expressão logo que cheguei, mas eu ignorei isso para resolver o problema”, recorda o empresário, que participou do protesto.

Depois de ser imobilizado, Crispim foi levado para uma delegacia onde foi autuado por “desobediência” e “resistência”. Na sequência, procurou uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) por sentir dores no pescoço, na cabeça, maxilar e em um dos ombros. “Foi muito humilhante para mim e para milha filha que viu tudo”, pondera. Ele denunciou a ação dos PM’s à Corregedoria e agora pretende tomar as medidas cabíveis em relação à Caixa e à PM.

“Minha filha ficou dois dias sem dormir por conta dessa situação. Eu como pai fiquei arrasado por vê-la passar por isso. Em pleno século XXI não podemos aceitar mais isso. As pessoas não podem se calar diante dessas situações”, disse. “Tem muita gente revoltada, principalmente quem me conhece porque sabe que tenho uma tranquilidade imensa”.

O protesto

Liderança do coletivo CMA Hip hop, o militante Hamilton Oliveira, conhecido como DJ Branco, de 37 anos, explicou à imprensa local que o ato foi organizado pela internet, em cerca de duas horas.

Tínhamos que fazer hoje. Essa é uma das agências mais populares da cidade que tem uma quantidade enorme de negros, nós somos a maioria. Não podemos aceitar esse racismo institucionalizado, viemos dizer à sociedade que Crispim não está sozinho. O racismo mata o nosso povo de várias formas”, comentou.

O ato, que durou cerca de uma hora, contou com a presença de representantes do movimento negro e chamou a atenção de clientes que aguardavam no local.

O psicólogo e professor Walter Takemoto, 64, que também esteve presente na manifestação, conta que o gerente da loja pediu que não entrassem, mas, ao notar que o grupo não cederia, não impediu.

“Se tivessem impedido nossa entrada, a gente ia bloquear as entradas, seria pior. Então, o que fizemos foi entrar e explicar aos clientes o porquê de estarmos ali, e que o que aconteceu com o Crispim foi, sim, racismo”, comentou. “Pediram que não filmássemos, mas também não aceitamos”.

Para Takemoto, não fosse o porte físico de Terral, o caso poderia ter tido um desfecho trágico:

“Não tem nem 15 dias que vimos coisa parecida com Pedro. E eu penso que se Crispim fosse mais jovem, mais franzino, quem sabe não poderia ter acontecido coisa pior. O golpe foi o mesmo” avalia.

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