Karai Mirim denúncia contra a comunidade / Foto: Amigos da Terra Brasil

Na madrugada desta sexta-feira (11), a comunidade Mbya de , em Porto Alegre (RS), foi atacada a tiros por pistoleiros. “Chegaram dois homens armados, encapuzados, dando tiros em cima do nosso barraco. As crianças ficaram todas assustadas, chorando. Eles falaram que vão esperar até domingo. Se a gente não sair, eles disseram que vão matar todo mundo, que não vai sobrar nenhuma pessoa. Foram muitos tiros”, relata a liderança Timóteo Karai Mirim.

Capsulas coletadas após o ataque / Foto: Reprodução

O aldeamento fica na , zona sul da capital gaúcha, às margens do rio Guaíba, numa zona de preservação ambiental que é, também, um importante sítio arqueológico do povo Guarani. Diante da ameaça, os convocam seus apoiadores a participarem de uma vigília no local. A concentração deverá ser a partir das 15h deste domingo (13), na praça Belém Novo. Informações sobre a mobilização estão sendo veiculadas através da página Retomada Mbya Guarani das Terras do Arado Velho.

Desde que retornaram para sua terra ancestral, em junho de 2018, os Guarani têm sofrido constantes ataques e intimidações. Naquele mesmo mês, homens armados, dizendo-se policiais, abordaram os indígenas dizendo que se não deixassem o local seriam removidos à força.  O acampamento se situa no perímetro da antiga Fazenda do Arado, de 426 hectares. Alvo de forte especulação, a região é cobiçado pela empresa Arado Empreendimentos Imobiliários.

Os Mbya são constantemente vigiados pelos seguranças do empreendimento imobiliário e de fazendas vizinhas. Os capangas já chegaram a ameaçar até os pescadores que faziam o transporte dos indígenas da comunidade e de seus apoiadores, de barco, e a inviabilizar o acesso dos indígenas à água potável.

Em dezembro, o conflito se agravou, com a instalação de uma cerca ao redor do acampamento, cerceando a locomoção dos índios, e a construção de uma casa para os seguranças da imobiliária dentro do território Guarani.

O interesse da Arado Empreendimentos no sul de Porto Alegre está ligado ao projeto de criação de um condomínio com mais de 1,6 mil unidades habitacionais. Em 2015, foi feita uma representação judicial protocolada pelo grupo Preserva Belém Novo, que contesta a viabilidade ambiental da empreitada.

A iniciativa, dos investidores Iboty e Eduardo Ioschpe, prevê o aterramento de uma área equivalente a 200 campos de futebol para a construção de ruas e casas — com a utilização de cerca de um milhão de metros cúbicos de terra (125 mil caçambas de caminhão).  Para torná-la possível,  o plano diretor de Porto Alegre teve de ser alterado, aumentando em 12 vezes o número de casas permitidas no Arado. Isso foi feito sem a realização de nenhuma audiência pública, o que é ilegal. Também tramita uma acusação de fraude na parte geológica do estudo apresentado pelo empreendimento.

Da esquerda para a direita: Iboty Ioschpe e o deputado estadual Fábio Branco / Foto: Reprodução

Atualmente, vigora uma liminar de 2017 que suspendeu a permissão para o início das obras. Os Mbya pleiteiam que o processo seja transferido do judiciário comum para o federal, em função de as demandas indígenas serem de responsabilidade da União. Reivindicam também do Ministério Público Federal e da Funai que adotem as medidas necessárias para que ocorra a demarcação definitiva.

A retomada

“Tekoha” (ou “Tekoa”, como pronunciam os Mbya) é uma palavra em Guarani sem tradução para o mundo branco. É o território onde os indígenas constroem casa de reza, trabalham para preservar a mata,  coletam ervas medicinais, desenvolvem sua própria agricultura, realizam rituais, fabricam peças de artesanato e ensinam à próxima geração a continuar. A busca pela terra destinada começa com uma reza lançada a Ñanderu, o Criador. Em seguida vem o tempo de espera até saberem onde ela fica.

Estela e o filho / Foto: Giovana Fleck – Sul21

Karai Mirim, uma das quatro lideranças responsáveis pela retomada Mbya Guarani de Yjere, conta que foi assim que o lugar se tornou a tekoa de seu grupo. Vivendo na reserva de Cantagalo, com 250 hectares de terra super populosos e sem opção de plantio, ele diz que pesquisou durante anos lugares que ainda tinham área verde preservada e que haviam sido ocupados por indígenas no passado. Esperou que viesse uma resposta. Certa noite, sonhou com os ancestrais falando de uma terra na qual ele não poderia mexer, mas teria de cuidar. Quando encontrou um livro que mostrava peças arqueológicas guarani retiradas na região do Belém Novo, soube que tinha encontrado o lugar.

“Nós estávamos pensando sempre, até dor temos no coração, não temos lugar para viver à vontade, para aproveitar, criancinhas também e como vamos ser daqui pra frente? Pensamos muito, muito mesmo. É até doença para nós isso. Mas, através de Deus, Nosso Criador, nós temos força. Ano a ano estávamos pensando em conseguir uma aldeia para nós. Pensando, pensando e também reza para saber. Onde poderíamos chegar, um pedacinho para seguir através de nosso Criador, porque ele que criou o mundo para nós”, conta ele.

Em meio às árvores nativas, ele faz planos. Para as crianças, que correm livres no lugar, ele diz que vê uma vida onde poderão aprender algo mais do que a do branco. Apesar de terem vindo da Terra Indígena do Cantagalo, a maioria delas nunca tinha visto um lugar de preservação como aquele. A região é um ponto de transição onde estão presentes os biomas Pampa e Mata Atlântica.

“Aqui é melhor, porque tem o mato bem legal. Eu nunca vim aqui, essa foi a primeira vez. Eu achei muito maravilhoso. Não queria mais voltar para lá”, diz Estela, uma jovem Guarani que carrega o filho nos braços.

Na retomada, ela chegou com os pais, a irmã e o bebê.

“Nós fiquemo alegria”, lembra Karai Mirim, falando da chegada. “Não está na escrita, mas para nós é tudo certinho que aqui é nosso lugar.”

Mesmo sob pressão, o grupo diz que pretende seguir em Yjere: “Ninguém vai tirar de nós. Porque nós temos direito, essa área não é para empresa, a maioria mais rico, é para nós. Um pedacinho pelo menos é para nós.”

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