Milton Dinho/ Foto: Reprodução

Na tarde do último domingo (23/12), o locutor da Rádio Cultural FM e militante do movimento negro Milton Expedito do Nascimento, o Milton Dinho, de 33 anos, foi assassinado pela Polícia Militar, após supostamente não ter parado durante uma abordagem, em , região metropolitana de .

Dinho, que também era rapper e ajudante de motorista no Procon estadual há oito anos, foi baleado no abdômen, no bairro sorocabano de Jardim Montevideo. Ele chegou a ser socorrido na Unidade Pré-Hospitalar (UPH) da zona norte, mas não resistiu aos ferimentos. O corpo foi sepultado no Cemitério Memorial Park, no Jardim Júlio de Mesquita Filho, na manhã de natal.

A versão veiculada pela PM, e reproduzida por diversos veículos da mídia comercial, é a de que Dinho teria sido “confundido com um criminoso” ao passar por uma blitz sem parar, depois de ter reavido uma moto sua, da qual havia prestado queixa do roubo. Mais uma vez culpabilizando a própria vítima, a corporação alegou ainda que Milton “deveria ter informado imediatamente assim que localizou o veiculo, mas não o fez”. Como se esse fosse um motivo perfeitamente razoável para se executar alguém.

Mesmo se fosse um ladrão que tivesse sido morto dessa forma, não diminuiria em nada o absurdo da situação. Vidas negras importam, mais do que motocicletas. Ainda que o Estado brasileiro discorde. O sistema de “segurança pública” nacional, ideologicamente forjado pelas elites socioeconômicas do país, prossegue com o extermínio programado da juventude preta e pobre.

Movimentos sociais de São Paulo repudiaram o ocorrido. “Vemos o crescente assassinato de lideranças negras: Marielle Franco, Moa de Katendê, Charlione Albuquerque e Milton Dinho, ao mesmo tempo cresce o assassinato de LGBTs e de mulheres.” destacou em nota a União de Negros e Negras Pela Igualdade (UNEGRO), grupo pelo qual Dinho militava. No mesmo documento, o coletivo chamou de “inverossímil” a narrativa apresentada pela PM-SP.

“A história de sua morte é terrivelmente absurda, pois mistura , violência e a prática naturalizada de execução antes da abordagem, de atirar primeiro e depois averiguar, de considerar que um negro é sempre um “suspeito””, afirmou em comunicado o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) paulista. “As autoridades brasileiras silenciam diante deste cruel tribunal das ruas, no qual a força policial reúne ao mesmo tempo a função de abordar, prender, julgar, condenar e submeter a pena, tudo em fração de segundos, no apertar do gatilho” diz outro trecho do texto.

Segundo o Atlas da Violência 2018, 76,2% das 5.896 mortes por intervenção policial registradas no ano anterior foram de pessoas negras. O levantamento aponta ainda que, entre 2006 e 2016, a taxa de homicídios de negros cresceu 23,1%. No mesmo período, a taxa entre os não negros teve uma redução de 6,8%.

“É como se, em relação à violência letal, negros e não negros vivessem em países completamente distintos. Em 2016, por exemplo, a taxa de homicídios de negros foi duas vezes e meia superior à de não negros (16,0 por 100.000 habitantes contra 40,2)” avalia o relatório, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).