Revolta popular contra o governo no Haiti

Milhares de manifestantes entraram em confronto com a polícia na capital haitiana, Porto Príncipe.

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Foto: Estailove St. Val/EPA-EFE

Milhares de haitianos marcharam em Porto Príncipe e outras partes do no mês passado, no dia 18 de novembro, domingo, e protestaram contra as acusações de apropriação indébita do governo de um programa venezuelano que forneceu ao país petróleo subsidiado. Os manifestantes exigem um julgamento dos funcionários envolvidos no uso indevido de fundos do programa. Alguns também pediram a renúncia do presidente Jovenel Moise.

Uma investigação do Senado do concluiu que pelo menos 14 ex-funcionários do governo desviaram cerca de 3,8 bilhões de dólares sob a administração do ex-presidente Michel Martelly. Os manifestantes exigiam respostas sobre o paradeiro dos recursos do Petrocaribe, um programa de assistência ao petróleo patrocinado pela Venezuela.

Milhares de manifestantes entraram em confronto com a na capital haitiana, Porto Príncipe. Seis dias de protestos e deixaram 11 pessoas mortas, incluindo dois agentes da repressão. Os manifestantes exigem que o presidente Jovenel Mois renuncie. Cantando slogans antigovernamentais, os manifestantes, a maioria caminhando mas alguns estavam em grupos de motocicletas, convergiram para o subúrbio afluente de Pétion-Ville, mas foram na sua maioria detidos por policiais da tropa de choque cujos veículos blindados bloquearam a estrada. Alguns manifestantes incendiaram diversas pilhas de pneus, ergueram dezenas de barricadas, jogaram pedras, e a disparou gás lacrimogêneo e usou armas de fogo – contra pessoas desarmadas – para tentar dispersar a manifestação. Não conseguiram. Uma viatura policial foi incendiada.

A semana de conflitos paralisou o comércio, forçou escolas e lojas a fechar e obrigou muitos haitianos em Porto Príncipe, a capital, a se refugiar em suas casas. Várias pessoas foram mortas por agentes da abriram fogo contra uma multidão, após o veículo em que estavam ter ficado desgovernado, após perder uma roda.

As mobilização surgiu por meio das mídias sociais, após ter vindo à tona que o governo se apropriou indevidamente de bilhões de dólares, que deveriam ser destinados à reconstrução do país após o terremoto de 2010. A campanha pela transparência e pela indignação com o paradeiro do dinheiro forneceu o impulso inicial para as manifestações. Mas os deixam de traduzir também o descontentamento do mal-estar econômico e político do Haiti. Os líderes da oposição tentam aproveitar o momento para exigir a saída do presidente Jovenel Moise.

Foto: Dieu Nalio Chery

“As pessoas votaram em Jovenel Moïse porque acreditavam em seus discursos, e hoje eles estão percebendo que seus discursos estavam vazios e que cumpriu”, disse Evalière Beauplan, senador da oposição. “O presidente não inspira confiança”. Beauplan liderou uma investigação do Senado sobre o uso do dinheiro da PetroCaribe, que deveria ser gasto em projetos sociais e econômicos. Em um relatório divulgado no ano passado, o comitê de Beauplan acusou ex-funcionários do governo de terem desviado os fundos.

A campanha foi um movimento amplo, reunindo grupos díspares com uma infinidade de interesses e objetivos unidos em torno de uma pergunta simples: “para onde foi o dinheiro?”

Na quarta-feira, Moïse quebrou vários dias de silêncio sobre os protestos, transmitindo uma declaração gravada em que ele permaneceu desafiador em pedidos de sua saída. As manifestações neste outono são apenas a última versão do crescente descontentamento com Moïse.

Desde que conquistou a presidência em novembro de 2016, ele foi perseguido por acusações de inexperiência e incompetência. Sua vitória veio depois de um processo eleitoral de quase dois anos marcado por atrasos e alegações de fraude eleitoral. Mas os recentes protestos e os crescentes pedidos para que ele seja removido do governo deixaram alguns haitianos exasperados com o aparentemente interminável ciclo de “tumultos políticos” do país, marcado por frequentes mudanças de governo.

Embora o sofra com frequência desastres naturais incapacitantes – incluindo terremotos, inundações e furacões – talvez o principal desastre é a instabilidade política, com uma elite que, de tão corrupta e submissa aos interesses do capital estrangeiro, seria capaz de fazer corar até mesmo a brasileira.

Foto: Andres Martinez Casares
Foto: Andres Martinez Casares
Foto: Andres Martinez Casares
Foto: Andres Martinez Casares

Rafael Daguerre

Fotojornalista/Videorrepórter

Um dos fundadores da Mídia1508. "Ficar de joelhos não é racional. É renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas" ― Carlos Marighella.

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