O último sábado (01) marcou o terceiro fim de semana de protestos na contra o aumento do combustível e os altos custos de vida. Forças de segurança foram atacadas, lojas pilhadas, edifícios públicos e privados incendiados, e símbolos como o Arco do Triunfo foram pixados. A rebelião se espalhou pelo país, de Charleville Mezieres, no nordeste, à Marselha, no sul.

Em , mais de 265 pessoas foram presas, após manifestantes queimarem carros, quebrarem vitrines e jogarem projéteis e pedras contra as forças de segurança. Jornalistas foram feridos por estilhaços de bombas e tiros de balas de borracha. A forte repressão de nada adiantou, apenas inflamou ainda mais a dos trabalhadores que não recuaram e enfrentaram a polícia. Dos cerca de 100 feridos, boa parte era de policiais.

Os atos de rua e bloqueios de estrada começaram há duas semanas depois de o presidente Emmanuel Macron anunciar a criação de um novo imposto “ecológico” sobre combustíveis. Desde então a insatisfação com a medida só fez crescer, principalmente no meio rural, onde o carro é uma necessidade e não existem alternativas de transporte. De modo descentralizado, organizadas em grupos locais, centenas de milhares de pessoas têm participado das mobilizações, vestindo , obrigatórios em todos os carros e símbolo de emergência.

Como não poderia deixar de ser, é um movimento política e socialmente heterogêneo, com uma disputa nas ruas entre grupos de direita e de esquerda nas ruas. A alta dos combustíveis não atingiu apenas os assalariados, mas também os artesãos, os pequenos comerciantes, os , os profissionais liberais e outras camadas sociais intermediárias.

Essa heterogeneidade indica o seu enraizamento profundo na sociedade. Não se trata apenas de uma mobilização de uma vanguarda dos trabalhadores mais conscientes e organizados, mas sim de um fenômeno de massas, que levantou classes sociais normalmente mais despolitizadas.

 

“Os coletes amarelos triunfarão” / Foto: Aurélien Morissard

Os ativistas de esquerda que criticam a “confusão” ideológica dos coletes amarelos deveriam refletir sobre o que Lenin escreveu em 1916:

“Quem espera uma revolução social ‘pura’ nunca viverá o suficiente para vê-la. Essa gente fala de revolução sem entender o que é uma revolução […] A revolução socialista na Europa não pode ser outra coisa senão uma explosão da luta de massas por parte de todos e cada um dos diversos elementos oprimidos e descontentes. Inevitavelmente, setores da pequena burguesia e dos trabalhadores atrasados participarão dela – sem essa participação, a luta de massas é impossível, sem ela nenhuma revolução é possível – e, inevitavelmente, levarão ao movimento seus preconceitos, suas fantasias reacionárias, suas debilidades e erros.”

Essas linhas caracterizam bem o momento político atual da França. Ao mesmo tempo, indicam também o papel que deveriam desempenhar as organizações sindicais e políticas do movimento dos trabalhadores nestas circunstâncias: o de unir a luta de massas e orientá-la para a conquista do poder e à derrubada do capitalismo.

Nesse sentido, a diferença entre o que escreveu Lenin há um século e o que hoje faz a maioria dos “dirigentes” do movimento dos trabalhadores é gigantesca. De fato, não “dirigem” nada. Ainda pior, dão as costas à revolta popular, quando não a atacam. Um filme bastante parecido com o que vimos aqui no Brasil, em ocasiões como as jornadas de 2013 e a mais recente greve dos caminhoneiros.

Por exemplo, o dirigente da Confederação Francesa Democrática do Trabalho (CFDT), Laurent Berger, qualificou o movimento dos coletes amarelos como “totalitário”. Na sua qualidade de agente da burguesia dentro do movimento dos trabalhadores, Berger não perde nunca uma oportunidade para defender a ordem estabelecida, isto é, a dominação (“totalitária” em certo sentido) dos bancos e das multinacionais.

O presidente da maior central sindical francesa, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), Phellipe Martinez, vai pela mesma linha.  Ele afirma entender a ira “legítima” dos Coletes Amarelos, mas se recusa a envolver sua organização nesse movimento porque não quer ver a CGT “marchar ao lado da Frente Nacional”. No entanto, ao mesmo tempo, reconhece que a extrema-direita é uma “minoria” no movimento.

A demanda inicial e central dos Coletes Amarelos é o cancelamento do aumento dos impostos sobre os combustíveis, mas Martinez não apoia essa pauta. Pelo contrário, ele pediu ao governo para revalorizar o salário mínimo, para que os trabalhadores possam – entre outras coisas – comprar “veículos limpos”.

Esta posição é completamente descolada da realidade. É claro que o povo deve lutar por aumentos do salário mínimo e dos salários em geral. Mas isso não contradiz em nada reivindicação que está no cerne da insatisfação das massas na França.

O tributo defendido por Macron nada tem a ver com o meio ambiente. É apenas mais uma tentativa  do Estado de beneficiar a alta burguesia. Afinal. o dinheiro do aumento dos impostos terminará nos cofres dos patrões, na forma de subsídios e brindes fiscais. Se o governo necessita de alguns bilhões de euros para sustentar seu orçamento, deveria tomá-los dos cofres das grandes companhias, não dos bolsos das pessoas!

Recusando-se a se engajar nessa luta mais do que justa, Martinez abandonou este terreno para os demagogos profissionais da extrema-direita, que descobriram, nos últimos dias, que também são contra esse imposto e estão dando conhecimento disso em voz alta. Felizmente, as bases dos sindicatos franceses têm ignorado as ordens do dirigente. Elas se mobilizaram junto aos Coletes Amarelos. Criaram enlaces e realizaram ações conjuntas. Este é o caminho para se seguir em frente!

Paris, França, 1° Dezembro, 2018 / Foto: Stephane Mahe

Paris, França, 1° Dezembro, 2018 / Foto: Stephane Mahe

Paris, França, 1° Dezembro, 2018