Foto: Joana Berwanger/Sul21

Sétimo quilombo urbano de Porto Alegre, o Quilombo Lemos vive momentos de tensão. Seus moradores foram informados por representantes do Estado que podem ser despejados a qualquer momento, a partir de hoje (12/11). A ação de reintegração de posse é movida pelo Asilo Padre Cacique, instituição “franciscana” proprietária de mais de 30 imóveis. A decisão, da 17ª Vara Cível da cidade, ameaça desabrigar cerca de 60 pessoas, inclusive idosos, crianças e um portador de necessidades especiais.

A comunidade convoca seus apoiadores para a vigília que está sendo realizada contra o desalojo. O quilombo fica na Avenida Padre Cacique nº 1250, Praia de Belas, zona sul da capital gaúcha. Informações atualizadas sobre a mobilização podem ser conseguidas na página de Facebook Somos Quilombo Lemos

Na última quarta-feira (7/11) a área amanheceu invadida por um oficial de justiça, acompanhado de vários agentes da tropa de choque da Brigada Militar, mascarados e fortemente armados.

A tentativa de reintegração de posse sequer cumpriu os protocolos legais, como intimar o representante do quilombo, entrar em acordo quanto a prazos para desocupação, ou levar policiais devidamente identificados, o que demonstra como o Estado brasileiro atropela suas próprias leis, quando se trata de defender os interesses do capital.

Oficial de Justiça e policiais militares invadem quilombo | Foto: Joana Berwanger/Sul21

Munidos de uma escavadeira, os PMs disseram aos presentes que teriam apenas 30 minutos para deixar o terreno, que teve sua luz e água desligadas. Comunicaram ainda que aqueles que ficassem “iriam se machucar”.

A intimidação não conseguiu vencer a dos quilombolas. Após forte mobilização, no local e nas redes sociais, o cumprimento da decisão acabou sendo adiado.

Na tarde da quinta-feira (8), o presidente do Asilo Padre Cacique, o advogado Edson Brozoza ameaçou publicamente os quilombolas, a quem chamou de “invasores afro-descendentes” e “bando de marginais”.

“Esses invasores vão sair daí nem que seja a última coisa que eu faça na minha vida, de qualquer jeito. E se invadirem nosso lar, vai dar morte” afirmou. “Uma dezena pelo menos, eu levo pro inferno”.

Em seu discurso, carregado de ódio racial, fez ainda questão de demonstrar sua simpatia político-partidária. Disse que quando o presidente eleito (PSL) assumir o governo, iria “acabar de vez com essa palhaçada”.

Brozoza: “Uma dezena pelo menos, eu levo pro inferno”. |  | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Filho dos fundadores do Quilombo, Sandro Gonçalves de Lemos lamenta a intransigência da presidência atual do asilo. Ele lembra que o terreno já é posse de sua família há mais de meio século. “A gente mora aqui há 54 anos. A área não era de ninguém. Vieram mexer com a gente depois que o pai faleceu”, conta.

Eles ocuparam a área ao lado do asilo e a ele se dedicaram sua vidas: a matriarca Delzia de Lemos serviu ao Padre Cacique por 35 anos. Após 46 anos de serviços prestados, Jorge de Lemos, o patriarca, morreu em 2008, logo que chegou em casa do trabalho.

Seus últimos esforços foram ainda dedicados à instituição que agora quer tirar o teto de seus descendentes. Exatamente como faziam os antigos senhores de escravos quando não podiam mais usufruir de sua força de trabalho.

Esta é a truculência habitual com a qual proprietários movidos pela expulsam famílias não brancas de seus pequenos pedaços de terra.

A mensagem da ordem de despejo é clara. O consórcio Estado-mercado diz que negros não podem estar na área “nobre” de uma metrópole, a não ser como serviçais. O interesse, no final das contas, é racista e territorial. É contra isso que os Lemos fincam o pé.