Na última quinta (1/11), véspera de feriado, Thiago de Souza Mendonça, de 14 anos, estava com os amigos em uma praça perto de casa, na Cidade de Deus, zona oeste do Rio, quando foi atingido, nas costas, por um tiro de fuzil. O menino ainda conseguiu correr e chegar até a mãe, que desesperada, o levou  com a ajuda de parentes e vizinhos ao Hospital Lourenço Jorge, no bairro da Barra da Tijuca. O incidente aconteceu no mesmo dia de uma “operação” dos policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da favela.

Thiago de Souza Mendonça / Foto: álbum de família

“Durante 47 minutos eu implorei por ajuda das pessoas para elas ligarem pro resgate e socorrerem meu filho. Eu o vi agonizando durante todo esse tempo. Ele sangrava muito”, lembra Rosângela de Souza, de 36 anos, mãe da vítima.

Filho de um mototaxista e de uma vendedora de sanduíches, Thiago passou por três cirurgias, mas depois de 2 dias de luta, veio a óbito na tarde sábado (3). O corpo do menino ficou no Instituto Medico Legal (IML) até o início desta terça-feira porque a família não tinha dinheiro para sepultar. Parentes e vizinhos tiveram de fazer uma vaquinha para poder enterrá-lo com dignidade. Familiares denunciam que, mesmo passados seis dias desde o ocorrido, o local em que o adolescente sofreu o disparo ainda não foi periciado.

Morto enquanto fechava a janela

 

Wanderson Salustiano dos Santos/ Foto: álbum de família

No mesmo dia em que Rosângela – que hoje segue a base de medicamentos – recebia a notícia da morte do filho, mais um jovem era alvejado por um disparo de arma de fogo. Morador da Fé, na Penha, Wanderson Salustiano dos Santos, de 16 anos, morreu na manhã de sábado (3/11), atingido por uma bala dentro do seu quarto.

De acordo com a família, o adolescente estava dormindo e foi baleado quando acordou assustado e se levantou para fechar a janela. Assim como no caso de Thiago, policiais da UPP local estavam envolvidos no tiroteio. Wanderson foi enterrado segunda-feira (5/11) no Memorial do Carmo, no Cajú, na zona norte da cidade.

Faixa de Gaza

No último domingo (5), outro jovem, de 17 anos, foi morto com um tiro na cabeça enquanto passava de bicicleta na Rua Leopoldo Bulhões, em Manguinhos, também na zona norte. O local é conhecido como  “Faixa de Gaza”, em referência à região da Palestina, famosa pela violência imposta aos seus habitantes pelo Estado de Israel. Mais uma vez, a morte se deu em meio a uma troca de tiros da qual participaram policiais da UPP.

Não existe bala perdida

Como de costume, a Polícia Militar se apressou em negar que os disparos que mataram os jovens tenham saído das armas de seus agentes. Como se fizesse alguma diferença. De uma maneira ou de outra, todas as balas “perdidas” nas favelas sempre vêm da polícia. Todas elas vêm do Estado brasileiro, do seu discurso hipócrita de “guerra às drogas”, apenas a desculpa mais recente para a sua histórica guerra contra os pobres.

Uma guerra que, no Rio de Janeiro, se torna cada dia mais aberta. Na quinta feira, véspera do feriado em que os adolescentes foram mortos, o governador eleito Wilson Witzel explicava à imprensa qual vai ser sua política de “segurança pública”: “A polícia vai mirar na cabecinha e… fogo.”

Na mesma semana, o ex-juiz federal também divulgou que deverá ir a Israel, na companhia do parlamentar Flávio Bolsonaro (PSL). O objetivo: conhecer um modelo de drone equipado com arma, capaz de atirar enquanto sobrevoa uma região. O equipamento, que já é utilizado pelo Estado israelense para matar palestinos, poderá ser empregado para matar favelados no Rio.

Nunca o apelido “Faixa de Gaza” fez tanto sentido…